Artigos e afins

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 3

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 3

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Ressaltamos, na parte anterior, sobre a importância da limpeza e purificação, na sociedade japonesa, em continuidade à ideia de que, quando o Shiatsu se dissocia dos costumes e tradições que regem sua cultura originária, ele perde parte de seu potencial. A pureza é o fator fundamental no aproximar o ser humano de sua própria essência e assim torna-se ente cósmico da existência (Kami). Agora, passemos por uma outra tradição igualmente valiosa – a do Jardim Japonês, igualmente parte de uma cultura tanto espiritual como cotidiana naquele país.

Corpo, Jardim Japonês

1

 

Shiatsu é cuidar e contemplar o jardim da Vida. Em cada indivíduo, no corpo-mente de cada um, a vida pulsa, o jardim floresce e se renova diariamente. A tradição japonesa de se planejar, construir e usufruir de jardins com rara beleza oriunda da combinação de elementos naturais e humanos nos ensina sobre a natureza do próprio Shiatsu.

 

O Jardim Japonês (日本庭園 nihon teien) busca ser um reflexo, uma expressão de quem o criou e o cuida, e ao mesmo tempo, tenta se fazer refletir no interior de quem o observa. Seu sentido se produz na conexão do exterior (ambiente, pessoas) com o interior (mente, energia), e por isso, ao observá-los podemos sentir sinestesicamente que há um propósito maior que apenas uma beleza estética.

 

Locais assim, criados para representar a Perfeição Cósmica da Vida e da Natureza, fazem parte do imaginário japonês desde a antiguidade. Jardins míticos e montanhas dotadas de rara beleza entre os elementos de sua paisagem são citados nas mais antigas poesias no país(1).

Image result for nihon teien

Suas remotas origens datam dos primeiros séculos, quando já se indicava a percepção milenar de que o Sagrado habita onde a harmonia se faz. Desse modo, os primeiros jardins eram locais naturais de privilegiada beleza, santuários bem cuidados pelos habitantes da Ilha Maior do Japão (Honshu). Por alguns séculos, foi assim, até que no período Asuka (por volta do século V), com a influência do Taoísmo e a chegada do budismo como fenômeno religioso, cultural e tecnológico, é que os jardins foram tornando-se alvo de planejamento e miniatura de paisagens imaginárias, com seus diferentes estilos tomando a forma como as que conhecemos até hoje.

 

Organicismo

pa_body_s

 

Observar a sociedade, o cosmos, a vida e estruturas humanas organizadas como um corpo vivo é também uma maneira de abstração e compreensão observável das diferentes culturas, através do tempo. Pensar no jardim como representação do corpo, seguindo ideias organicistas nos parece reflexão inevitável, pois nos ajuda a fazer dialogar o Shiatsu – cuja prática está calcada no equilíbrio do todo através do corpo – e a ideia de jardim, com seus diversos elementos que precisam encontrar uma unidade harmônica.

 

Assim como cada órgão ocupa um espaço e uma função no corpo, devendo trabalhar em harmonia pelo todo, os diferentes elementos presentes no jardim japonês também o fazem, criando uma unidade essencial. Pontes, lanternas, lagos, plantas, rochas, peixes, cada um tem um símbolo e um completa o outro. Símbolos da vida estão todos lá, elemento por elemento, interagindo entre si.

 

As rochas no jardim japonês, por exemplo, são repletos de significado, que variam segundo tamanho, posição, natureza e forma. Frequentemente, por exemplo, são agrupadas em somas auspiciosas: duas, três, cinco ou sete, embora; contudo, pedras colocadas individualmente exibem a representação da espontaneidade.  A combinação das rochas com a água representa o yin e o yang, e por falar nela, a direção de seu fluxo é muito importante. Se flui do leste para o oeste eliminará o mal, e do norte para o sul representa a atração mútua de yin-yang e portanto atrai boa sorte. Pontes simbolizam a possibilidade de continuidade de um única caminho através do relacionamento de duas partes antes separadas. Em jardins de areia, as estrias feitas com ancinho representam correntes de Ki (energia vital). Plantas com diferentes ciclos vitais são colocadas de forma a transparecerem as 4 estações. O ritmo da vida e os ciclos. Lanternas chamam a atenção para um caminho ou nicho específico.

 

O que serão nossas rochas e águas internas? Como podemos perceber lanternas e pontes no corpo na comunicação não verbal de tocar e ser tocado no Shiatsu? Fica o convite para a meditação em torno do tema.

 

Metáfora Universal

 

Jardim como representação de harmonia não é exclusividade oriental. Na cultura-judaico cristã, o paraíso é representado como um “jardim perfeito”, e a punição divina pelo pecado é justamente a expulsão de tal paraíso. Não havendo o conceito de “humano pecador” na cultura original japonesa(2), a busca pelo estado edênico é mais uma maneira de reconhecer o interno no externo e vice-versa.

 

Para além de culturas, a relação do Homo sapiens com a estética e sua representação interior de harmonia natural é aparentemente intrínseca a condição humana.

 

O manejo do jardim, suas consequências, seu propósito são metáforas permanentes para as atitudes humanas, e estão bem representadas no filme “Muito além do Jardim”.

 

Quando o Shiatsu se reencontra com a Unidade na representação do Jardim, portanto, alinha-se novamente com as antigas tradições que compõem a cultura japonesa, e mais profundamente, com o sentido de humanidade que habita a cada um para além dos povos.

 

Arte de cuidar

 

Caso o jardim interior esteja bem cuidado, ele permanece em equilíbrio, a contemplação se torna fluída e a mente é alimentada pelo sentido simples de cuidar para viver. Chegamos, pois, ao âmago da experiência de ser terapeuta.

 

Jardins Japoneses não são belos sem esforço. O equilíbrio não se faz somente esperando cair do céu. Um paradoxo do pensamento oriental é uma das máximas do taoísmo: a abundância vem se você estiver no lugar certo, na ação certa. Assim ela vem, e sem esforço. Desavisados têm negligenciado a ação certa e passaram a imaginar que o sucesso não requer esforço, apenas estar no “lugar certo”. A metáfora do jardim ensina que o lugar certo é o que você faz dar certo. Planejar o jardim da Vida, o espaço que ele ocupa, cuidar para que ele esteja sempre em harmonia, é tarefa diária. Shiatsu, principalmente sua base tradicional, é atividade diária.

 

Todos os dias se removem as daninhas. Todos os dias removemos negatividade de nossas mentes. Todos os dias se renovam as águas. Todos os dias nos alimentamos bem e respiramos bem, renovando o sangue. Todos os dias se protege o que for delicado dos fortes ventos. Todos dias as nossas emoções mais sutis são protegidas. Todos os dias se verificam os musgos das rochas. Todos os dias nos alongamos para a saúde dos ossos, de nossa estrutura. E tudo isso se faz com contato. Toque. Contato. Toque. Shiatsu.

Image result for caring japanese garden

Arte de contemplar

 

O hanami (que quer dizer “ver as flores” é a semana de contemplação das Sakuras – flores de cerejeira. No Japão, na época do hanami há um grande feriado nacional. As pessoas são liberadas para estenderem esteiras nos gramados de parques, jardins e quintais, e simplesmente apreciarem. Todos querem fazer contato com a natureza, sua delicadeza, perfeição, impermanência, e assim reverenciarem o Estar Vivo.

 

Image result for mokiti okada satoryA Contemplação é, para a cultura japonesa, motivo não só de relaxamento, mas de elevação espiritual. Mokiti Okada(3), fundador da Igreja Messiânica, ao contemplar a evolução de sua pipa no céu alcança o Satori(4) e se ilumina. Os exemplos da iluminação pela contemplação são inúmeros e estão presentes das mais diferentes religiões do Japão.

 

A atitude  do Shiatsu mais uma vez é comparável com um passeio de contemplação por um jardim japonês. Esse jardim-corpo é motivo de cuidado e reverência, regozijo e conexão.  

 

Receber Shiatsu é poder contemplar o próprio jardim interior, e a ação do tempo sobre ele. O terapeuta é sol e chuva, dia e noite, e o praticante, observador de si mesmo, paisagem onde a Vida acontece. E o que faz parte do ato da contemplação? O silêncio. O Shiatsu precisa do silêncio. Não estamos nos referindo a não falar. É preciso ir além. Os praticantes de Shiatsu precisam entender que entre uma pressão e outra sobre o corpo de seus atendidos, há um silêncio. Uma pausa na partitura, que dá sentido à música do Contato. Isso é o intervalo da contemplação.

Image result for contemplating japanese garden

O terapeuta, ao mesmo tempo contemplador desse jardim sagrado, é também um jardineiro que busca ser parte da própria paisagem, busca ser a paisagem com que está lidando. A harmonia da paisagem será reflexo do Eu interno e vice-versa, pois no ato terapêutico do Shiatsu o Uno encontra sua plenitude.

 

Inclinações humanas: propósitos dos jardins das almas

 

Jardins japoneses possuem estilos variados, como existem as inclinações humanas: Há jardins de areia, destinados à favorecer a meditação através das poucas cores e do simbolismo da impermanência; Há jardins simples destinados a “preparar” o espírito de quem entrará em uma casa concebida para a Cerimônia do Chá; Há jardins-santuários, destinados à reverenciar os Kamis; e há os jardins de passeio, voltados exclusivamente para a contemplação, envolvendo seus observadores com paisagens cuidadosamente compostas.   

Image result for nihon teien

Ao entrar em contato com um jardim, é preciso respeitar sua proposta, entrar nela, ser a proposta. Desse modo, a conduta terapêutica no Shiatsu não pode ultrapassar as inclinações de seu atendido, e o atendido não deve ter expectativas maiores de seu tratamento para além do que ele e terapeuta somados realmente são.

***

NOTAS:

  1. O Man’yōshū, literalmente a “Coleção das Incontáveis Folhas” é a mais antiga compilação de poemas da poesia Japonesa. Datado do século VIII, no apogeu do período nominado “Nara”, ele reproduz poemas de tempos anteriores e do então presente.
  2. Não há conceito de pecado, mas há o conceito de desonra à família, a ancestralidade, e ao imperador – O pesar das consciências por artifícios que estimulam a culpa parece ser uma das mais universais formas de controle social e se apresenta desde tempos imemoriáveis.
  3. Mokiti Okada (岡田茂吉, Okada Mokichi) (23 de dezembro de 1882 — 10 de fevereiro de 1955) foi o fundador da Igreja Messiânica Mundial (世界救世教, Sekai Kyusei Kyo), na qual é conhecido pelo título honorífico de Meishu-sama (明主様, Meishu-Sama, Senhor da Luz).
  4. Satori, o estado de iluminação segundo a tradição japonesa.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

Anúncios
Artigos e afins

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 2

Na postagem anterior destacamos o papel da cultura espiritual japonesa na preservação de costumes e tradições que se observam de muito tempo aos dias de hoje no cotidiano japonês, e perpassam a prática do Shiatsu. Cumpre apresentar a partir de agora aspectos que não poderão escapar da citação às correntes religiosas de maior influência no Japão – o Xintoísmo (1), religião oficial do Japão, e Budismo, e também as ideias revisitadas por religiões novas mas bem estabelecidas, como a Igreja Messiânica e o Seicho-no-ie.

Assim, quando necessário as mencionaremos com uma apresentação muito breve sobre aquilo que relaciona o texto a um dado costume ou tradição de uma dessas religiões.

Japanese Baths

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 2

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Limpeza energética

Image result for misogi-shuhoÉ próprio do Xintoísmo e da cultura tradicional japonesa como um todo, a reverência à natureza e seus fenômenos. Desse modo, o vento, as tempestades, eclipses, a noite, a lua e o luar, o mar, e também a flora e a fauna permeiam a música, as artes plásticas e cênicas. O enredo típico, em tais artes, se faz pela simples alusão, descrição e adjetivação do elemento natural em foco, não tendo a aparente necessidade ocidental de colocar o ser humano no protagonismo das obras.

Para o xintoísmo, a natureza é pura, e todos os seus elementos em sua forma mais pura (Kamis) são entidades divinas – facetas do Absoluto. Assim, o ser humano deve buscar sua pureza, para se aproximar de sua condição divina essencial.

Imagem de um sentô (casa de banho, 1901)

Essa maneira de enxergar a vida torna os japoneses devotos da limpeza do corpo e da alma, e por lá os banhos tradicionais tem uma conotação para além da simples higiene da pele.

O furô (banheira) torna-se ofurô(2), e os ritos como o Misogi-shuho (banho ritual) estão entre os mais importantes Harae (rituais de purificação xintoístas). A cultura da limpeza  no Japão faz com que sapatos não entrem nas casas, o lavar de mãos mesmo antes de entrar em certos ambientes seja corriqueiro; O popular Shiatsu “de rua”, feito em cadeiras em shoppings e aeroportos é oferecido sempre com um tecido limpo intermediando as mãos do terapeuta e cliente; E nos consultórios, o ambiente limpo, e a roupagem adequada são costumes atrelados a essa noção intrínseca. A higiene é uma prioridade no dia a dia das pessoas, independente de qualquer devoção, e de que atividade for prestada.

Uma pessoa limpa é uma pessoa reta, uma pessoa moralmente forte.

Em tudo o que se faz, carrega-se essa forte noção, e assim deve ser com o Shiatsu quando alcança o esplendor de sua potencialidade.

O Shiatsu limpa a energia, renova-a, aproxima da retidão. Este caráter se verifica tanto na disciplina necessária em seu aprendizado, como a concentração e foco empregados em sua prática.

Quando fazemos Shiatsu, praticamos um ritual de limpeza energética. Estamos em busca de limpar o leito dos rios internos (meridianos) para que a água (energia, ki) corra livre por ele. Estamos em busca da liberação somato-psíquica que torna o ser fluido, puro, mais próximo de seu estado naturalmente sábio.

Related image

***

 

*Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

NOTAS:

(1) No Xintoísmo, reúnem-se as crenças espirituais mais antigas do Japão, em uma só organização. Seu nome é uma modernização do que seria Shen Tao para os chineses, ou seja, “Caminho Espiritual”. Shen tornou-se Xin, Tao, tornou-se To ou Do. Assim que a trilha do caminho espiritual, ou o professar da espiritualidade é tratada simplesmente dessa forma, Shintô.

(2) “O” (お) é um prefixo que indica exaltação, respeito, reverência. Quando se opta por dizer “furo”, refere-se a “uma banheira qualquer”. Já “ofuro” denota que é um banho particularmente voltado ao relaxamento, renovação, purificação.

Leia o ensaio completo:

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/