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O Shiatsu em revista: Entrevista com Arnaldo V. Carvalho no Canal Unitevê UFF

http://www.youtube.com/watch?v=aOXI702eMWM O Shiatsu, sua capacidade de lidar com emoções, contraindicações, e outras explicações sobre a terapia, em pouco mais de quinze minutos, num batepapo entre a psicóloga e entrevistadora Elizabeth do Valle e Arnaldo V. Carvalho

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A mediocridade humana compromete o Shiatsu – Parte 2: Limitações e contraindicações

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Contraindicações na Terapia Shiatsu

Por Arnaldo V. Carvalho*

Em algum momento do ciclo básico de aprendizagem de um praticante de Shiatsu, são abordados os aspectos inerentes à contraindicações da técnica. As explicações, na maior parte das vezes, não são homogêneas da parte dos professores e escolas. A maioria, mal fundamentada. Ainda assim, quase sempre são listadas as seguintes impossibilidades:

  • Gestação (em especial no primeiro trimestre);
  • Infecções, gripes, febre;
  • Câncer;
  • Pressões sobre áreas lesionadas (por trauma agudo ou degenerações diversas – incluindo contusões, hérnias, etc.).

Mais raro, porém ainda muito orientado:

  • Osteoporose;
  • Crianças menores de… (em geral dez anos);
  • Fibromialgia.

Para a surpresa geral, se indagarmos aos autores dessa formulação os motivos das contraindicações, encontramos um imenso vazio teórico e técnico, e no máximo ouve-se: “pode piorar o processo”, ou “há pontos proibidos nesse caso”.

De um livro para outro, de um curso para outro, é o destino de muitos repetir sem questionar. Atitude comum, e retratada mesmo em antigos contos orientais, como o do gato amarrado ao pé da mesa[1]

Neste artigo, desmistificaremos as contraindicações comuns ao Shiatsu e investigaremos suas limitações reais[2]. Espera-se que ao final o leitor tenha percebido que não se pode passar adiante um conhecimento adquirido sem antes refletir sobre ele – o que inclui checar, indagar, testar, associar, elaborar, digerir.

A questão das contraindicações desvenda-se aqui: Elas não se aplicam de modo absoluto ao Shiatsu, mas de modo relativo, porque dizem respeito às limitações de quem o estará dinamizando. Em outras palavras, as contraindicações dependem mais das capacidades de quem está utilizando o Shiatsu, porque as características do mesmo lhe permitem a utilização em diferentes grandezas, e suas vantagens poderão ser percebidas nas mais diferentes circunstâncias.

Iniciemos, pois refletindo sobre alguns tópicos diretamente relacionados às contraindicações.

Shiatsu não é acupuntura: Entre os mais utilizados argumentos em prol de contraindicações estão as funções dos pontos de Acupuntura. Alguns possuem a fama de serem abortivos, quando, por exemplo, tem como função estimular contrações uterinas. Embora se desconsidere as próprias capacidades do corpo de reger o processo de estimulação energética, parece sensato, e principalmente prudente, no caso da Acupuntura. Mas é grande defeito do Shiatsu, especialmente no Brasil, confundir Shiatsu e Acupuntura na forma como agem, simplesmente porque perpassam os mesmos pontos. No Shiatsu, não se trabalha concentrando o tratamento um conjunto de pequeno de pontos por vinte minutos inteiros (protocolo mais básico). O Shiatsu trabalha com o fluxo, desbloqueando e alimentando o sistema energético como um todo; a Acupuntura trabalha concentrando grande intensidade na ação de um ponto. De certa maneira é como comparar a fitoterapia – que funciona a base da pluralidade em doses reduzidas de substâncias de uma planta medicinal sobre o organismo humano -, e a alopatia, que atua concentrando uma substância única e buscando a manipulação de regiões  específicas. Por isso mesmo, em Shiatsu não podemos temer “pontos abortivos”, ou quaisquer outros.

Gestação: Com a explicação acima, acredito que o medo de “apertar o ponto errado” tenha se dissipado da mente do leitor. No tocante a gestação, essa é uma das fobias típicas despertadas pela ignorância geral dos terapeutas. Outra diz respeito ao Shiatsu no primeiro trimestre, período considerado mais sensível que outros, em virtude das impactantes adaptações hormonais e fisiológicas que ocupam o cenário e determinarão a estabilidade e confiança com que se dará a gravidez. O medo aumenta ainda mais, caso o período seja acompanhado de fortes enjoos da parte da mãe. Começando daqui, é necessário esclarecer que a natureza do enjoo na gravidez é indicativa de forte atividade placentária. As mulheres que enjoam apresentam percentuais mais elevados de placentas de grande porte, e isso é um sinal de bebê bem protegido, pois é este o órgão que regulará todas as trocas entre mãe-feto (por isso mesmo os estudiosos da área muitas vezes a chamam de “a advogada do bebê”). O Shiatsu pode ajudar muito nos enjoos, mas possivelmente será preciso recorrer à integração de outras terapias para uma sessão ser bem sucedida. Isso necessita de um grau de maestria técnica e versatilidade pouco encontradas no mercado profissional. Na dúvida, não faça. Porém, com a orientação / profissional certo, o shiatsu é fantástico. É altamente vantajoso, o quadro estabiliza mais depressa, os sintomas melhoram sensivelmente, o corpo aumenta seu poder de adaptação se prepara de maneira mais harmônica para as mudanças. Quanto aos outros trimestres, o segundo é de estabilidade e não se vê muitas contraindicações (somente o despreparo poderia justificar). O terceiro poderá demonstrar contrações uterinas, inchaço, baixa mobilidade, dores de coluna, alto peso, pressão deste peso sobre vias circulatórias importantes, redução de espaço pulmonar, de bexiga, prisão de ventre, entre e outras manifestações que podem se encontrar exacerbadas e que requerem cuidados especiais. Todos esses obstáculos são passíveis de serem vencidos, e o shiatsu é muito especial quando bem aplicado. Para tudo isso.

As coisas requerem ainda mais maestria quando há gravidez de risco. Pode ser que não haja a possibilidade de se trabalhar com pressões. Mas a pulsação estará presente e conservará a eficácia do Shiatsu, como explicaremos no tópico seguinte.

Osteoporose, crianças pequenas, e adultos em idade avançada e outras formas de fragilidade e/ou delicadeza osteomuscular.

Crianças pequenas e pessoas muito velhas são também consideradas frágeis, e junto com lesionados e grávidas, são passíveis do medo do “equívoco primordial” no Shiatsu: a pressão destemperada exercida por mãos insensíveis. Aqui, a contraindicação se faz por mais um erro teórico importante. Não estamos falando da falta de percepção no caso de uma mão bruta e incompetente. Mas da própria natureza do mecanismo com que opera o Shiatsu. Embora o nome Shiatsu pressuponha pressão com os dedos, o sucesso do Shiatsu desde sua origem se deve ao mecanismo de PULSAÇÃO, e devolução da condição de pulsação homeostática ao individuo. A pulsação primordial é o simples toque, e é através dela que vida cura vida, que vida lembra a outra vida de suas trocas cósmicas. As áreas sensíveis, doentes, frágeis, podem não resistir à pressão de um dedo ou de uma mão. Pessoas muito idosas, com ossos que parecem de papel, aceitam toques mínimos. É preciso grande perícia e sensibilidade nesses casos, mas não há corpo frágil demais para o simples aproximar-se, para a troca de calor e vibração. O shiatsu nesse momento deverá operar em níveis muito sutis, o que não o fará menos poderoso. Claro, não se deve misturar doença com estados sutis. Bebês recém-nascidos saudáveis suportam pressões suaves e ficam muito bem com o Shiatsu típico.

É interessante que a contraindicação seja feita como forma de se evitar a incompetência. Como forma de lançar no mercado gente despreparada mesmo sem ter conseguido compreender com profundidade o que estão fazendo. Ou como forma de garantir que os lançamentos do mercado editorial não sejam barrados por ensinar a leigos a cometerem atrocidades contra o corpo alheio.

Fibromialgia e doenças reumáticas e autoimunes diversas

De um tempo para cá, tem aumentado a quantidade de doenças autoimunes, e neste grupo, em especial a famílias dos reumatismos. O Shiatsu tem sido experimentado nesse tipo de moléstia, e fracassado muitas vezes. Especialmente, quando não se tem em conta que Shiatsu não se faz em uma sessão. O Shiatsu é um tratamento, e por vezes precisa despender de uma série sistemática de sessões para resultar. Alguns problemas, sobretudo alguns que desequilibram os mecanismos do Meridiano da Vesícula Biliar demonstram a chamada hiper-reatividade, que é um fenômeno de piora inicial para depois encontrar-se a melhora. A hiper-reatividade ocorre em torno de 10% dos casos de tratamento com Shiatsu, e sua má interpretação pode levar a criação de novas barreiras contra a terapia. Não tiramos a razão do profissional de saúde que está na orientação de um caso como, por exemplo, fibromialgia, e cujo paciente relata que no dia seguinte a uma sessão suas dores pioraram. A má orientação do terapeuta – novamente evoco a má formação – leva a um processo de desconhecimento  e intranquilidade. A pessoa atribui a piora do sintoma à piora do mal, mesmo que esta seja por vezes parte temporária da reorganização do corpo. Seria preciso uma série de outras sessões, orientações, e por vezes, integração de terapias para que o benefício de fato pudesse ser experimentado. Mas o sintoma será cortado e com ele, a chance da terapia mostrar seu valor. As vezes, a má orientação cria estigmas negativos sobre o Shiatsu, e não é um problema do Shiatsu em si; é de fato um problema técnico.

De que lado você está? (as correntes ideológicas apostando ou não no corpo). O médico Vernon Coleman[3] faz um apelo aos leigos para que busquem o poder de cura do próprio corpo, e evitem como puderem as internações em hospitais. Ele sabe que os riscos aumentam muito depois que o indivíduo entrega sua saúde ao modelo atual de tratamentos. Aqui temos a contraindicação mais comum e recorrente do Shiatsu: Jamais faça Shiatsu em caso de infecções, jamais faça Shiatsu em caso de câncer. Todos os nossos patógenos, sejam químicos (substâncias tóxicas), sejam biológicos (germes e células de câncer) estarão sendo “espalhados” pelo organismo, concluindo seu “projeto mórbido”. A aposta é de que o corpo é uma estrutura completamente incapaz de se defender, e que só “o mal” se contagia. Outro inglês, xxx, dizia por outro lado que “a saúde é contagiosa”. Se por um lado melhorar a circulação facilita o viajar de uma célula de câncer ou uma bactéria, por outro lado, espalham-se células T, biócitos, macrófagos e tantos outros agentes do sistema imunológico – o sistema da vida! Quem ganha e portanto, em quem apostar? Até aqui, ainda não podemos responder essa pergunta, a menos que se tenha um conhecimento um pouco maior de fisiologia. Precisamos lembrar que “boa circulação” no caso da circulação sanguínea e linfática não é simplesmente movimentação do líquido pelo vaso. Mas a boa troca que cada célula do corpo faz com esses líquidos. Se o ar é nosso meio de troca com o macrouniverso, é o sangue e a linfa o meio de troca da célula com o microuniverso que é o nosso corpo uno. As células recolhem do sangue e depositam no interstício, aguardando pela absorção (drenagem) linfática que retirem o material dejetado dali. É a partir daí que ocorrem os processos de REGENERAÇÃO. Basicamente, para entrar o novo tem que sair o velho. O interstício tem limites, o inchaço é hiperdeposição ou incapacidade de remoção. Boa circulação é fazer o alimento nutrir a célula, e ela bem alimentada necessariamente excretar. Se a circulação é completa, as células se renovam, e se renovando, estão mais fortes para contribuir com o organismo em suas funções. E assim sendo, há menos gasto energético, e aí sim cabe e há recurso para nossos administradores gerais concentrarem forças na formação de células de defesa, da imunidade, da retomada ao poder do corpo.

A corda rompe para o lado mais fraco: Imagine a seguinte situação: Um indivíduo em estado terminal (a doença não importa), passando por diversas intervenções; Um familiar resolve lhe aplicar um Reiki (sem qualquer contato corporal). Horas depois, vem o doente a óbito, mesmo que os dias que antecederam ao fato tenham sido de estabilidade. A família não se conforma, e desconfia que “aquela terapia alternativa matou nosso ente querido”. Agora veja que, se uma terapia puramente energética, como é o caso do reiki, frequentemente recebe acusações tolas, passionais, infundadas, imagine uma terapia pelo toque, que vai fundo, como o Shiatsu. A corda sempre rompe no lado mais fraco, e quando se considera o respaldo técnico que a terapia tem hoje no Brasil, não arrisque. A regra de ouro é: Na dúvida não faça. Tenha sempre não somente a segurança técnica, mas o corpo teórico bem fundamentado para explicar tudo o que você faz, tudo o que acontece no processo terapêutico, em termos fisiológicos, psíquicos e energéticos. Repetimos, na dúvida não faça. Caso o leitor seja um praticante profissional de Shiatsu, há de convir, em casos extremos a culpa será do shiatsu.

Conheça seu limite, seu nível de experiência, sua habilidade técnica.

É claro que mesmo depois de mistificarmos tantas contraindicações necessárias a quem não está preparado, ainda assim há limites mesmo ao mais experiente. Os limites, mais uma vez, variam não de acordo com uma doença ou sintoma apresentado, mas com o conhecimento de causa, o contexto, as características específicas de cada caso. Uma criança desnutrida com febre de 40 graus terá um resultado muito diferente de uma criança que sempre foi saudável e possui abastadas reservas de energia. Se a situação do corpo é complexa, se não se conhece a sua história, se não há conhecimento profundo envolvido, jamais arrisque. É imprudente e irresponsável. Cada nível de complexidade de um problema requer um grau de expertise diferente. É muito importante que o praticante de shiatsu esteja BEM consciente de suas limitações técnicas, teóricas, práticas, e tem humildade de indicar outros profissionais e terapias mais adequados a cada caso. Para além de a limitação técnica ser perigosa e de fato poder criar novos problemas ou agravar um antigo, ela por vezes ocupa o espaço de outro tratamento mais importante. O Shiatsu é muito bom, muito especial, tem espaço em todas as ações de promoção da saúde, desde que o profissional esteja preparado. O bom profissional, mesmo assim, saberá dizer ao seu atendido: “existe coisa melhor nesse caso”, e indicar o caminho das pedras.

No final de tudo, a única e verdadeira contraindicação  é a da falta de bom senso.

*   *   *

* Arnaldo V. Carvalho estuda Shiatsu há vinte anos. autor do livro Shiatsu Emocional, membro-fundador da ABRASHI – Associação Brasileira de Shiatsu, membro do SINDACTA – Sindicato de Acupuntura e Terapias Afins do Rio de Janeiro, diretor da Escola de Shiatsu SHIEM conta com uma experiência de mais de vinte anos com o Shiatsu, tendo aprendido uma diversidade de estilos diferentes.

 

 

[1] Ver o artigo inicial dessa série, “Da prática a Terapia ou Como superar a normose“.

[2]Para uma avaliação adequada, é necessário que possamos distinguir com clareza os conceitos de terapia, técnica e prática no Shiatsu (mais uma vez nos remetemos ao primeiro artigo desta série) .

[3] Ver http://www.vernoncoleman.com