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Os muitos Shiatsus

Os muitos Shiatsus

Publicado em Julho 3, 2012 por

Os muitos Shiatsus

Uma conversa sobre escolas e estilos

Por Arnaldo V. Carvalho

Anos atrás, uma pessoa me ligou interessada em fazer um curso comigo. No meio do caminho ela afirmou já ser formada em Shiatsu, e quando lhe perguntei “qual estilo você pratica”, ela assumiu um tom de voz de surpresa, confusão e lançou: “Estilo?! Como assim? Faço Shiatsu ora!”. “Bem”, respondi eu, “é que há muitos tipos de Shiatsu e se você me situar o seu posso falar um pouco mais sobre o que o nosso curso pode ter a oferecer para você”. A pessoa simplesmente desligou o telefone.

Esse é o episódio comum no Brasil, e muitos praticantes somente descobrem que o universo do Shiatsu é bem maior do que aquele a que foi apresentado em um curso muito depois – quando descobrem. Na maioria das vezes, o primeiro contato com a existência de outras formas de praticar Shiatsu choca o profissional. Até porque o ser humano não costuma gostar de “saber por terceiros” de algo que aparentemente deveria lhe ter sido transmitido por quem o ensinou. Cabe aqui um exemplo verídico:

Certa vez um terapeuta de Shiatsu recém chegado do Japão me pediu orientação acerca de sua própria formação. Ele descobrira somente no Brasil a Teoria dos 5 elementos e diversas outras teorias da medicina oriental que não lhe foram apresentadas por sua professora japonesa. Sentia-se enganado por ela. Passou pelo período de acreditar que ou a Sensei não era preparada, ou negava-se a ensinar o que sabia. Procurei lhe explicar que há muitos caminhos para o bom Shiatsu, e no Japão não é mesmo comum o uso de algumas teorias da MTC, que aqui a maioria das escolas ensina. À medida que ia ampliando sua percepção, compreendeu mais sobre essa multiplicidade de técnicas aplicáveis pelos praticantes de Shiatsu.

O problema inclusive passa pelos próprios formadores. A realidade conhecida por vezes é pequena, e tomada como a única. Ouço com freqüência a defesa veemente, inclusive por profissionais experientes e influentes, que “Shiatsu é um só”. Trata-se de um discurso romântico, mas tal afirmativa só pode ser considerada após enfrentarmos algumas perguntas:

– Se Shiatsu é um só, qual seria então o “verdadeiro”? Seria a técnica que Masunaga ensina, usando a MTC e a palma das mãos na maior parte das pressões seria Shiatsu? Ou seria a técnica de Namikoshi, que ensina pontos e protocolos baseados na medicina ocidental? Ou o ainda Shiatsu seria o método Ko-ho, desenvolvido no seio das artes marciais? Quem sabe ainda o “Shiatsu que é um só” seria o do povo, o povo japonês que começou a trazer informalmente a técnica para o Brasil nas primeiras décadas do séc. XX? E se analisarmos o Shiatsu de cada uma dessas famílias que estabeleceram colônias aqui, veremos a utilização dos mesmos toques, pontos, pressões?

Para tantas questões há um argumento reducionista popular na boca de muitos profissionais da MTC: “Shiatsu é um pedaço do tui-na chinês, uma simplificação que os japoneses fizeram”. A afirmativa, mais uma vez, mostra o despreparo e/ou a falta de entendimento dos contextos históricos que acarretaram na criação do Shiatsu, no desenvolvimento dos estilos, e nas diferenças filosóficas, teóricas e práticas entre uma e outra técnica. Haver fortes pontos de contato entre as culturas chinesas e japonesas não indica que uma cultura plasma a outra simplesmente. Seria como dizer que a cultura brasileira é um mero desdobramento da portuguesa.

As tentativas de compreender o Shiatsu como um só até certo ponto buscam também criar unidade entre práticas com características muito próprias, muitas vezes distintas, que justifique nomear todas elas como Shiatsu. E, se ir aos meandros da história nos faz compreender a origem de cada desdobramento do Shiatsu, para enxergar os fatores que caracterizam cada um desses estilos, deveremos ir fundo em nossas investigações, e perceber o que une cada uma delas a uma só essência, o que torna enfim possível modos tão diferentes de pensar e agir ainda assim reunirem-se sob um só nome.

Para o propósito deste artigo, vamos nos limitar em dizer que quem conseguiu chegar a esse nível de investigação saberá, ao assistir pessoas a praticar Shiatsu, reconhecer a característica essencial e dirá, ainda que sua própria maneira de praticar seja bem distinta: “isso é Shiatsu”.

 

O Shiatsu de antes da Guerra

Shiatsu Tradicional: Esse nome será utilizado neste artigo para fins didáticos1.  Possuidor da maior comunidade japonesa do mundo, o Brasil pode se orgulhar de ser hoje guardião de parte de uma cultura de cura japonesa, despedaçada pela derrota na II Guerra Mundial, violentada pela cultura americana imposta “a ferro quente”. As primeiras migrações japonesas trouxeram o Shiatsu para o Brasil muito cedo, e em primeiro momento, ele manteve-se praticado dentro das colônias, e transmitidas no âmbito familiar. Com a crescente interação dos japoneses com a cultura brasileira, esta aos poucos passou a ser popularizada na forma de tratamento, posteriormente ensinada – surgiam algumas das primeiras escolas de Shiatsu no Brasil. O Shiatsu tradicional é rodeado de especificidades a variar conforme a família e região de origem.

Ko-ho: O “método antigo” talvez seja representado no Brasil principalmente pela escola ABACO do Rio de Janeiro, fundada por Sohaku Bastos, monge e praticante de artes marciais. O Ko-ho tem sua história ligada a própria origem das artes marciais. O surgimento das escolas de artes marciais no Japão, na virada do séc. XIX para o XX, não se restringe a práticas de luta. A  filosofia dessas artes eram (e são) brindadas com muitos ensinamentos xintoístas e do budismo e incorpora as práticas de saúde dos monges, dentre elas, o Shiatsu. Este método se aproxima bastante a Acupuntura na utilização dos conhecimentos da Medicina Tradicional Chinesa. Seu toque é bastante específico, seus métodos, protocolares. Há posturas corretas e além do polegar eles utilizam frequentemente os chamados “dedos arqueiros” (os três últimos dedos unidos).

Shiatsu Pós-Guerra: O divisor de águas

As técnicas mais famosas e praticadas no mundo hoje surgiram com a cultura do pós-guerra e polarizaram o Shiatsu. Uma tornou-se o “Shiatsu oficial” do Japão, e a outra correu o mundo ocidental para afirmar-se praticamente em contra-movimento ao “novo Shiatsu” japonês.

Shiatsu Namikoshi: Tokujiro Namikoshi, segundo o próprio, descobriu espontaneamente o seu Shiatsu ao tratar de sua mãe, ainda no início do séc. XX. Foi então estudar formalmente com Tamai Tampaku (autor do primeiro livro de Shiatsu do mundo), estudou anatomia, e fundou sua escola em Tóquio. Seu estilo não leva em conta as teorias dos meridianos, dos cinco elementos, etc., mas combinações de pontos, e protocolos para tratamentos diversos de saúde. Por uma combinação histórica de oportunidades, sua escola obteve o reconhecimento oficial do governo, e única que participa efetivamente no sistema integrado de saúde no Japão. Possui núcleos em diversos países e milhares de praticantes.

Zen Shiatsu (Escola Yokai): A técnica da escola de Shizuto Masunaga ficou conhecida em todo mundo a partir de seus seminários na Europa e nos EUA e do lançamento do livro “Zen Shiatsu” no ocidente. No Japão sua escola é a Yokai, que não utiliza a denominação “Zen” para seus cursos. Este nome, porém, se popularizou pelo mundo inteiro.

A babel européia

Não podemos deixar de assinalar que nessa época a massa migratória japonesa em direção a Europa fundou escolas em seus diversos países. O Shiatsu ganhou contornos próprios de mestres tradicionais e seguiram desenvolvendo-se. Com o tempo, metabolizado pelos praticantes ocidentais, deram origem a diversas formas de Shiatsu (inclusive as que apresentaremos a seguir), algumas mais outras menos conhecidas. Muitas desses estilos conversam entre si, e há congressos internacionais todos os anos, a reunir europeus de toda a parte. De certa forma, a barreira da língua concentra o Shiatsu em blocos: Um bloco anglo-germânico, onde o intercâmbio acontece sobretudo entre suíços, ingleses e alemães; um mediterrâneo, entre espanhóis e italianos. A França parece viver um mundo a parte do Shiatsu, e os países do leste Europeu buscam nos diversos blocos fontes de inspiração mas seguem em desenvolvimento próprio.

Técnicas modernas

Ohashiatsu: Co-autor de “Zen Shiatsu”, Ohashi conta que nasceu com saúde muito frágil e o Shiatsu lhe devolveu a condição energética. Foi aluno de Masunaga, e após transferir-se para os EUA obteve grande sucesso, organizou seminários para seu professor, e tornou-se o autor mais profícuo e respeitado dos dias de hoje. Profundo conhecedor da medicina tradicional do Japão e do Zen Shiatsu, Ohashi seguiu se desenvolvendo a tal ponto que seu estilo tornou-se único, com uma série de técnicas exclusivas – surgia aí o “Ohashiatsu”. Entre tais técnicas, uma movimentação extremamente harmoniosa, não mecânica, e a defesa de que é muito importante o terapeuta sentir-se muito bem ao longo de toda a prática. O Brasil possui praticantes de Shiatsu e até onde sabemos um único brasileiro tornou-se habilitado em ensinar a técnica, o mineiro Marco Antônio Duarte.

Shiatsu dos Pés Descalços (Macrobiótico): Shizuko Yamamoto radicou-se na Inglaterra e tornou-se uma terapeuta de Shiatsu conhecida por lá. Adepta da Macrobiótica, ela utiliza em seu Shiatsu antigos preceitos de saúde japoneses, as idéias da macrobiótica, em parte influenciadas inclusive pela própria. Seu livro “Shiatsu dos Pés Descalços” é um Best seller no Brasil, embora sua técnica não tenha esse nome em outros lugares. Autores ingleses costumam se referir ao seu estilo como “Shiatsu Macrobiótico”.

Tao Shiatsu: O japonês Ryokyu Endo, após estudar com Namikoshi e Masunaga segue desenvolvendo-se até que funda o Tao Shiatsu. O principal foco de trabalho fica em torno da energia negativa (Jaki), que precisa ser liberada para o corpo recuperar seu equilíbrio vital. Endo acredita que o mundo moderno potencializou a “poluição energética humana”, e que o novo homem possui outros meridianos além dos antigos.

Técnicas contemporâneas

São inúmeras técnicas surgidas a partir dos anos 90. Vamos citar apenas algumas que já foram ensinadas e são praticadas em mais de um continente, incluindo com orgulho técnicas de três brasileiros.

Seiki Meridian Shiatsu (SMS): A consciência da “energia Seiki”, a centelha divina que habita em todos nós, precisa estar desperta, pois é dela que surge nosso poder curativo, nossa conexão com a Vida. É o que a técnica do israelense Tzvika Calisar se propõe a fazer. Utiliza, para isso, a idéia de conexão entre os interagentes a praticar a técnica, com o terapeuta utilizando sua própria centelha para regular a do outro.

Na América do Sul, seu principal representante é o belíssimo mestre Alejandro Cohen (Chile).

Shiatsu Emocional (ShEm Method): Desenvolvido por Arnaldo V. Carvalho, com influência de seus estudos no campo da pedagogia, neurociência, naturopatia, sociologia, psicoterapias (especialmente as de linha reichiana) e do pensamento oriental, possui uma série de premissas que o tornam diferenciados. Para Carvalho, os tratamentos ocorrem em diversos níveis: pessoal, familiar e social. No plano pessoal as emoções são percebidas como a interface entre o físico e o energético. As memórias emocionais constroem uma estrutura responsável por tornar o fluxo dos meridianos mais ou menos fluente. Os meridianos se relacionam com os segmentos psíquicos que geram couraças musculares. Os praticantes passam a dominar aspectos como o desenvolvimento da personalidade, a importância do período primal, o inconsciente, as situações transferenciais, e preparam-se para lidar com ab-reações, catarses, etc. Devem enxergar a relação terapêutica como capaz de produzir efeitos nos diversos níveis, como parte integrante de fenômenos inerentes a coletividade. A exploração dos cinco sentidos durante as sessões, a utilização do conceito de atividades extra-sessão, a utilização da conexão entre terapeuta-cliente-mundo, aqui chamada de conexão-totêmica, tudo isso a torna bastante diferenciada. As práticas levam em conta todos esses fatores, e buscam permitir a emersão de materiais inconscientes reprimidos, a regulagem efetiva do Ki através da liberação de tais materiais. Os planos familiares e sociais são discutidos e trabalhados através de intervenções cotidianas onde os praticantes assumem-se enquanto atores fundamentais no meio onde estão inseridos. A originalidade da técnica e a profundidade dos conhecimentos têm sido aproveitadas por profissionais de Shiatsu de diversas outras escolas e estilos.

Ki Shiatsu: Ainda sob batismo informal, esse é o nome de um estilo muito próprio desenvolvido pelo brasileiro radicado na Inglaterra Emerson Bastos. Emerson é querido e respeitado como terapeuta e professor onde quer que vá, e traz em sua técnica diversas contribuições ligadas ao tempo de espera, a relação terapeuta-cliente, a percepção das constelações familiares como parte dos processos energéticos ocorridos com os clientes, e diversos métodos e práticas aprendidas com grandes mestres do mundo inteiro, recombinados com intervenções por ele desenvolvidas. Bastos têm ensinado técnicas especiais de reestruturação energética, postural e outras em diversos países, que se encaixam perfeitamente nos vários modos de fazer Shiatsu.

Movement Shiatsu: Um dos fundadores da Sociedade Britânica de Shiatsu, Bill Palmer desenvolveu essa técnica através de pesquisas próprias. No Movement Shiatsu o cliente tem uma participação bastante ativa. A medida que o Shiatsu avança, são propostos pequenos exercícios, e o cliente tem a oportunidade de conscientizar-se do seu corpo, seus pontos a trabalhar, e o que vai acontecendo a medida que o Shiatsu atua.

Quantum Shiatsu: Pauline Sasaki, uma das principais formadoras do Ohashiatsu, enveredou-se pelos caminhos quânticos, e olhando para além da ilusão da Matrix, passou a ir direto aos pontos, sem necessidade de teorias complicadas. A compreensão profunda do pensamento quântico é subsídio para uma prática na qual o terapeuta é levado para um patamar de percepção extra-sensorial, acima da racionalidade limitante, podendo assim interagir diretamente com o campo energético do cliente, sua interação com o Todo, e enfim harmonizar.

“Ex” Shiatsus

Alguns praticantes rompem com aspectos considerados parte indivisível do Shiatsu, e criam terapias híbridas. Isso quer dizer que elas incorporam a essência do Shiatsu, mas já não se comunicam com este. Muitos consideram que já se tratam de técnicas distintas.

Tantsu e Watsu: Criações do americano Gerald Dull. O Tantsu, também chamado de “Shiatsu de Colo”, é uma forma de tratar onde o contato físico de terapeuta e cliente é bem mais intenso, maternal até. Já o Watsu é o famoso “Shiatsu na Água”, que reúne

Jahara technique: O brasileiro Mario Jahara Pradipto talvez tenha sido o autor mais popular do Zen Shiatsu nos anos 90. Experiente professor, criou dois livros belíssimos e didáticos2, flertando com a arte, ensaiando a percepção poética da técnica. Forte influência da escola de Gerald Dull. Mais tarde, na maturidade de sua técnica, Pradipto reúne seus conhecimentos aprendidos a muitas novas percepções próprias e cria um método conhecido em muitos países, mas especialmente nos EUA onde vive – Jahara Technique.

  1. Leia também o artigo “Shiatsu Tradicional… Existe”? de Arnaldo V. Carvalho
  2. Os livros são “Zen Shiatsu” e “Tao Shiatsu”.

* Arnaldo V. Carvalho é praticante e estudante de Shiatsu há quase duas décadas; percorreu diversos países aprendendo e ensinando a técnica, e atualmente dedica-se a promovê-la em seu país e desenvolver o intercâmbio entre seus praticantes. É membro da ABRASHI – Associação Brasileira de Shiatsu

Perguntas e Respostas

Qual a diferença do Shiatsu Emocional para o Zen Shiatsu?

O estudante de Shiatsu Simon, ficou muito curioso e quis saber a diferença de Zen Shiatsu e Shiatsu.

Shiatsu não é uma terapia, mas uma FAMÍLIA de terapias que começou no Japão e seguiu crescendo pelo mundo. Zen Shiatsu e Shiatsu Emocional são variedades do Shiatsu. O Shiatsu nasceu de terapias corporais mais antigas combinadas a intuição de certos professores + as necessidades do momento em que ele foi criado. O Zen Shiatsu foi criado por Masunaga e se apoia em algumas teorias da Medicina Chinesa e outras das práticas de saúde do Japão. conta ainda com uma “pitada” de psicologia. O Shiatsu Emocional tem forte base na psicologia e utiliza teorias parecidas com a do Zen Shiatsu, mas em proporções diferentes. Como em química, uma terapia que use os mesmos ingredientes mas com proporções muito distintas gera resultados também muito variados.

Suas dúvidas são muito boas e pertinentes, e portanto merecem respostas adequadas, não sendo possível ser breve. Portanto, espero que tenha paciência e leia o e-mail até o fim.

O Zen Shiatsu é o estilo criado pelo mestre Masunaga, e desde sua morte praticamente não mudou. Um amigo dele, Ohashi, responsável pelo primeiro livro de Masunaga e único publicado pelo mesmo ainda em vida (seu segundo livro foi organizado por sua esposa após seu falecimento), seguiu desenvolvendo seu shiatsu a partir de sua formação no Zen Shiatsu. Quando seu estilo já se diferia muito e incorporava outros saberes e frutos de suas próprias reflexões e maturidade, ele criou sua própria escola, que passou a ensinar o estilo conhecido como Ohashiatsu. Uma de suas professoras, Pauline Sasaki, após anos de trabalho, reflexão, estudos paralelos e amadurecimento criou o Quantum Shiatsu (que utiliza elementos da física quântica). Então, entre os praticantes de Shiatsu, existem aqueles que seguem apenas um modelo fechado, e há aqueles que entendem o Shiatsu como um MOVIMENTO, tal como a vida, sempre em constante mutação, evolução, desenvolvimento. Sob essa perspectiva, podemos pensar em uma nova pergunta:

Para onde o shiatsu evolui?

Ele evolui para onde há necessidade humana, e de acordo com os grupos sociais e seus indivíduos.

Hoje, no Brasil e no mundo, há uma supremacia do paradigma da doença sobre a da saúde, do físico sobre o emocional, do fenomenológico sobre o funcional. Se você perguntar às pessoas na rua que já ouviram falar de shiatsu: “que é shiatsu para você?”, escutará coisas como “Shiatsu é para dor nas costas”, ou simplesmente “para dor”, ou ainda: “aquele negócio para a coluna que o japonês faz”. Podem ainda te contar que “tem um japonês perto de casa que resolve”, e finalmente, a mais infeliz das afirmações típicas: “shiatsu é dor”. Sim, MUITA gente rejeita o Shiatsu, pois vincula a técnica com dor – e isso é fruto de uma prática executada de maneira inadequada, mas que muitos profissionais seguem. Tendo em vista que o Shiatsu trabalha com muita eficácia uma série de circunstâncias emocionais, a primeira coisa que podemos dizer é que o nome “Shiatsu Emocional” oferece imediatamente a pessoa a idéia de que ela não está indo a uma sessão simplesmente para tratar a dor nas costas.

Pessoalmente, iniciei meu caminho envolvido com controle mental e sempre dei muita ênfase à psicologia e a pedagogia. No caminho de ser um ser humano melhor e um profissional melhor (não faço distinção), entrei em contato com várias escolas, dentre elas o Zen Shiatsu. Mas eu recebo influência de diversos outros métodos, escolas de Shiatsu e outras terapias tradicionais. O Shiatsu Emocional começou a surgir quando os elementos da psicologia, que estudava em paralelo, em especial da psicologia reichiana, foram progressivamente sendo incorporados a minha prática. Quando o entendimento de que o foco sob as emoções e a necessidade do profissional conhecer o que está por trás de seus atos e do vínculo de relacionamento que ele cria com seu cliente eram fundamentais; e pela ênfase clara que se dá durante o período formativo sob os aspectos emocionais dos meridianos, e não tanto sob os aspectos físicos – o contrário, portanto da maioria das escolas de Shiatsu.

É verdade que Masunaga estudou psicologia, e o Zen Shiatsu foi o primeiro método a abordar com mais complexidade ar relações das emoções com os caminhos de energia na formação profissional, embora haja pouca ou nenhuma conversa sobre isso durante as sessões. Porém, há algumas outras escolas que de um modo ou de outro preocupam com esse aspecto. O Shiatsu Emocional seja talvez a única que não simplesmente inclui tal aspecto em seu programa – ele utiliza o mesmo para fazer de sua prática uma experiência tranformadora e libertadora em termos psíquicos.

Como diferenças na TEORIA do Zen Shiatsu x as teorias do Shiatsu Emocional, posso citar:

Kyo/Jitsu: O Zen Shiatsu trabalha com ênfase na idéia de reforçar meridianos enfraquecidos, enquanto o Shiatsu Emocional prefere o foco no DESBLOQUEIO que leva ao estado de homeostase dinâmica dos pares de meridianos – o que resolve naturalmente os problemas de insuficiência e excesso.

Relação terapeuta/cliente: O zen Shiatsu não aborda nem na formação nem na prática as questões transferenciais, entre outras.

Estudo de psicologia aplicada ao Shiatsu: O Zen shiatsu não estuda. O Shiatsu Emocional estuda certas bases, especialmente focadas nos temas inerentes ao pensamento reichiano, e ainda tece várias comparações entre as teorias da MTC e as modernas. Estabelece, finalmente, correlações entre segmentos psiquicos (que dão origem às couraças musculares do caráter) e meridianos, dentre outras correlações.

Catarses e situações emocionais extremas: Os alunos não aprendem a lidar com situações emocionais graves que podem surgir em um atendimento de Shiatsu, o que pode reforçar padrões neuróticos, gerar resistências aos movimentos de transformação, entre outras situações que constituem grave erro nas formações mais básicas.

Abertura do Sistema: O Zen Shiatsu é um sistema fechado em si. As gerações passam e todos continuam reproduzindo com a máxima fidelidade aquilo que aprenderam.  No Shiatsu Emocional o aluno é incentivado desde o início a buscar o seu próprio Shiatsu.

Caminhos de conhecimento: O Zen Shiatsu tem ensino e estudo linear, como quase todas as demais escolas. No Shiatsu Emocional a linearidade só acontece na base, tornando-se mais e mais individual a medida que o estudo avança.

DIFERENÇAS NA PRÁTICA

Pressões: no Zen Shiatsu há predominância de pressões com as palmas. No Shiatsu Emocional trabalhamos com alternância de segmentos.

Movimentos e manobras: Os movimentos são limitados e sempre se repetem, caso o aluno siga apenas a mesma escola – o que oferece o risco de torna-los despersonalizados, não fosse pela competência de muitos bons profissionais.

Rotinas: As rotinas de trabalho do Shiatsu Emocional são muito mais variadas que as do Zen Shiatsu, e isso acontece por uma questão técnica e uma questão relacional importante, que é estudada em profundidade na escola.

Postura: Os movimentos nascem do Hara em ambas as escolas. Contudo, O Shiatsu Emocional se aproxima em movimento do Ohashiatsu, porém sendo mais permissivo quanto as posturas, e ao mesmo tempo estimulando após o domínio das posturas básicas a inclusão de posturas em alongamento e outras, para que o trabalho vá beneficiando simultaneamente os dois interagentes na sessão.

Dinâmicas que envolvem fala e visualização. O estilo Zen Shiatsu tende a ser silencioso o tempo todo, e qualquer conversa somente ocorre por tolerância do terapeuta. No Shiatsu Emocional a fala pode em certos momentos ser fundamental, havendo espaços especiais para a mesma dependendo das circunstâncias do momento. A fala direcionada e visualizações simultâneas ao processo do Shiatsu fazem parte do Shiatsu Emocional e não do Zen Shiatsu.

Preocupação com a acessibilidade: O Shiatsu Emocional se preparou para receber alunos com necessidades físicas especiais, e que poderão descobrir seu próprio Shiatsu na escola, tornando-se um praticante de igual valor. Essa acessibilidade, é bom observar, restringiu-se por muitos anos aos deficientes visuais nas escolas de An-mo e Shiatsu do Japão.

Há outro texto que compara o Shiatsu Emocional com outros estilos e explica o papel do Shiatsu Emocional e seu lugar no universo das terapias e na árvore de estilos do Shiatsu. Vá em http://www.shiatsuemocional.com.br e clique em “carta dos profissionais da MTC”, na coluna da esquerda. Leia, no mesmo site, na sessão “Curso”, as PERGUNTAS FREQUENTES.

Simone, existem muitas outras diferenças, tanto na prática como na teoria, mas para você perceber por completo, só entrando. A base do Shiatsu continua a mesma, e o que faz com que haja várias escolas de Shiatsu no mundo, hoje, é justamente a existência de uma base comum.

Um grande abraço ao Simon, e que você consiga uma boa formação! Seja bem vindo ao mundo do Shiatsu!

Arnaldo