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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 2

Na postagem anterior destacamos o papel da cultura espiritual japonesa na preservação de costumes e tradições que se observam de muito tempo aos dias de hoje no cotidiano japonês, e perpassam a prática do Shiatsu. Cumpre apresentar a partir de agora aspectos que não poderão escapar da citação às correntes religiosas de maior influência no Japão – o Xintoísmo (1), religião oficial do Japão, e Budismo, e também as ideias revisitadas por religiões novas mas bem estabelecidas, como a Igreja Messiânica e o Seicho-no-ie.

Assim, quando necessário as mencionaremos com uma apresentação muito breve sobre aquilo que relaciona o texto a um dado costume ou tradição de uma dessas religiões.

Japanese Baths

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 2

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Limpeza energética

Image result for misogi-shuhoÉ próprio do Xintoísmo e da cultura tradicional japonesa como um todo, a reverência à natureza e seus fenômenos. Desse modo, o vento, as tempestades, eclipses, a noite, a lua e o luar, o mar, e também a flora e a fauna permeiam a música, as artes plásticas e cênicas. O enredo típico, em tais artes, se faz pela simples alusão, descrição e adjetivação do elemento natural em foco, não tendo a aparente necessidade ocidental de colocar o ser humano no protagonismo das obras.

Para o xintoísmo, a natureza é pura, e todos os seus elementos em sua forma mais pura (Kamis) são entidades divinas – facetas do Absoluto. Assim, o ser humano deve buscar sua pureza, para se aproximar de sua condição divina essencial.

Imagem de um sentô (casa de banho, 1901)

Essa maneira de enxergar a vida torna os japoneses devotos da limpeza do corpo e da alma, e por lá os banhos tradicionais tem uma conotação para além da simples higiene da pele.

O furô (banheira) torna-se ofurô(2), e os ritos como o Misogi-shuho (banho ritual) estão entre os mais importantes Harae (rituais de purificação xintoístas). A cultura da limpeza  no Japão faz com que sapatos não entrem nas casas, o lavar de mãos mesmo antes de entrar em certos ambientes seja corriqueiro; O popular Shiatsu “de rua”, feito em cadeiras em shoppings e aeroportos é oferecido sempre com um tecido limpo intermediando as mãos do terapeuta e cliente; E nos consultórios, o ambiente limpo, e a roupagem adequada são costumes atrelados a essa noção intrínseca. A higiene é uma prioridade no dia a dia das pessoas, independente de qualquer devoção, e de que atividade for prestada.

Uma pessoa limpa é uma pessoa reta, uma pessoa moralmente forte.

Em tudo o que se faz, carrega-se essa forte noção, e assim deve ser com o Shiatsu quando alcança o esplendor de sua potencialidade.

O Shiatsu limpa a energia, renova-a, aproxima da retidão. Este caráter se verifica tanto na disciplina necessária em seu aprendizado, como a concentração e foco empregados em sua prática.

Quando fazemos Shiatsu, praticamos um ritual de limpeza energética. Estamos em busca de limpar o leito dos rios internos (meridianos) para que a água (energia, ki) corra livre por ele. Estamos em busca da liberação somato-psíquica que torna o ser fluido, puro, mais próximo de seu estado naturalmente sábio.

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*Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

NOTAS:

(1) No Xintoísmo, reúnem-se as crenças espirituais mais antigas do Japão, em uma só organização. Seu nome é uma modernização do que seria Shen Tao para os chineses, ou seja, “Caminho Espiritual”. Shen tornou-se Xin, Tao, tornou-se To ou Do. Assim que a trilha do caminho espiritual, ou o professar da espiritualidade é tratada simplesmente dessa forma, Shintô.

(2) “O” (お) é um prefixo que indica exaltação, respeito, reverência. Quando se opta por dizer “furo”, refere-se a “uma banheira qualquer”. Já “ofuro” denota que é um banho particularmente voltado ao relaxamento, renovação, purificação.

Leia o ensaio completo:

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 1

Por Arnaldo V. Carvalho*

A cultura se faz presente em tudo o que uma pessoa faz, e como ela age, pensa e sente; Torna-se indispensável ao estudioso de Shiatsu tomar consciência da raiz cultural que molda o espírito dessa terapia oriental.
Vamos iniciar uma reflexão sobre aspectos fundamentais da cultura espiritual japonesa, ao longo dos dias desta semana, e de como ele se encaixa na prática do Shiatsu em regime de excelência, e essência. Boa Leitura!

Arnaldo V. Carvalho

Introdução

A vida e a morte, a saúde e a doença, os relacionamentos e seus moldes – e como lidar com esses aspectos da existência – são tratados pelas pessoas de acordo com suas culturas. Raízes culturais profundas por vezes confundem-se com a noção do que é ser, e funcionam como uma matriz esquemática aos próprios pensamentos do indivíduo. E isso não é diferente quando nos referimos à cultura japonesa, berço do Shiatsu.

Tudo o que se pode produzir leva em conta a história pessoal, a forma como a pessoa se criou. Escrevo em português, por exemplo, porque foi através dessa língua que aprendi a pensar verbalmente; e pensarei como brasileiro mas possivelmente com um toque lusitano, porque meu pai e a minha família do lado paterno é portuguesa.

Estruturamos um jeito de pensar segundo a mescla de facetas que vamos sistematicamente aceitando ou rejeitando no íntimo, durante a formação de nossas personalidades. O uso do verbo, falado ou escrito, possui portanto esse arcabouço cultural, e é usado sem que seja preciso lembrar disso. Isso é cultura, e vale para qualquer grupo ou indivíduo, de qualquer tempo ou lugar. Não é necessário afirmar-se ente cultural de um grupo social. Apenas se é.

No tocante à “cultura” de um povo, ela pode ser identificada como um fenômeno fluído, mutante, que de tempos em tempos particulariza suas dinâmicas, incluindo seus costumes e representações (1).

O que se pode observar nos costumes e representações dos japoneses é que sua música, dança, normas de etiqueta, religião, e práticas de saúde, seguem regidas por uma unidade implícita – resguardadas suas modificações ao longo do período – desde o surgimento do Shiatsu, no início do século XX, e mesmo antes dele. Desse modo, observar como tais aspectos culturais dialogam entre si, nos conscientiza de que, para quem é criado imerso neste panteão de saberes e fazeres, não é possível ter uma coisa sem a outra, sob o risco da descaracterização do próprio Shiatsu imerso nessa lógica que o origina e o inclui.

Em outras palavras, Shiatsu não pode ser compreendido apartado de tais raízes. Ele atrela-se com força as tradições japonesas, em especial as espirituais, e carrega-o em suas práticas. Afinal, os costumes e tradições espirituais abrigaram, por séculos, as artes da cura.

É preciso, pois deter-se sobre tais costumes, quando na busca de uma praxis terapêutica mais próxima da essencialidade que a originou.

Estamos afirmando que há um peso oculto dessa cultura, discretamente implícito, porém essencial, no modo de atuar de um praticante de Shiatsu.

Purificar corpo, mente e espírito; Contemplar; Fazer a energia fluir; Estar em harmonia com o Todo; Meditar; Conectar-se com a ancestralidade; Deixar-se conduzir pela sabedoria da Natureza; Reverenciar a vida e respeitar solenemente a morte, são características que fazem parte desse peso oculto, e participam de forma invisível do Shiatsu. Tais práticas conectam o Shiatsu com o “ser/estar” no mundo que frutificou como uma tradição mais ampla da cultura oriental: O espírito abrilhanta-se a cada ação humana. Sem tal perspectiva, o Shiatsu torna-se uma técnica apenas razoável, e provida no máximo de valor mecânico. Dentro dela, no entanto, o Shiatsu torna-se modo de viver, de desenvolver-se, de compreender a vida e encontrar o equilíbrio.

Na continuação desta série, iremos focalizar em cada um dos aspectos citados, observando os vínculos destes com o Shiatsu em sua condição de excelência.

(continua – Próxima parte: Limpeza Energética)

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(1) Ver: THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

* Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

Leia o ensaio completo (disponível a medida em que é publicado):

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/