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A prática do Shiatsu é para todos?

Praticar o Shiatsu: Uma reflexão sobre acessibilidade à prática

Arnaldo V. Carvalho*

Ainda me lembro com pesar de um episódio que vivi como aluno em um curso de Shiatsu. Era um excelente curso, desses que influenciam a vida. Porém, no primeiro dia, uma aluna, quando do momento da prática (executada no chão) revelou ter problemas no joelho. O professor foi taxativo: “quem tem problemas no joelho não pode fazer Shiatsu”. Pouco tempo depois, um mestre de origem chinesa, já bem idoso, que me disse que já não podia mais trabalhar porque “não tinha mais força”.

Anos depois, quando comecei a dar minhas aulas, prometi para mim mesmo que criaria condições alternativas para que qualquer pessoa pudesse se beneficiar do Shiatsu, enquanto praticante, performando sessões, no chão ou na maca. De lá para cá – o primeiro curso foi em 1999 se não me engano, vivi uma série de situações que me impuseram todo tipo de desafio.

Me lembro com carinho de um caso em particular. Uma senhora japonesa, já de idade, com prótese total de joelho. Criamos posições alternativas e o uso temporário de um bastão de equilíbrio em determinados momentos. Esse bastão tem sido usado por muitos alunos.

De lá para cá, criamos todo tipo de adaptações. Pessoas com todo tipo de limitações físicas, transtornos vasculares, esclerose múltipla, deficiências físicas e sensoriais variadas, etc. já experimentaram praticar Shiatsu comigo – e aprender a fazer. Para cada limitação, há uma solução.Não é que os obstáculos tornem as coisas tão fáceis: compreendo que é saudável que o corpo se mexa na medida do possível, que haja esforço durante o processo. Esse esforço corporal, é na verdade a inclusão do mesmo no processo.

É importante premissa que o corpo e a mente participem do processo de forma integrada, dentro do possível, e que o portador da limitação se esforce. Faz parte de sua própria terapia interna se desafiar.

Dicas

– Professores de Shiatsu devem pedir para, os candidatos a seus cursos se posicionarem quanto às suas limitações. É preciso diálogo para que ambos aceitem as limitações impostas. Da parte do professor, criatividade, conhecimento biomecânico, e senso de desafio são necessário. Da parte do aluno, a vontade de aprender e se superar. Não se deve iniciar um curso sem esse acordo prévio, e não há nada de mal em uma das partes (professor ou aluno) repensar sua participação caso sinta que não tem condições de lidar com a limitação.

– O Shiatsu é uma prática preferencialmente executada no chão, e pode, caso se demore muito, cansar as articulações, especialmente se o praticante não atuar com boa postura. Caso a prática se torne constante e seja aplicada corretamente, será observado que as articulações se toram  mais fortes, o corpo mais flexível e as does iniciais desaparecem.

– Em alguns casos, pode-se utilizar a maca, que terá seu ônus (consulte nosso artigo sobre o tema), mas as vezes inevitável. O revezamento entre as duas formas de trabalho é igualmente possível.

– O Shiatsu que utiliza força cansará o corpo e desgastará articulações. O que fazemos é o uso dos contrapesos e alavancas corporais. Qualquer pessoa com 18Kg (o peso médio de uma criança de 5 anos – que aliás já consegue fazer um ótimo Shiatsu) pode utilizar o próprio peso corporal para praticar, ao invés de usar a força.

– Sedentários de todas as idades poderão sentir dificuldade no início, mas com a prática, se tornarão mais flexíveis, fortes e harmoniosos. Se as posturas e movimentos utilizados forem corretos, é questão de insistir.

Perspectivas

Em suma, para praticar o Shiatsu não é preciso ser atlético ou jovem, nem flexível. Também não importa se a pessoa é cardíaca, diabética, ou esteja em recuperação. Ao contrário, só vai fazer bem a ela (a menos que haja orientação médica restringindo expressamente qualquer forma de movimentação física, ainda que suave).

Se há exceções ao poder fazer Shiatsu? Talvez na distância ou em ser consciente. Em minha experiência, ainda está para vir o desafio do praticante tetraplégico.

Meu próximo passo será agora o de formar a primeira turma de praticantes cadeirantes. Como será isso? Conto em breve.

* * *

* Arnaldo V. Carvalho, praticante de Shiatsu desde 1993, autor do livro Shiatsu Emocional, estudante de pedagogia, mediador de inclusão em sua graduação.

 

 

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