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Mitos e verdades sobre a origem do Shiatsu

As três “histórias do Shiatsu”

Mitos e verdades sobre a origem da terapia

Por Arnaldo V. Carvalho

Há pelo menos três “origens” do Shiatsu anunciadas na Internet, nos livros, e nas falas dos professores da técnica. Uma quarta, menos conhecida ou explorada também surge como hipótese. Para os alunos iniciantes, ou que aprenderam de um jeito e agora deparam-se com informações diferentes da recebida durante a formação, a confusão fica armada. Desmistificamos aqui as principais afirmativas acerca da origem do Shiatsu:

1. Shiatsu é uma técnica da Medicina Tradicional Chinesa

Mito. Tem influência, mas não origem, pelo menos não direta, e a principal corrente do Japão, inclusive, sequer utiliza as teorias da Medicina Tradicional Chinesa. Sabemos da grande influência cultural do continente asiático ao longo do tempo no Japão, sobretudo a partir do século VI. As práticas de saúde fluiam de um lugar ao outro. Formalmente, entretanto,  não se pode afirmar que o Shiatsu tem origem na MTC, embora ela possa utilizar fragmentos de sua teoria, e ainda coincida que a técnica de pressão com os dedos faça parte de práticas de saúde empregadas largamente na China (na verdade, em todo o globo).

2. Tokujiro Namikoshi foi o criador do Shiatsu

Mito. Namikoshi foi um famoso professor de Shiatsu, e sua escola chegou ao auge no pós-guerra. Desenvolveu um estilo próprio, adequado ao pensamento da época, aos desígnios do que ocorria em seu país. Sua escola, atualmente dirigida pelo neto, segue como talvez a mais poderosa do Japão, e possui braços fortes na Europa e América do Norte.

3. Shiatsu deriva da Anma

Em partes. Anma, a antiga massagem japonesa que inclui diversas manobras, entre diferentes variações de digitopressura. É muito possível que o Shiatsu tenha sido uma “especialização” informal dentro da Anma.  (que se tornaria o Shiatsu). Contudo, há pioneiros do Shiatsu, como o citado mestre Tokujiro Namikoshi, que chegaram ao Shiatsu (ou à técnica de pressão com os dedos) por observação empírica, a partir da prática de uma massagem livre, sem nome. 

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Principais afirmativas devidamente desmistificadas, lanço aos leitores mais uma vez a hipótese com que mais trabalho em meus estudos sobre a história do Shiatsu: a das origens múltiplas. Nos últimos anos, busquei observar a sociedade japonesa da virada do século XIX para o XX, e daí às suas primeiras duas décadas (contexto do aparecimento do primeiro livro a citar Shiatsu no Japão), levando ainda em conta as transformações culturais ocorridas naquele país ao longo dos séculos, e coletando finalmente os resquícios desse momento no anos subsequentes. Considero plausível especular que o Shiatsu surgiu informalmente em diferentes segmentos sociais, que foram aos poucos intercambiando e cunhando uma série de métodos de pressão, hoje agrupados sob o nome “Shiatsu”.

É difícil de se precisar, pois as fontes históricas (registros escritos, pinturas, etc.) – pertencia a uma elite sociocultural muito restrita. Se havia uma forma de Shiatsu praticada nas camadas populares, entre agricultores por exemplo, não temos como provar. Mas há indícios, inclusive preservados no Brasil, através das migrações: Os prováveis primeiros praticantes em nosso país foram eles – e os que vieram pertenciam a tais camadas sociais.

Em paralelo, o Shiatsu era praticado em dojos, atrelados a arte marcial (por sua vez originada dos treinamentos de Samurai e outros de defesa dos Damyos e famílias), e nos templos, como parte das técnicas de cura preservadas junto aos monges (xintoístas e zen-budistas). Desses dois segmentos devem ter se originado os primeiros professores formais, ligadas às escolas técnicas de Amma, surgidas na ocidentalização e massificação da educação relacionada à Restauração Meiji.

Contudo, a prática seguiu e modificou-se no próprio Japão e depois em todo o mundo (leia nosso artigo “os muitos Shiatsus”), apesar das reivindicações deste ou daquele grupo de praticantes como “verdadeiros” ou “fundadores”.

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Arnaldo V. Carvalho, praticante de Shiatsu desde 1993, dedica-se à compreensão histórica do Shiatsu e suas origens, além da preservação de sua memória popular.

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Os muitos Shiatsus

Os muitos Shiatsus

Publicado em Julho 3, 2012 por

Os muitos Shiatsus

Uma conversa sobre escolas e estilos

Por Arnaldo V. Carvalho

Anos atrás, uma pessoa me ligou interessada em fazer um curso comigo. No meio do caminho ela afirmou já ser formada em Shiatsu, e quando lhe perguntei “qual estilo você pratica”, ela assumiu um tom de voz de surpresa, confusão e lançou: “Estilo?! Como assim? Faço Shiatsu ora!”. “Bem”, respondi eu, “é que há muitos tipos de Shiatsu e se você me situar o seu posso falar um pouco mais sobre o que o nosso curso pode ter a oferecer para você”. A pessoa simplesmente desligou o telefone.

Esse é o episódio comum no Brasil, e muitos praticantes somente descobrem que o universo do Shiatsu é bem maior do que aquele a que foi apresentado em um curso muito depois – quando descobrem. Na maioria das vezes, o primeiro contato com a existência de outras formas de praticar Shiatsu choca o profissional. Até porque o ser humano não costuma gostar de “saber por terceiros” de algo que aparentemente deveria lhe ter sido transmitido por quem o ensinou. Cabe aqui um exemplo verídico:

Certa vez um terapeuta de Shiatsu recém chegado do Japão me pediu orientação acerca de sua própria formação. Ele descobrira somente no Brasil a Teoria dos 5 elementos e diversas outras teorias da medicina oriental que não lhe foram apresentadas por sua professora japonesa. Sentia-se enganado por ela. Passou pelo período de acreditar que ou a Sensei não era preparada, ou negava-se a ensinar o que sabia. Procurei lhe explicar que há muitos caminhos para o bom Shiatsu, e no Japão não é mesmo comum o uso de algumas teorias da MTC, que aqui a maioria das escolas ensina. À medida que ia ampliando sua percepção, compreendeu mais sobre essa multiplicidade de técnicas aplicáveis pelos praticantes de Shiatsu.

O problema inclusive passa pelos próprios formadores. A realidade conhecida por vezes é pequena, e tomada como a única. Ouço com freqüência a defesa veemente, inclusive por profissionais experientes e influentes, que “Shiatsu é um só”. Trata-se de um discurso romântico, mas tal afirmativa só pode ser considerada após enfrentarmos algumas perguntas:

– Se Shiatsu é um só, qual seria então o “verdadeiro”? Seria a técnica que Masunaga ensina, usando a MTC e a palma das mãos na maior parte das pressões seria Shiatsu? Ou seria a técnica de Namikoshi, que ensina pontos e protocolos baseados na medicina ocidental? Ou o ainda Shiatsu seria o método Ko-ho, desenvolvido no seio das artes marciais? Quem sabe ainda o “Shiatsu que é um só” seria o do povo, o povo japonês que começou a trazer informalmente a técnica para o Brasil nas primeiras décadas do séc. XX? E se analisarmos o Shiatsu de cada uma dessas famílias que estabeleceram colônias aqui, veremos a utilização dos mesmos toques, pontos, pressões?

Para tantas questões há um argumento reducionista popular na boca de muitos profissionais da MTC: “Shiatsu é um pedaço do tui-na chinês, uma simplificação que os japoneses fizeram”. A afirmativa, mais uma vez, mostra o despreparo e/ou a falta de entendimento dos contextos históricos que acarretaram na criação do Shiatsu, no desenvolvimento dos estilos, e nas diferenças filosóficas, teóricas e práticas entre uma e outra técnica. Haver fortes pontos de contato entre as culturas chinesas e japonesas não indica que uma cultura plasma a outra simplesmente. Seria como dizer que a cultura brasileira é um mero desdobramento da portuguesa.

As tentativas de compreender o Shiatsu como um só até certo ponto buscam também criar unidade entre práticas com características muito próprias, muitas vezes distintas, que justifique nomear todas elas como Shiatsu. E, se ir aos meandros da história nos faz compreender a origem de cada desdobramento do Shiatsu, para enxergar os fatores que caracterizam cada um desses estilos, deveremos ir fundo em nossas investigações, e perceber o que une cada uma delas a uma só essência, o que torna enfim possível modos tão diferentes de pensar e agir ainda assim reunirem-se sob um só nome.

Para o propósito deste artigo, vamos nos limitar em dizer que quem conseguiu chegar a esse nível de investigação saberá, ao assistir pessoas a praticar Shiatsu, reconhecer a característica essencial e dirá, ainda que sua própria maneira de praticar seja bem distinta: “isso é Shiatsu”.

 

O Shiatsu de antes da Guerra

Shiatsu Tradicional: Esse nome será utilizado neste artigo para fins didáticos1.  Possuidor da maior comunidade japonesa do mundo, o Brasil pode se orgulhar de ser hoje guardião de parte de uma cultura de cura japonesa, despedaçada pela derrota na II Guerra Mundial, violentada pela cultura americana imposta “a ferro quente”. As primeiras migrações japonesas trouxeram o Shiatsu para o Brasil muito cedo, e em primeiro momento, ele manteve-se praticado dentro das colônias, e transmitidas no âmbito familiar. Com a crescente interação dos japoneses com a cultura brasileira, esta aos poucos passou a ser popularizada na forma de tratamento, posteriormente ensinada – surgiam algumas das primeiras escolas de Shiatsu no Brasil. O Shiatsu tradicional é rodeado de especificidades a variar conforme a família e região de origem.

Ko-ho: O “método antigo” talvez seja representado no Brasil principalmente pela escola ABACO do Rio de Janeiro, fundada por Sohaku Bastos, monge e praticante de artes marciais. O Ko-ho tem sua história ligada a própria origem das artes marciais. O surgimento das escolas de artes marciais no Japão, na virada do séc. XIX para o XX, não se restringe a práticas de luta. A  filosofia dessas artes eram (e são) brindadas com muitos ensinamentos xintoístas e do budismo e incorpora as práticas de saúde dos monges, dentre elas, o Shiatsu. Este método se aproxima bastante a Acupuntura na utilização dos conhecimentos da Medicina Tradicional Chinesa. Seu toque é bastante específico, seus métodos, protocolares. Há posturas corretas e além do polegar eles utilizam frequentemente os chamados “dedos arqueiros” (os três últimos dedos unidos).

Shiatsu Pós-Guerra: O divisor de águas

As técnicas mais famosas e praticadas no mundo hoje surgiram com a cultura do pós-guerra e polarizaram o Shiatsu. Uma tornou-se o “Shiatsu oficial” do Japão, e a outra correu o mundo ocidental para afirmar-se praticamente em contra-movimento ao “novo Shiatsu” japonês.

Shiatsu Namikoshi: Tokujiro Namikoshi, segundo o próprio, descobriu espontaneamente o seu Shiatsu ao tratar de sua mãe, ainda no início do séc. XX. Foi então estudar formalmente com Tamai Tampaku (autor do primeiro livro de Shiatsu do mundo), estudou anatomia, e fundou sua escola em Tóquio. Seu estilo não leva em conta as teorias dos meridianos, dos cinco elementos, etc., mas combinações de pontos, e protocolos para tratamentos diversos de saúde. Por uma combinação histórica de oportunidades, sua escola obteve o reconhecimento oficial do governo, e única que participa efetivamente no sistema integrado de saúde no Japão. Possui núcleos em diversos países e milhares de praticantes.

Zen Shiatsu (Escola Yokai): A técnica da escola de Shizuto Masunaga ficou conhecida em todo mundo a partir de seus seminários na Europa e nos EUA e do lançamento do livro “Zen Shiatsu” no ocidente. No Japão sua escola é a Yokai, que não utiliza a denominação “Zen” para seus cursos. Este nome, porém, se popularizou pelo mundo inteiro.

A babel européia

Não podemos deixar de assinalar que nessa época a massa migratória japonesa em direção a Europa fundou escolas em seus diversos países. O Shiatsu ganhou contornos próprios de mestres tradicionais e seguiram desenvolvendo-se. Com o tempo, metabolizado pelos praticantes ocidentais, deram origem a diversas formas de Shiatsu (inclusive as que apresentaremos a seguir), algumas mais outras menos conhecidas. Muitas desses estilos conversam entre si, e há congressos internacionais todos os anos, a reunir europeus de toda a parte. De certa forma, a barreira da língua concentra o Shiatsu em blocos: Um bloco anglo-germânico, onde o intercâmbio acontece sobretudo entre suíços, ingleses e alemães; um mediterrâneo, entre espanhóis e italianos. A França parece viver um mundo a parte do Shiatsu, e os países do leste Europeu buscam nos diversos blocos fontes de inspiração mas seguem em desenvolvimento próprio.

Técnicas modernas

Ohashiatsu: Co-autor de “Zen Shiatsu”, Ohashi conta que nasceu com saúde muito frágil e o Shiatsu lhe devolveu a condição energética. Foi aluno de Masunaga, e após transferir-se para os EUA obteve grande sucesso, organizou seminários para seu professor, e tornou-se o autor mais profícuo e respeitado dos dias de hoje. Profundo conhecedor da medicina tradicional do Japão e do Zen Shiatsu, Ohashi seguiu se desenvolvendo a tal ponto que seu estilo tornou-se único, com uma série de técnicas exclusivas – surgia aí o “Ohashiatsu”. Entre tais técnicas, uma movimentação extremamente harmoniosa, não mecânica, e a defesa de que é muito importante o terapeuta sentir-se muito bem ao longo de toda a prática. O Brasil possui praticantes de Shiatsu e até onde sabemos um único brasileiro tornou-se habilitado em ensinar a técnica, o mineiro Marco Antônio Duarte.

Shiatsu dos Pés Descalços (Macrobiótico): Shizuko Yamamoto radicou-se na Inglaterra e tornou-se uma terapeuta de Shiatsu conhecida por lá. Adepta da Macrobiótica, ela utiliza em seu Shiatsu antigos preceitos de saúde japoneses, as idéias da macrobiótica, em parte influenciadas inclusive pela própria. Seu livro “Shiatsu dos Pés Descalços” é um Best seller no Brasil, embora sua técnica não tenha esse nome em outros lugares. Autores ingleses costumam se referir ao seu estilo como “Shiatsu Macrobiótico”.

Tao Shiatsu: O japonês Ryokyu Endo, após estudar com Namikoshi e Masunaga segue desenvolvendo-se até que funda o Tao Shiatsu. O principal foco de trabalho fica em torno da energia negativa (Jaki), que precisa ser liberada para o corpo recuperar seu equilíbrio vital. Endo acredita que o mundo moderno potencializou a “poluição energética humana”, e que o novo homem possui outros meridianos além dos antigos.

Técnicas contemporâneas

São inúmeras técnicas surgidas a partir dos anos 90. Vamos citar apenas algumas que já foram ensinadas e são praticadas em mais de um continente, incluindo com orgulho técnicas de três brasileiros.

Seiki Meridian Shiatsu (SMS): A consciência da “energia Seiki”, a centelha divina que habita em todos nós, precisa estar desperta, pois é dela que surge nosso poder curativo, nossa conexão com a Vida. É o que a técnica do israelense Tzvika Calisar se propõe a fazer. Utiliza, para isso, a idéia de conexão entre os interagentes a praticar a técnica, com o terapeuta utilizando sua própria centelha para regular a do outro.

Na América do Sul, seu principal representante é o belíssimo mestre Alejandro Cohen (Chile).

Shiatsu Emocional (ShEm Method): Desenvolvido por Arnaldo V. Carvalho, com influência de seus estudos no campo da pedagogia, neurociência, naturopatia, sociologia, psicoterapias (especialmente as de linha reichiana) e do pensamento oriental, possui uma série de premissas que o tornam diferenciados. Para Carvalho, os tratamentos ocorrem em diversos níveis: pessoal, familiar e social. No plano pessoal as emoções são percebidas como a interface entre o físico e o energético. As memórias emocionais constroem uma estrutura responsável por tornar o fluxo dos meridianos mais ou menos fluente. Os meridianos se relacionam com os segmentos psíquicos que geram couraças musculares. Os praticantes passam a dominar aspectos como o desenvolvimento da personalidade, a importância do período primal, o inconsciente, as situações transferenciais, e preparam-se para lidar com ab-reações, catarses, etc. Devem enxergar a relação terapêutica como capaz de produzir efeitos nos diversos níveis, como parte integrante de fenômenos inerentes a coletividade. A exploração dos cinco sentidos durante as sessões, a utilização do conceito de atividades extra-sessão, a utilização da conexão entre terapeuta-cliente-mundo, aqui chamada de conexão-totêmica, tudo isso a torna bastante diferenciada. As práticas levam em conta todos esses fatores, e buscam permitir a emersão de materiais inconscientes reprimidos, a regulagem efetiva do Ki através da liberação de tais materiais. Os planos familiares e sociais são discutidos e trabalhados através de intervenções cotidianas onde os praticantes assumem-se enquanto atores fundamentais no meio onde estão inseridos. A originalidade da técnica e a profundidade dos conhecimentos têm sido aproveitadas por profissionais de Shiatsu de diversas outras escolas e estilos.

Ki Shiatsu: Ainda sob batismo informal, esse é o nome de um estilo muito próprio desenvolvido pelo brasileiro radicado na Inglaterra Emerson Bastos. Emerson é querido e respeitado como terapeuta e professor onde quer que vá, e traz em sua técnica diversas contribuições ligadas ao tempo de espera, a relação terapeuta-cliente, a percepção das constelações familiares como parte dos processos energéticos ocorridos com os clientes, e diversos métodos e práticas aprendidas com grandes mestres do mundo inteiro, recombinados com intervenções por ele desenvolvidas. Bastos têm ensinado técnicas especiais de reestruturação energética, postural e outras em diversos países, que se encaixam perfeitamente nos vários modos de fazer Shiatsu.

Movement Shiatsu: Um dos fundadores da Sociedade Britânica de Shiatsu, Bill Palmer desenvolveu essa técnica através de pesquisas próprias. No Movement Shiatsu o cliente tem uma participação bastante ativa. A medida que o Shiatsu avança, são propostos pequenos exercícios, e o cliente tem a oportunidade de conscientizar-se do seu corpo, seus pontos a trabalhar, e o que vai acontecendo a medida que o Shiatsu atua.

Quantum Shiatsu: Pauline Sasaki, uma das principais formadoras do Ohashiatsu, enveredou-se pelos caminhos quânticos, e olhando para além da ilusão da Matrix, passou a ir direto aos pontos, sem necessidade de teorias complicadas. A compreensão profunda do pensamento quântico é subsídio para uma prática na qual o terapeuta é levado para um patamar de percepção extra-sensorial, acima da racionalidade limitante, podendo assim interagir diretamente com o campo energético do cliente, sua interação com o Todo, e enfim harmonizar.

“Ex” Shiatsus

Alguns praticantes rompem com aspectos considerados parte indivisível do Shiatsu, e criam terapias híbridas. Isso quer dizer que elas incorporam a essência do Shiatsu, mas já não se comunicam com este. Muitos consideram que já se tratam de técnicas distintas.

Tantsu e Watsu: Criações do americano Gerald Dull. O Tantsu, também chamado de “Shiatsu de Colo”, é uma forma de tratar onde o contato físico de terapeuta e cliente é bem mais intenso, maternal até. Já o Watsu é o famoso “Shiatsu na Água”, que reúne

Jahara technique: O brasileiro Mario Jahara Pradipto talvez tenha sido o autor mais popular do Zen Shiatsu nos anos 90. Experiente professor, criou dois livros belíssimos e didáticos2, flertando com a arte, ensaiando a percepção poética da técnica. Forte influência da escola de Gerald Dull. Mais tarde, na maturidade de sua técnica, Pradipto reúne seus conhecimentos aprendidos a muitas novas percepções próprias e cria um método conhecido em muitos países, mas especialmente nos EUA onde vive – Jahara Technique.

  1. Leia também o artigo “Shiatsu Tradicional… Existe”? de Arnaldo V. Carvalho
  2. Os livros são “Zen Shiatsu” e “Tao Shiatsu”.

* Arnaldo V. Carvalho é praticante e estudante de Shiatsu há quase duas décadas; percorreu diversos países aprendendo e ensinando a técnica, e atualmente dedica-se a promovê-la em seu país e desenvolver o intercâmbio entre seus praticantes. É membro da ABRASHI – Associação Brasileira de Shiatsu

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Shiatsu Tradicional… Existe?

Shiatsu Tradicional… Existe?

O conceito de “tradicional” para o Shiatsu é duvidoso e em geral mal empregado

Por Arnaldo V. Carvalho*

O termo “Shiatsu Tradicional” é visto frequentemente como designação de um Shiatsu “mais puro”, “mais oriental”, ou quem sabe até mais sério e/ou profundo. Alguns interessados ou curiosos com a técnica possivelmente imaginam que é exatamente isso, a ponto até de haver procura por cursos ou tratamentos “Shiatsu tradicional”. Mas o que de fato será o Shiatsu tradicional? Uma modalidade específica? Tradição remete a algo antigo, que se reproduz continuamente, da mesma forma, e por longo tempo… quem sabe até algo tão antigo quanto a cultura milenar que sobrevive no Oriente! Haverá assim um Shiatsu Tradicional, imutável e sendo transmitido por gerações?

A resposta imediata é “não”. Shiatsu é fruto de um movimento que não se encerra nunca, pois trata da relação do ser humano com seu próprio corpo. A medida que o grupo social de onde se origina o Shiatsu evolui, também o Shiatsu evolui. A medida que o Shiatsu passa a ser praticado por diferentes culturas, também modifica-se o Shiatsu. Ao passo da percepção individual, o Shiatsu não pode permanecer o mesmo: cada um possui uma relação com o próprio corpo (símbolo do “Eu”) e com o corpo vizinho (símbolo do “outro”). Essa relação é estabelecida de pessoa para pessoa, e influenciada pela formação da personalidade e seus traços, pela educação, cultura…

É claro, pode-se dizer que, se o Shiatsu não é reproduzido fielmente por muito tempo, ao menos ele pega emprestado e mistura a cultura tradicional japonesa a suas recém-importadas tecnologias. Assim como a antiga massagem An-ma1 é elementar na criação do Shiatsu, costumes japoneses tradicionais, que incluem a filosofia, a maneira de vestir, a distância e formalidade entre os praticantes, também. Finalmente, coube ao Shiatsu utilizar de forma inédita os saberes anatômicos, fisiológicos da arte de curar ocidental, além de incorporar pensamentos e ações inerentes a quiroprática e osteopatia.

Para ilustrar a questão de modo mais preciso, vamos lembrar alguns dos fatos que participam da trajetória do Shiatsu, sua origem e desenvolvimento.

O Shiatsu começa a tomar a forma que conhecemos hoje entre no intervalo de tempo do chamado Grandioso Império Japonês, da Restauração Meiji (1868) até a derrota japonesa na II Guerra Mundial (1945). Foi quando a cultura japonesa passou por uma transição brusca, deixando para trás a secular estrutura do xogunato, uma ditadura militar e feudal, isolada do restante do mundo, para a chamada Era Meiji, onde o país experimentou um rápido processo de modernização e crescimento econômico. Em poucos anos, o Japão passou de uma cultura familiar para uma cultura industrial, de tradição espontânea e ensino discipular para ensino sistemático, ocidentalizado. Esse momento mudaria rápida e radicalmente a forma do Japão ver e ser visto por si mesmo e por todo o globo, e culminaria de forma tão contundente que ainda hoje há muito a ser assimilado, percebido, aceito por aquela nação em relação ao ocorrido naquele período.

Para se ter uma ideia da efervescência do momento, temos, além do Shiatsu, o nascimento de diversas técnicas e práticas corporais, terapêuticas, espirituais e sociais (pilares fundamentais do Shiatsu) que permaneceriam fortemente estruturados até os dias de hoje. Nessa época personagens místicos que se tornariam referencias japonesas nas artes de cura e espiritualidade atuais. Em 1865 Mikao Usui (Reiki) nasce; Tokuharu Miki (Perfect Liberty) em 1871. Meishu-sama (Igreja Messiânica) nasce em 1882. Masaharu Taniguchi (Seisho-no-ie) em 1893; Nas artes marciais, também se viu surgir aí o judô, o aikido e o karatê moderno. Tadashi Izawa, outro importante mestre da história do Shiatsu, é de 1895; Tokujiro Namikoshi, responsável pela institucionalização do Shiatsu e seu reconhecimento governamental nasce logo depois, em 1905, ainda na Era Meiji.

Sem dúvidas, o processo de industrialização e a ascensão do capitalismo no Japão a partir da Era Meiji e suas várias mudanças (abertura ao comércio internacional; a forma de se ensinar; o público-alvo dos cursos; o próprio surgimento de um Shiatsu ainda embrionário, em princípio sem nome, etc.) assinalam que na época de seu surgimento, o Shiatsu também participa da demarcação do território cultural japonês, agora desafiado pelas culturas ocidentais e sofrendo de uma manobra de estado que estimulava um sentimento anti-chinês – que culminaria ou que fôra incentivada – pelas guerras sino-japonesas que abrangeram todo o período do Império Japonês. Isso foi um passo importante na construção de uma técnica que fosse mais independente das teorias médicas do oriente continental, e ao mesmo tempo, na maior utilização das teorias médicas ocidentais.

Dentro desse contexto, sobram poucas dúvidas de que os os novos métodos de comunicação de massa, a decadência do sistema oral e discipular e sem dúvida, a reestruturação da educação – especialmente voltada a gerar sentido de unidade nacional – e sua consequente alfabetização contribuíram para que toda essa classe de novas entidades se enraizasse na sociedade japonesa em ritmo acelerado. As práticas de massagem também passaram pela roupagem do novo modelo de ensino, e o governo de então instituiu o ensino do An-ma para cegos, um momento antes do Shiatsu aparecer na história. O que há de tradicional nisso? O que há de “tradicional” em algo que em princípio foi criado e nunca ensinado “de pai para filho” ou de “mestre para discípulo” a moda original?

Shiatsu, transmissão e Brasil

Como muitos povos, os japoneses adotaram a massagem como forma de tratamento em seus diversos extratos sociais. Até por isso, ninguém é capaz de provar que o termo Shiatsu não era utilizado antes de Sensei Tamai Tempaku2 tê-lo escrito. Nem de dizer que ele não surge como parte da cultura corporal sempre em evolução do povo. Da cultura e da expressão popular. A prática da massagem é parte da demanda relacionada a labuta nos campos de arroz, reproduzida por gerações; Tal atividade dividirá lugar, a partir da revolução industrial iniciada no Império Japonês, com o trabalho operário. Esta nova forma de trabalho, executada de forma mecânica, sedentária e marcada por velocidade e grande volume produtivo começa a criar um novo tipo de indivíduo – e com ele, também novas dores e doenças. Cenário perfeito para o surgimento do Shiatsu em resposta a “nova medicina ocidental”, que infesta a velha cultura e cada vez mais requer uma praticidade, rapidez e eficiência que o a técnica buscaria oferecer preservando os paradigmas insulares.

Os relatos orais e os costumes tradicionais transmitidos entre os descendentes de japoneses no Brasil apontam para uma existência de cuidados corporais e familiares incorporado na cultura do povo por gerações, e portanto, tradicional. Enquanto fruto disso, o Shiatsu poderia ter uma “versão camponesa”, sendo apenas o “nome último” de uma velha prática corporal milenar.

Indícios de que isso pode realmente ter ocorrido encontram-se na concepção de movimento do próprio Shiatsu, e em especial, nas regras enrijecidas dos praticantes mais antigos: o uso exclusivo das mãos, as pressões e o encorajamento para que a pessoa “enxergue” as pessoas pelos dedos (ou seja, mais ao modo dos cegos – exatamente como os primeiros profissionais treinados em An-ma).

Esse jeito de trabalhar pode ser verificado nas manobras utilizadas pelos praticantes informais das colônias japonesas no Brasil, que aprenderam o Shiatsu dentro de casa com seus familiares, como parte de um sistema doméstico de saúde. Hoje a maior parte dessas pessoas já possui certa idade. Os jovens já tem menos chance de aprender com seus pais, e quando dão sorte e interessam-se, ainda encontram um avô para aprender e praticar. A postura do corpo do terapeuta comparada à imagem de uma pessoa agachada o dia inteiro a colher arroz num terreno encharcado já nos dá a noção do quanto o Shiatsu seria mais que uma técnica, mas um ponto dentro da infinita linha de desenvolvimento de toda uma cultura corporal.

É arriscado dizer, mas dado o nível de industrialização do Japão atual e sua mecanização no setor agrário, talvez tenhamos mais dessas práticas tradicionais nos campos do interior do Paraná, São Paulo e outros estados com grandes colônias japonesas do que no próprio Japão. A cultura transformada no país de origem acaba sendo até certo ponto preservada por aqui. (exemplo análogo é visto no Pomerano, dialeto alemão que só se fala no Brasil, tendo desaparecido na própria Alemanha).

Finalmente, em se tratando de algo que faz parte da cultura corporal de um povo, dizer que Shiatsu começou a partir de um texto escrito é correr o risco de uma afirmação equivocada. Até muito pouco tempo antes da Era Meiji, a sociedade era dividida entre a massa camponesa e uma outra minoritária, onde tal como no ocidente, ocupam-se de coordenar a ordem social, além do desenvolvimento e acúmulo de conhecimentos e tecnologias. Tal grupo minoritário era composto de nobres, monges, e samurais… ocupações célebres na sociedade japonesa, distantes do agrário, pobre e popular; e com acesso ao restrito mundo da escrita. À serviço dos ideais e da nobreza, foram os representantes do poder do Universo sobre o homem (monges) e da espada sobre a sociedade (samurais) – de grande influência na sistematização do conhecimento que dá origem as artes de cura (e da guerra) conhecidas até hoje (não é a toa que muitos mestres do Shiatsu utilizam roupas semelhantes às do Judô). Se houve, portanto, um “Shiatsu” escrito, se foi criada uma técnica dentro de uma escola de An-ma, essa destinou-se a um número limitado de uma camada específica da população. Aqui indagamos se teria havido “dois Shiatsus” coexistindo – um popular, camponês, tradicional; e outro, sistemático, industrial, moderno e… escrito. Se isso ocorre, é possível que a história que conhecemos propagada nos livros de Shiatsu possivelmente seja apenas a história de uma elite dentro do imenso universo desta terapia.

Shiatsu moderno e a prova final da falácia da tradição como cultura engessada

Se no século XIX o Japão transitou de país fechado para aberto com a característica de ir buscar fora o que precisasse para fazer o país despontar sob uma perspectiva materialista, agora, arrasado na segunda metade do XX ele passaria a receber as influências externas de maneira menos seletiva e opcional: após a rendição na II Guerra Mundial, o controle governamental passa em grande parte às mãos americanas, e entre outras políticas unilaterais, há por alguns anos a proibição das práticas de saúde tipicamente japonesas, inclusive do Shiatsu. Embora não se comente, sabemos que o Shiatsu que seria readmitido estava relacionado a um conjunto de fatores, entre eles o uso da racionalidade médica do ocidente.

A partir dos anos 60 do século XX, temos uma grande retomada do Japão conduzido por japoneses, não sem que a ocidentalização não tivesse criado fortes raízes; Essa época irá conduzir a uma nova revolução do próprio Shiatsu, com a ascenção de escolas por todo o globo, propagadas por japoneses que seguiam descompromissados com o “Shiatsu governamental” e emitindo conhecimentos derivados das antigas sabedorias. Talvez as mais bem sucedidas empreitadas de exportação desse tipo de Shiatsu tenha sido o de Shizuto Masunaga e Wataru Ohashi, nos EUA, e de Shizuko Yamamoto, na Europa. Porém, os conhecimentos aparentemente tradicionais são em parte reconstruções, e misturam-se a saberes modernos como os de George Osawa e sua macrobiótica.

O Shiatsu nunca foi um só, embora os vários caminhos tenham sido sempre igualmente válidos. É disso que surgem, inclusive, modalidades de Shiatsu familiares que poderiam ser chamadas por assim dizer de “tradicionais”. Assim, há no mínimo um Shiatsu fruto do saber popular, há um Shiatsu fruto da sistematização e apreensão da MTC por parte dos monjes Zen e do povo japonês; há um Shiatsu “tradicional” que se afasta de tudo isso, e bebe de uma fonte reconstruída a partir das necessidades e prioridades desse povo na virada do século XIX para o XX e novamente a partir do fim da II Guerra Mundial.

Interpreto aqui, dessa forma, que um “Shiatsu tradicional”, caso exista, deve ser visto como o mais desconectado possível com as modernizações introduzidas a partir especialmente da segunda metade do século XX; e nesse período, especialmente entre o final dos anos 70 e primórdios dos anos 80 por parte de mestres, pesquisadores e praticantes contemporâneos.

Quem estaria hoje com esse grau de desconexão para com o Shiatsu moderno? É muito remota a possibilidade! Parece que a única maneira seria aprender Shiatsu com um japonês que aprendeu com o avô, que teria aprendido com seu pai… Algo mais próximo da tradição. Das antigas escolas, muito da essência tradicional permanece, em contraste com as modernizações.

Sob essa perspectiva, dificilmente poderemos chamar qualquer prática atual de “Shiatsu tradicional”, pois seria falar algo que de fato já não existe; No máximo, haveria uma “alma tradicional” acontecendo dentro do moderno: Bebem as escolas do saber antigo, sem porém estagnarem-se em seu constante processo evolutivo.

* * *

* Arnaldo V. Carvalho é naturopata e praticante de Shiatsu há 17 anos. É autor dos livros “Shiatsu Emocional” e “O Tao do Corpo”, e coordena o Shiatsu do Centro Brasileiro de Acupuntura de Medicina Chinesa.

  1. Tamai Tempaku talvez esteja transliterado errado – essa especulação é de Carola Beresford-Crooke, presidente da Sociedade Britânica de Shiatsu, autora de diversos livros sobre a técnica. Na Internet encontra-se uma ou outra variação de seu nome para Tamai Tempeki. Ainda estou em busca do livro original em japonês, e Carola ficou ainda de verificar para mim a resposta, que ela acredita que Paul Lundgren, também famoso autor de Shiatsu deva ter.
  2. An-ma é a antiga técnica de massagem que inclui uma série de movimentos. Possui dezenas de variáveis e teria sido levada ao Japão pelo continentais – falam de chineses, mas não havia na época a noção de país como a que temos hoje – pelo menos uma milênio antes. Segundo as leis japonesas atuais, a formação de Shiatsu precisa incluir o An-ma, ou seja, você não pode se formar somente em Shiatsu, mas sempre em An-ma e shiatsu.