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“Curso caro” – A formação de preços no Shiatsu (Parte 3: A responsabilidade de ensinar e a responsabilidade de se formar)

O fast-food dos cursos de Terapia Corporal comprometendo qualidade e imagem, o que desvaloriza a profissão. Economia Burra!

Por Arnaldo V. Carvalho

Após a publicação da parte 1 e 2, muitos leitores se manifestaram. Um deles foi o praticante de Shiatsu e especialista em artes gráficas e visuais Ary Bon, de quem transcrevo a seguinte mensagem:

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“O valor de todas as coisas é melhor estabelecido através da negociação. Não significa ficar regateando o tempo todo, negociação significa OUTRA COISA. Significa oferta e procura, com os preços estabelecidos a partir de custos, com o retorno financeiro que qualquer profissão honrada tem que render, com aquilo que compõe o que é oferecido e com aquilo que pelo menos coincide com a expectativa de quem compra. Eu cobro “caro” pelos meus serviços. Muitas vezes o cliente não consegue aproveitar o que ofereci, vendi e entreguei. Outras vezes, meu trabalho rendeu ao cliente muito mais do que ele estava esperando. Adianta eu cobrar mais? Adianta eu cobrar menos? Nananina, não rola na prática, eu tenho que continuar a oferecer o que tenho pelo preço que a média da procura paga, se chama “configuração do mercado” e é uma coisa saudável. O que não é saudável são tabelamentos de preço, ingerências estatais restritivas a atuação de serviços, e pessoas determinando o que é correto ou não para outras pessoas no exercício de atividade das últimas. Arnaldo está certíssimo, as pessoas tem que parar de confundir desembolso com custo. Um curso gratuito pode ser muito caro ou muito barato, eu mesmo que sou “rato de cursos” tenho rejeitado muitos cursos gratuitos. Qualquer valor que se pague tem que corresponder a uma expectativa, e esta no tocante a cursos não pode ser de curto prazo. Mesmo porque, como o Arnaldo falou, treinamento e formação são cioisas diferentes, e a formação é altamente dependente DO ALUNO na obtenção da qualidade”.

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Ary Bon Me chama atenção para o fato de que algumas pessoas não conseguem fazer as contas. Nem em relação a tempo, nem em relação a dinheiro. Comentamos na carta citada na parte 1 de nosso artigo que um curso básico, para quem vai se tornar profissional, se paga em pouquíssimo tempo se comparamos com outras profissões. Uma profissão de nível universitário leva quatro anos de formação e são investidos raramente menos de 50 mil reais, considerando passagens, materiais (livros, xerox, equipamentos) e transporte. O retorno desse investimento é a longo prazo, pois mesmo conseguindo uma colocação rápida no mercado, um iniciante dificilmente conseguirá uma renda capaz de permiti-lo pagar o que investiu em menos de 3 anos. Abrir um negócio recai na mesma situação: muitos empresários já sabem no momento da abertura da empresa que levarão pelo menos 5 anos para pagar seus investimentos e passar a ter lucro.

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A mentalidade fast food faz crescer a busca por cursos rápidos, mas… Quando colocamos o fator velocidade potencial de ganho para uma formação em terapias, a atividade se torna um “sonho dourado”, se pensarmos que na é muito raro que um curso na área leve mais de dois anos. A frustração após a obtenção do diploma, contudo, revela um panorama obscuro: Dos que se formam, pouquíssimos conseguirão lugar no mercado, e desistirão em pouco tempo.

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Uma das razões é a “mentalidade fast food” que parece ter tomado conta dos brasileiros, notadamente no quesito educação. O perfil do “aluno fast food”, que abunda as salas de aula dos cursos relacionados às terapias corporais acaba afirmando uma imagem dessas mesmas terapias como superficiais – porque sem dúvida a afinação curso-aluno fast food é responsável por uma indústria de produção de mediocridade.

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Se por um lado é rápido para esse “terapeuta” entrar no mercado, é muito difícil se estabelecer BEM nele. Talvez até por sorte das pessoas, a maioria  desanima e vai fazer outra coisa, em curto espaço de tempo. Um dos fatores que também pesa, nesse caso, também é a falta de amparo pós-formação. Ora, dedicar-se profissionalmente a uma atividade autônoma exige gerenciamento de carreira, e no começo, sem qualquer experiência, a maioria precisa de apoio, supervisão, incentivo.

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Quantas escolas dão suporte ao aluno após a formação? Não é a toa que na Aeshi garantimos reciclagem gratuita aos alunos, e mantemos um programa vitalício de aprendizagem continuada, com atividades e estudos dirigidos mensalmente, e estudos personalizados para os alunos avançados.

Ser terapeuta é tornar-se um profissional de EXTREMA responsabilidade. Um curso sério sabe disso e não pode permitir que alguém saia “formado” incapaz de lidar com a alma humana. É de extrema responsabilidade estar a frente de um curso que lida primordialmente com o corpo e as emoções, ainda mais quando toque é o principal recurso. Mas, ser bom na praxis terapeutica não é o suficiente! Para além disso, o aluno precisa ser preparado em um amplo espectro profissional, que diz respeito inclusive a sua economia. Contar com a escola APÓS o seu curso para se firmar é fundamental.

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Esse novo terapeuta, bem amparado, sabe da importância de sua atividade. Sabe de sua própria qualidade técnica. Isso leva ao último ponto deste artigo. O profissional que investe em um curso pobre porque é “barato” tende a cobrar um preço inferior. É um grupo grande, talvez predominante, que leva o valor de consulta médio do Shiatsu a um patamar bastante baixo. Esse tipo de profissional desvaloriza a si próprio pois nem tem noção do que o Shiatsu realmente pode fazer. E puxa a todos nós, praticantes sérios, para baixo. Uma economia burra, onde prevalece o princípio equivocado da “insustentabilidade” financeira.

 

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Arnaldo V. Carvalho dirige a Aeshi – Escola de Shiatsu. É autor do livro “Shiatsu Emocional”, membro do Sindacta – Sindicato de Acupuntura e Terapias Afins do Rio de Janeiro, e da ABRASHI – Associação Brasileira de Shiatsu. Com experiência de duas décadas, já percorreu diversos estados e deu aulas em 4 continentes do planeta sobre Shiatsu e terapias correlatas.

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“Curso caro” – A formação de preços no Shiatsu (Parte 2: A radiografia do que se contrata)

Saiba se o que você está pagando por um curso de Shiatsu e outras terapias vale a pena (segunda parte)

Por Arnaldo V. Carvalho*

Vamos agora esmiuçar, para quem desejar saber mais, o que forma o preço de um curso.

Toda estrutura tem gastos. Luz, água, aluguel. Todo recurso humano custa. Secretaria, deslocamento, alimentação. Para fazer a informação chegar, há custos. Panfletos, anúncios eletrônicos, mala direta, assessoria de imprensa. Toda infra-estrutura necessita de recursos: Certificados, apostilas, canetas, etc. E para além de todos esses gastos, há os honorários concedidos não somente ao professor mas a todos os envolvidos. Na realidade atual, os honorários não apenas oferecem ganhos em cima de dias ociosos, mas cobrem valores que deixam de ser recebidos quando o professor que também atua em consultoria e/ou tratamentos desloca seu tempo profissional para tais cursos. Os valores que incidem sobre um curso, finalmente, precisa cobrir uma depreciação calculada de equipamentos, a taxa de evasão do curso.

Os cursos variam em preço de acordo com todos esses gastos, e não conheço uma grande ou pequena escola que não faça preços fora dessa lógica. Se um curso investe mais, precisa cobrar mais caro. Esse investimento acontecerá em proporções diferentes de acordo com o curso, nas seguintes áreas:

– Infra-estrutura

– Propaganda

– Recursos Humanos

Não sei se sabem, mas o valor real da maioria dos produtos de grande popularidade é de apenas 20% de seu valor de venda. Do restante, pelo menos 70% corresponde a MARKETING. É claro que isso não corresponde a realidade dos cursos e atendimentos de Shiatsu. Mas dá para ter uma ideia de que o que as pessoas estão consumindo é IMAGEM e visibilidade, ao invés de qualidade.

Se comprar imagem é uma opção quando você compra um supérfluo, não pode ser quando se trata de se investir em um curso na área de saúde, seja ele qualquer. Estaremos nos preparando para lidar com pessoas. Com a saúde das pessoas.

Infra-estrutura:

– Um espaço confortável envolve ambiente climatizado, silêncio, banheiros de qualidade, privacidade, mobiliário adequado às aulas, metragem condizente.

– O número de alunos precisa estar de acordo com as regras de espaço, de suficiência de atenção.

– Caso o número de horas seguidas de curso seja longo, sua organização deve oferecer breaks com lanches ou, nos horários pertinentes, intervalos para que os alunos possam fazer suas refeições.

Propaganda:

– O curso precisa que as pessoas saibam dele. Não é possível fazer isso sem investimento em propaganda, e atualmente, isso custa caro.

As organizações de cursos investem cada vez mais em divulgação eletrônica, tanto porque a impressão em papel e sua circulação tem se tornado cada vez mais cara e dispendiosa, quanto porque há cada dia mais gente acessa a Internet. Mas a propaganda impressa ainda é importante e altamente utilizada, enquanto que a propaganda virtual também demanda tempo, conhecimento e recursos muito específicos – podendo se tornar tão ou mais caro que a estratégia impressa.

A visibilidade de um curso indiretamente afetará o aluno após o curso: quanto mais notório é uma formação, mais chance dos usuários associarem o nome da pessoa ao local em que ela se formou.

Recursos humanos:

Para haver um curso de Shiatsu, não é necessário simplesmente a existência de professores e alunos. É preciso uma estrutura humana, que cuidará para que essa interação surja e aconteça de modo satisfatório. Faxina, secretaria, coordenação, compras, organização geral (propaganda, recepção de matrículas, prestação de informação geral, controle da propaganda – feitura, impressão, prospecção, etc.),

O professor, por sua vez, precisa receber o que deixará de receber se estivesse atendendo. Precisa receber de modo não só a custear sua vida pessoal, mas também a investir em pesquisar métodos de ensino, novas técnicas. Isso quer dizer que o professor de alto nível investe em educação: livros, cursos, congressos, etc., para trazer o que há de melhor aos seus alunos. Esses investimentos são altos. Nada mais justo do que seus honorários cobrirem essa despesa, de quem oferecerá muito material pré-digerido, que não poderia ser encontrado da maneira como ele transmite.

Se pensarmos num curso com poucos alunos para que tenham atenção especial do professor por todo o tempo, além de todos os detalhes descritos até aqui, um curso como esse não pode custar o que vem custando quase sempre! Qual é o segredo então para cursos aparentemente “baratos”?

– Carga horária programada de forma a “encher linguiça”, professor mal qualificado, muitos alunos por turma, subsídios do governo / outros, localização/infra-estrutura de categoria inferior. Uma, duas, ou a soma de várias dessas características.

Uma palavra aos que desejam atuar profissionalmente com Shiatsu: mesmo os cursos considerados mais caros, se forem de qualidade são dos mais baratos no que se refere a uma formação na área de saúde. Em poucas sessões o curso está pago. Falemos aqui na ordem de R$5 mil reais para uma formação bastante completa em Shiatsu (incluindo os cursos, transporte, material didático, livros etc.). Esse valor é bem superior ao que se gasta com mensalidades de um curso técnico na área. Mas é bem inferior ao que se vai gastar em formações de outros setores, especialmente às formações de universitárias. O retorno do investimento após uma faculdade (onde será gasto em média por volta dos 50 mil reais) levará meses, as vezes anos para se pagar. O da formação em Shiatsu é realmente mais rápido, calculando a média do preço de uma sessão em qualquer capital do Brasil. Algumas dezenas de sessões depois, tudo o que foi gasto já retornou, e para quem é profissional, isso se cobre em meses.

Então, antes de pensar que um curso é caro, verifique a infra-estrutura e seus recursos humanos, se tornar um curso visível parece ser uma preocupação mais importante que o que o curso de fato oferece, e se essa formação tem  a qualidade necessária para te levar ao topo profissional (desde que você se dedique, é claro). E lembre-se: Um curso que te traz o retorno previsto ou acima do previsto sempre valerá a pena. Um curso que frustra sempre será caro. O preço justo, não há dúvidas, será aquele em que todos se beneficiam: aluno, professor, organização. 

Leia a parte 1: A formação de preços no Shiatsu (Parte 1: Resposta ao leitor)

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Arnaldo V. Carvalho
Começou a praticar Shiatsu em 1993 após um curso de formação com Gilberto Sonoda, e em 1998 teve a oportunidade de ministrar sua primeira aula sobre o tema. Daí para frente não parou mais, tendo percorrido diversos países e estados do Brasil ensinando e aprendendo. É autor do livro Shiatsu Emocional e membro da Associação Brasileira de Shiatsu (ABRASHI). Dirige a AESHI – Escola de Shiatsu.

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“Curso caro” – A formação de preços no Shiatsu (Parte 1: Cursos)

Preço x relação custo/benefício

Por Arnaldo V. Carvalho*

De vez em quando, eu ou a Aeshi – Escola de Shiatsu, que dirijo, recebemos um e-mail ou comentário de que “o curso é caro”.  Eu compreendo. Afinal, nosso curso básico custa pouco mais de um salário mínimo, e isso talvez seja difícil para algumas pessoas. Porém, quem faz um curso Aeshi está a procura de autoconhecimento, realização pessoal e formação profissional. Nossos cursos satisfazem essas três procuras, e me pergunto se esse valor é mesmo inviável, com tudo o que vejo ser consumido nesse país.

Mas não é apenas uma questão da pessoa ter ou não o dinheiro. É que a maioria não deve saber o que paga, o que é investido para o que é oferecido. E sim, é verdade que muitos cursos por esse preço não oferecem o que geram em termos de expectativa. Gostaria então de publicar um esclarecimento sobre o tema, para que os interessados em cursos de Shiatsu possam fazer suas escolhas de modo consciente. Comecemos por uma resposta que dei ao último que reclamou que “o curso é caro”, e ainda comparou o curso com um curso gratuito que ele teria feito no Senai:

“Compreendo. Você sempre pode fazer as opções. O Senai e o Senac recebem subsídios da indústria e do governo. O foco é a produção de técnicos. Nossos cursos são para terapeutas, profissionais que estão certamente em outro patamar de conhecimento e atuação, e para pessoas que querem transformar algo em suas vidas. Claro que um curso para massas possui características claras:

– Turmas com excessivo número de pessoas;
– Disciplinas estruturadas sem levar em conta as particularidades de cada aluno;
– Avaliações baseadas no sistema escolar tradicional (insuficientes para garantir a compreensão e principalmente elaboração dos conteúdos estudados);
– Total falta de suporte após a formação.

Os cursos da Aeshi oferecem suporte POR TODA A VIDA do aluno. As turmas são reduzidas, o ensino super individualizado, e os professores com experiência internacional. Você acha mesmo que dá para comparar?

Agora, tirando todos esses detalhes… Você paga um curso como esse com cerca de dez sessões de trabalho, possibilitadas pelo que aprendeu! Quanto tempo você acha que leva para uma pessoa pagar o que investiu em educação, em se tratando de outras áreas?

Para refletir.  Agradeço o seu comentário”.

Não cheguei a denunciar que em instituições como essa os professores recebem valores baixíssimos, o inclusive faz com que a grande maioria dos professores de alto nível se desinteressem pela instituição (com poucas exceções de professores que seguem atuando por puro amor).

Finalmente, esqueci de dizer, nesse comentário, que na Aeshi, nunca deixamos de fora por questão financeira alguém realmente interessado e que compreendeu nossas propostas e diferenciais. Sempre há uma maneira de resolver isso, mas é preciso que a pessoa nos procure e exponha sua situação. A Aeshi sempre acolherá aos que estiverem comprometido em aprender e escolheram nosso método.

Sejam todos muito bem vindos!

Arnaldo V. Carvalho
Aeshi Escola de Shiatsu

Leia a parte 2: A formação de preços no Shiatsu (Parte 2: A radiografia do que se contrata)

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Arnaldo V. Carvalho, começou a praticar Shiatsu em 1993 após um curso de formação com Gilberto Sonoda, e em 1998 teve a oportunidade de ministrar sua primeira aula sobre o tema. Daí para frente não parou mais, tendo percorrido diversos países e estados do Brasil ensinando e aprendendo. É autor do livro Shiatsu Emocional e membro da Associação Brasileira de Shiatsu (ABRASHI). Dirige a AESHI – Escola de Shiatsu.