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Shiatsu Tradicional… Existe?

Shiatsu Tradicional… Existe?

O conceito de “tradicional” para o Shiatsu é duvidoso e em geral mal empregado

Por Arnaldo V. Carvalho*

O termo “Shiatsu Tradicional” é visto frequentemente como designação de um Shiatsu “mais puro”, “mais oriental”, ou quem sabe até mais sério e/ou profundo. Alguns interessados ou curiosos com a técnica possivelmente imaginam que é exatamente isso, a ponto até de haver procura por cursos ou tratamentos “Shiatsu tradicional”. Mas o que de fato será o Shiatsu tradicional? Uma modalidade específica? Tradição remete a algo antigo, que se reproduz continuamente, da mesma forma, e por longo tempo… quem sabe até algo tão antigo quanto a cultura milenar que sobrevive no Oriente! Haverá assim um Shiatsu Tradicional, imutável e sendo transmitido por gerações?

A resposta imediata é “não”. Shiatsu é fruto de um movimento que não se encerra nunca, pois trata da relação do ser humano com seu próprio corpo. A medida que o grupo social de onde se origina o Shiatsu evolui, também o Shiatsu evolui. A medida que o Shiatsu passa a ser praticado por diferentes culturas, também modifica-se o Shiatsu. Ao passo da percepção individual, o Shiatsu não pode permanecer o mesmo: cada um possui uma relação com o próprio corpo (símbolo do “Eu”) e com o corpo vizinho (símbolo do “outro”). Essa relação é estabelecida de pessoa para pessoa, e influenciada pela formação da personalidade e seus traços, pela educação, cultura…

É claro, pode-se dizer que, se o Shiatsu não é reproduzido fielmente por muito tempo, ao menos ele pega emprestado e mistura a cultura tradicional japonesa a suas recém-importadas tecnologias. Assim como a antiga massagem An-ma1 é elementar na criação do Shiatsu, costumes japoneses tradicionais, que incluem a filosofia, a maneira de vestir, a distância e formalidade entre os praticantes, também. Finalmente, coube ao Shiatsu utilizar de forma inédita os saberes anatômicos, fisiológicos da arte de curar ocidental, além de incorporar pensamentos e ações inerentes a quiroprática e osteopatia.

Para ilustrar a questão de modo mais preciso, vamos lembrar alguns dos fatos que participam da trajetória do Shiatsu, sua origem e desenvolvimento.

O Shiatsu começa a tomar a forma que conhecemos hoje entre no intervalo de tempo do chamado Grandioso Império Japonês, da Restauração Meiji (1868) até a derrota japonesa na II Guerra Mundial (1945). Foi quando a cultura japonesa passou por uma transição brusca, deixando para trás a secular estrutura do xogunato, uma ditadura militar e feudal, isolada do restante do mundo, para a chamada Era Meiji, onde o país experimentou um rápido processo de modernização e crescimento econômico. Em poucos anos, o Japão passou de uma cultura familiar para uma cultura industrial, de tradição espontânea e ensino discipular para ensino sistemático, ocidentalizado. Esse momento mudaria rápida e radicalmente a forma do Japão ver e ser visto por si mesmo e por todo o globo, e culminaria de forma tão contundente que ainda hoje há muito a ser assimilado, percebido, aceito por aquela nação em relação ao ocorrido naquele período.

Para se ter uma ideia da efervescência do momento, temos, além do Shiatsu, o nascimento de diversas técnicas e práticas corporais, terapêuticas, espirituais e sociais (pilares fundamentais do Shiatsu) que permaneceriam fortemente estruturados até os dias de hoje. Nessa época personagens místicos que se tornariam referencias japonesas nas artes de cura e espiritualidade atuais. Em 1865 Mikao Usui (Reiki) nasce; Tokuharu Miki (Perfect Liberty) em 1871. Meishu-sama (Igreja Messiânica) nasce em 1882. Masaharu Taniguchi (Seisho-no-ie) em 1893; Nas artes marciais, também se viu surgir aí o judô, o aikido e o karatê moderno. Tadashi Izawa, outro importante mestre da história do Shiatsu, é de 1895; Tokujiro Namikoshi, responsável pela institucionalização do Shiatsu e seu reconhecimento governamental nasce logo depois, em 1905, ainda na Era Meiji.

Sem dúvidas, o processo de industrialização e a ascensão do capitalismo no Japão a partir da Era Meiji e suas várias mudanças (abertura ao comércio internacional; a forma de se ensinar; o público-alvo dos cursos; o próprio surgimento de um Shiatsu ainda embrionário, em princípio sem nome, etc.) assinalam que na época de seu surgimento, o Shiatsu também participa da demarcação do território cultural japonês, agora desafiado pelas culturas ocidentais e sofrendo de uma manobra de estado que estimulava um sentimento anti-chinês – que culminaria ou que fôra incentivada – pelas guerras sino-japonesas que abrangeram todo o período do Império Japonês. Isso foi um passo importante na construção de uma técnica que fosse mais independente das teorias médicas do oriente continental, e ao mesmo tempo, na maior utilização das teorias médicas ocidentais.

Dentro desse contexto, sobram poucas dúvidas de que os os novos métodos de comunicação de massa, a decadência do sistema oral e discipular e sem dúvida, a reestruturação da educação – especialmente voltada a gerar sentido de unidade nacional – e sua consequente alfabetização contribuíram para que toda essa classe de novas entidades se enraizasse na sociedade japonesa em ritmo acelerado. As práticas de massagem também passaram pela roupagem do novo modelo de ensino, e o governo de então instituiu o ensino do An-ma para cegos, um momento antes do Shiatsu aparecer na história. O que há de tradicional nisso? O que há de “tradicional” em algo que em princípio foi criado e nunca ensinado “de pai para filho” ou de “mestre para discípulo” a moda original?

Shiatsu, transmissão e Brasil

Como muitos povos, os japoneses adotaram a massagem como forma de tratamento em seus diversos extratos sociais. Até por isso, ninguém é capaz de provar que o termo Shiatsu não era utilizado antes de Sensei Tamai Tempaku2 tê-lo escrito. Nem de dizer que ele não surge como parte da cultura corporal sempre em evolução do povo. Da cultura e da expressão popular. A prática da massagem é parte da demanda relacionada a labuta nos campos de arroz, reproduzida por gerações; Tal atividade dividirá lugar, a partir da revolução industrial iniciada no Império Japonês, com o trabalho operário. Esta nova forma de trabalho, executada de forma mecânica, sedentária e marcada por velocidade e grande volume produtivo começa a criar um novo tipo de indivíduo – e com ele, também novas dores e doenças. Cenário perfeito para o surgimento do Shiatsu em resposta a “nova medicina ocidental”, que infesta a velha cultura e cada vez mais requer uma praticidade, rapidez e eficiência que o a técnica buscaria oferecer preservando os paradigmas insulares.

Os relatos orais e os costumes tradicionais transmitidos entre os descendentes de japoneses no Brasil apontam para uma existência de cuidados corporais e familiares incorporado na cultura do povo por gerações, e portanto, tradicional. Enquanto fruto disso, o Shiatsu poderia ter uma “versão camponesa”, sendo apenas o “nome último” de uma velha prática corporal milenar.

Indícios de que isso pode realmente ter ocorrido encontram-se na concepção de movimento do próprio Shiatsu, e em especial, nas regras enrijecidas dos praticantes mais antigos: o uso exclusivo das mãos, as pressões e o encorajamento para que a pessoa “enxergue” as pessoas pelos dedos (ou seja, mais ao modo dos cegos – exatamente como os primeiros profissionais treinados em An-ma).

Esse jeito de trabalhar pode ser verificado nas manobras utilizadas pelos praticantes informais das colônias japonesas no Brasil, que aprenderam o Shiatsu dentro de casa com seus familiares, como parte de um sistema doméstico de saúde. Hoje a maior parte dessas pessoas já possui certa idade. Os jovens já tem menos chance de aprender com seus pais, e quando dão sorte e interessam-se, ainda encontram um avô para aprender e praticar. A postura do corpo do terapeuta comparada à imagem de uma pessoa agachada o dia inteiro a colher arroz num terreno encharcado já nos dá a noção do quanto o Shiatsu seria mais que uma técnica, mas um ponto dentro da infinita linha de desenvolvimento de toda uma cultura corporal.

É arriscado dizer, mas dado o nível de industrialização do Japão atual e sua mecanização no setor agrário, talvez tenhamos mais dessas práticas tradicionais nos campos do interior do Paraná, São Paulo e outros estados com grandes colônias japonesas do que no próprio Japão. A cultura transformada no país de origem acaba sendo até certo ponto preservada por aqui. (exemplo análogo é visto no Pomerano, dialeto alemão que só se fala no Brasil, tendo desaparecido na própria Alemanha).

Finalmente, em se tratando de algo que faz parte da cultura corporal de um povo, dizer que Shiatsu começou a partir de um texto escrito é correr o risco de uma afirmação equivocada. Até muito pouco tempo antes da Era Meiji, a sociedade era dividida entre a massa camponesa e uma outra minoritária, onde tal como no ocidente, ocupam-se de coordenar a ordem social, além do desenvolvimento e acúmulo de conhecimentos e tecnologias. Tal grupo minoritário era composto de nobres, monges, e samurais… ocupações célebres na sociedade japonesa, distantes do agrário, pobre e popular; e com acesso ao restrito mundo da escrita. À serviço dos ideais e da nobreza, foram os representantes do poder do Universo sobre o homem (monges) e da espada sobre a sociedade (samurais) – de grande influência na sistematização do conhecimento que dá origem as artes de cura (e da guerra) conhecidas até hoje (não é a toa que muitos mestres do Shiatsu utilizam roupas semelhantes às do Judô). Se houve, portanto, um “Shiatsu” escrito, se foi criada uma técnica dentro de uma escola de An-ma, essa destinou-se a um número limitado de uma camada específica da população. Aqui indagamos se teria havido “dois Shiatsus” coexistindo – um popular, camponês, tradicional; e outro, sistemático, industrial, moderno e… escrito. Se isso ocorre, é possível que a história que conhecemos propagada nos livros de Shiatsu possivelmente seja apenas a história de uma elite dentro do imenso universo desta terapia.

Shiatsu moderno e a prova final da falácia da tradição como cultura engessada

Se no século XIX o Japão transitou de país fechado para aberto com a característica de ir buscar fora o que precisasse para fazer o país despontar sob uma perspectiva materialista, agora, arrasado na segunda metade do XX ele passaria a receber as influências externas de maneira menos seletiva e opcional: após a rendição na II Guerra Mundial, o controle governamental passa em grande parte às mãos americanas, e entre outras políticas unilaterais, há por alguns anos a proibição das práticas de saúde tipicamente japonesas, inclusive do Shiatsu. Embora não se comente, sabemos que o Shiatsu que seria readmitido estava relacionado a um conjunto de fatores, entre eles o uso da racionalidade médica do ocidente.

A partir dos anos 60 do século XX, temos uma grande retomada do Japão conduzido por japoneses, não sem que a ocidentalização não tivesse criado fortes raízes; Essa época irá conduzir a uma nova revolução do próprio Shiatsu, com a ascenção de escolas por todo o globo, propagadas por japoneses que seguiam descompromissados com o “Shiatsu governamental” e emitindo conhecimentos derivados das antigas sabedorias. Talvez as mais bem sucedidas empreitadas de exportação desse tipo de Shiatsu tenha sido o de Shizuto Masunaga e Wataru Ohashi, nos EUA, e de Shizuko Yamamoto, na Europa. Porém, os conhecimentos aparentemente tradicionais são em parte reconstruções, e misturam-se a saberes modernos como os de George Osawa e sua macrobiótica.

O Shiatsu nunca foi um só, embora os vários caminhos tenham sido sempre igualmente válidos. É disso que surgem, inclusive, modalidades de Shiatsu familiares que poderiam ser chamadas por assim dizer de “tradicionais”. Assim, há no mínimo um Shiatsu fruto do saber popular, há um Shiatsu fruto da sistematização e apreensão da MTC por parte dos monjes Zen e do povo japonês; há um Shiatsu “tradicional” que se afasta de tudo isso, e bebe de uma fonte reconstruída a partir das necessidades e prioridades desse povo na virada do século XIX para o XX e novamente a partir do fim da II Guerra Mundial.

Interpreto aqui, dessa forma, que um “Shiatsu tradicional”, caso exista, deve ser visto como o mais desconectado possível com as modernizações introduzidas a partir especialmente da segunda metade do século XX; e nesse período, especialmente entre o final dos anos 70 e primórdios dos anos 80 por parte de mestres, pesquisadores e praticantes contemporâneos.

Quem estaria hoje com esse grau de desconexão para com o Shiatsu moderno? É muito remota a possibilidade! Parece que a única maneira seria aprender Shiatsu com um japonês que aprendeu com o avô, que teria aprendido com seu pai… Algo mais próximo da tradição. Das antigas escolas, muito da essência tradicional permanece, em contraste com as modernizações.

Sob essa perspectiva, dificilmente poderemos chamar qualquer prática atual de “Shiatsu tradicional”, pois seria falar algo que de fato já não existe; No máximo, haveria uma “alma tradicional” acontecendo dentro do moderno: Bebem as escolas do saber antigo, sem porém estagnarem-se em seu constante processo evolutivo.

* * *

* Arnaldo V. Carvalho é naturopata e praticante de Shiatsu há 17 anos. É autor dos livros “Shiatsu Emocional” e “O Tao do Corpo”, e coordena o Shiatsu do Centro Brasileiro de Acupuntura de Medicina Chinesa.

  1. Tamai Tempaku talvez esteja transliterado errado – essa especulação é de Carola Beresford-Crooke, presidente da Sociedade Britânica de Shiatsu, autora de diversos livros sobre a técnica. Na Internet encontra-se uma ou outra variação de seu nome para Tamai Tempeki. Ainda estou em busca do livro original em japonês, e Carola ficou ainda de verificar para mim a resposta, que ela acredita que Paul Lundgren, também famoso autor de Shiatsu deva ter.
  2. An-ma é a antiga técnica de massagem que inclui uma série de movimentos. Possui dezenas de variáveis e teria sido levada ao Japão pelo continentais – falam de chineses, mas não havia na época a noção de país como a que temos hoje – pelo menos uma milênio antes. Segundo as leis japonesas atuais, a formação de Shiatsu precisa incluir o An-ma, ou seja, você não pode se formar somente em Shiatsu, mas sempre em An-ma e shiatsu.
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