Shiatsu e Cultura Japonesa

Você sabe o que é um Tori?

Image result for spirit of japan

Os Toris, no Japão são portais místicos, que comunicam o mundo presente, visível, mortal, com o dos Kamis (leia nosso artigo sobre Shiatsu e a cultura espiritual japonesa aqui, aqui e aqui). Um portal de transcendência, entre o puro e sagrado e nossa vida terrena.

Há milhares marcando a presença de locais sagrados, tanto para xintoístas como para zen-budistas.

Você consegue perceber o processo transformador do Shiatsu? Ele também é um Tori.

(Arnaldo V. Carvalho)

 

 

Anúncios
Artigos e afins

A prática do Shiatsu é para todos?

Praticar o Shiatsu: Uma reflexão sobre acessibilidade à prática

Arnaldo V. Carvalho*

Ainda me lembro com pesar de um episódio que vivi como aluno em um curso de Shiatsu. Era um excelente curso, desses que influenciam a vida. Porém, no primeiro dia, uma aluna, quando do momento da prática (executada no chão) revelou ter problemas no joelho. O professor foi taxativo: “quem tem problemas no joelho não pode fazer Shiatsu”. Pouco tempo depois, um mestre de origem chinesa, já bem idoso, que me disse que já não podia mais trabalhar porque “não tinha mais força”.

Anos depois, quando comecei a dar minhas aulas, prometi para mim mesmo que criaria condições alternativas para que qualquer pessoa pudesse se beneficiar do Shiatsu, enquanto praticante, performando sessões, no chão ou na maca. De lá para cá – o primeiro curso foi em 1999 se não me engano, vivi uma série de situações que me impuseram todo tipo de desafio.

Me lembro com carinho de um caso em particular. Uma senhora japonesa, já de idade, com prótese total de joelho. Criamos posições alternativas e o uso temporário de um bastão de equilíbrio em determinados momentos. Esse bastão tem sido usado por muitos alunos.

De lá para cá, criamos todo tipo de adaptações. Pessoas com todo tipo de limitações físicas, transtornos vasculares, esclerose múltipla, deficiências físicas e sensoriais variadas, etc. já experimentaram praticar Shiatsu comigo – e aprender a fazer. Para cada limitação, há uma solução.Não é que os obstáculos tornem as coisas tão fáceis: compreendo que é saudável que o corpo se mexa na medida do possível, que haja esforço durante o processo. Esse esforço corporal, é na verdade a inclusão do mesmo no processo.

É importante premissa que o corpo e a mente participem do processo de forma integrada, dentro do possível, e que o portador da limitação se esforce. Faz parte de sua própria terapia interna se desafiar.

Dicas

– Professores de Shiatsu devem pedir para, os candidatos a seus cursos se posicionarem quanto às suas limitações. É preciso diálogo para que ambos aceitem as limitações impostas. Da parte do professor, criatividade, conhecimento biomecânico, e senso de desafio são necessário. Da parte do aluno, a vontade de aprender e se superar. Não se deve iniciar um curso sem esse acordo prévio, e não há nada de mal em uma das partes (professor ou aluno) repensar sua participação caso sinta que não tem condições de lidar com a limitação.

– O Shiatsu é uma prática preferencialmente executada no chão, e pode, caso se demore muito, cansar as articulações, especialmente se o praticante não atuar com boa postura. Caso a prática se torne constante e seja aplicada corretamente, será observado que as articulações se toram  mais fortes, o corpo mais flexível e as does iniciais desaparecem.

– Em alguns casos, pode-se utilizar a maca, que terá seu ônus (consulte nosso artigo sobre o tema), mas as vezes inevitável. O revezamento entre as duas formas de trabalho é igualmente possível.

– O Shiatsu que utiliza força cansará o corpo e desgastará articulações. O que fazemos é o uso dos contrapesos e alavancas corporais. Qualquer pessoa com 18Kg (o peso médio de uma criança de 5 anos – que aliás já consegue fazer um ótimo Shiatsu) pode utilizar o próprio peso corporal para praticar, ao invés de usar a força.

– Sedentários de todas as idades poderão sentir dificuldade no início, mas com a prática, se tornarão mais flexíveis, fortes e harmoniosos. Se as posturas e movimentos utilizados forem corretos, é questão de insistir.

Perspectivas

Em suma, para praticar o Shiatsu não é preciso ser atlético ou jovem, nem flexível. Também não importa se a pessoa é cardíaca, diabética, ou esteja em recuperação. Ao contrário, só vai fazer bem a ela (a menos que haja orientação médica restringindo expressamente qualquer forma de movimentação física, ainda que suave).

Se há exceções ao poder fazer Shiatsu? Talvez na distância ou em ser consciente. Em minha experiência, ainda está para vir o desafio do praticante tetraplégico.

Meu próximo passo será agora o de formar a primeira turma de praticantes cadeirantes. Como será isso? Conto em breve.

* * *

* Arnaldo V. Carvalho, praticante de Shiatsu desde 1993, autor do livro Shiatsu Emocional, estudante de pedagogia, mediador de inclusão em sua graduação.

 

 

Artigos e afins

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 7

Já tratamos aqui em nossa série da força da ancestralidade, do lugar que temos em uma linha humana de infinitos desdobramentos, da importância da conexão com o passado e como isso afeta inclusive nosso futuro. Mas há um aspecto na descontinuidade que apenas diz respeito à nossa própria condição de ser vivo. Assim, se respeitar solenemente a morte é algo cultuado na tradição japonesa, reverenciar a vida, e a intensidade do aqui-agora, é igualmente fundamental.

https://i1.wp.com/www.infoescola.com/wp-content/uploads/2008/03/relampago2-450x300.jpg

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 7

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

A vida é um relâmpago”

 

Há mais de três séculos, no Japão, surgiu o gênero literário conhecido como Haicai – poemas muito curtos e com imenso peso existencial. Matsuo Bashô (1644-1694), reconhecido como o primeiro haicaísta, proclamou em um de seus poemas: “a vida é um relâmpago”.

 

Para além da condição efêmera da existência, Basho propõe luz, intensidade, força no ato de viver. Determina que sejamos, profusamente; avalia que, ainda na maior das pequenezes, por mais insignificante que seja nossa vida perante o Universo, ainda assim nosso momento, nosso brilho, nos pertence.

 

Assim é o Shiatsu. Uma sessão de prática dura entre uma e duas horas apenas. A força do encontro, porém, pode perdurar por uma existência.

 

Ter no coração a natureza perene, dar-se conta da eterna dança de morte e vida, e interagir suavemente com seus movimentos é traduzido pela interação dinâmica que o Shiatsu propõe ao longo de sua prática. O praticante dança a vida-morte ao pressionar ritmicamente, posicionando e des-posicionando seus dedos, e seu corpo, ora no sentido de ir na direção do outro, ora no seu momento de recolhimento. É assim que ele propõe mudanças internas ao Outro, que nada mais é que a morte do velho, o surgimento do novo. Quando isso ocorre, ele mesmo está se modificando. O Relâmpago-dedo é atraído para o mar do recolhimento-corpo e ali a vida se faz por um instante. Quem olha com olhos puros já não pode dissociar mar e relâmpago.

 

Palavras finais – Há um fazer essencial a ser resgatado

 

Dediquei meu tempo a escrever paralelos sobre o fazer Shiatsu e uma série de costumes atrelados à elevação humana no Japão, por acreditar que os mais novos na terapia podem abraçar uma outra forma de compreender e praticar a terapia, e nadar contra a corrente:

 

Em tempos de mecanização da sociedade – que atinge o âmbito terapêutico -, buscar nas tradições espirituais do Oriente a conexão para a prática em dimensões mais elevadas do Shiatsu pode parecer estranho a quem talvez tenha feito apenas um curso técnico ou a quem tenha “recebido um shiatsu relaxante”, somente.

 

Tal resgate é critério de excelência e distinção entre os praticantes.

 

Impregnar o ato terapêutico do Shiatsu com a essência da cultura espiritual que o abrigou e participou de sua origem é recuperar sua grandeza. Sua busca faz parte do dia a dia do praticante desta terapia.

 

木の実 木へ。。。

Kinomi ki e…

Tradução:O fruto da árvore, volta pra árvore…

Significado: Dá a ideia de que tudo volta pro seu lugar de origem

(Provérbio japonês)

 

***

 

* Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

Sem categoria

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 6

https://i0.wp.com/ventureburn.sndytsvoxozgokstuvcm.netdna-cdn.com/wp-content/uploads/2015/08/Trust-tiger.jpg

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 6

Por Arnaldo V. Carvalho*

A Entrega

– É verdade que um dia o sol esfriará, e tudo o que vive na terra desaparecerá? – pergunta o discípulo ao mestre.

.- É verdade -, responde o mestre. Pensativo, após algum tempo, o discípulo indaga:

– Isso significa que só devemos viver as circunstâncias?

– Sim, só devemos viver as circunstâncias.

(Koan Zen Budista)

No Taoísmo, diz-se que não é preciso fazer nada. Ao mesmo tempo, a ação correta leva a harmonia. O aparente paradoxo desconcerta a mente despreparada: afinal, faz-se ou não faz-se? Este problema é bem incorporado pelo budismo zen, e costuma tomar cena em koans(1) antigos no Japão.

Ainda assim, os debates seculares entre grande mestres em seus tempos demonstra que nem mesmo os iluminados conseguem traduzir em lições genéricas (que cabem para todos) o ponto entre uma coisa e outra, ou o ponto onde ambos são uma coisa só. Para uma sociedade marcada por rigidez e controle, como a japonesa, incorporar o valor taoísta de viver as circunstâncias pode ser um desafio inspirador.

E a nossa? E nossas vidas, nossos corpos? O quanto de controle e rigidez há em nossa cultura, em nossas pessoas? A humanidade aflige-se com a entrega. Aflige-se com a dúvida. Mas querer certezas ilusórias não aplaca as verdadeiras aflições. Para vencer o controle, é preciso desestabilizar a mente e seus confortos com perguntas enigmas, problemas. (Os movimentos do Shiatsu são assim, uma sucessão indefinida de instabilidades, na direção de uma harmonia maior). Assim, nos perguntamos:

Como pode haver Shiatsu na perturbação da mente que não vive as circunstâncias? E como pode havê-lo sem ação?

Viver as circunstâncias envolve entrega. Será a entrega a própria essência da não-ação? E como entregar-se sem confiar?

A confiança gera a entrega, e a entrega gera o não-pensar, e o não pensar gera a entrega, e a confiança canaliza o Ki formado no movimento. Tudo flui para além da mente que representa. A representação é uma ilusão. O processo pode ser, por sua vez, retraduzido como a presença plena no aqui-agora. E no aqui-agora, recupera-se, no Shiatsu, a intuição, a sabedoria interior e o acessa a sabedoria cósmica. Absolve-se assim, o campo do pensar e do verbo, agora engrandecido pela integração com a Essência.

Os não-praticantes de Shiatsu pensam que a pessoa que está deitada a receber as pressões das mãos do outro precisa estar entregue. É verdade. Mas se a entrega daquele que se movimenta ao redor deste não se faz presente, o Shiatsu é impossível. Um entrega-se ao outro, e os movimentos surgem da entrega mútua. Como em uma dança, os praticantes entregam-se, no Um do ato terapêutico, ao próprio Shiatsu.

Não é fácil. Confiar no outro. Deixar-se conduzir pela sabedoria natural que há em si e na relação saudável. O Shiatsu é um exercício de permissão e confiança.

Quando ele finalmente acontece, retornamos ao O-furô(2) primal. A confiança é um útero úmido, morno e levemente salgado, que nos envolve e nos acalanta.

***

  1. Koan 公案 (kōan) é um pequeno conto zen budismo, criado pelos mestres como uma espécie de enigma reflexivo. Na resolução de um koan, pode-se ascender em espírito, e alcançar a “Suprema Compreensão” (outra forma de nominarmos o Satori).

  2. O prefixo “O” na palavra ofuro foi intencionalmente destacado. Em japonês, uma palavra ordinária acrescida de “O” recebe uma atribuição extraordinária. Assim, “furô” (banho, banheira) deixa de ser um local para lavar o corpo, simplesmente e passa a “ofurô”, adquirindo um significado de limpeza interna, da alma, momento de renovação do espírito.

* Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

Leia o ensaio completo:

  • Parte 1: Introdução: Cultura espiritual japonesa e Shiatsu
  • Parte 2: Limpeza Energética
  • Parte 3: Corpo, jardim japonês
  • Parte 4: Toque-Meditação
  • Parte 5: Entre mestres, dinossauros e o vovô
  • Parte 6: Deixar-se conduzir
  • Parte 7: A vida é um relâmpago
  • Parte 8: Conclusão: Há um fazer essencial a ser resgatado

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

Artigos e afins

Shiatsu e Sincronicidades

Shiatsu e sincronicidades

Meu encontro na espiritualidade do Shiatsu com o mestre Saul Goodman

Por Arnaldo V. Carvalho*

Caros leitores amigos, “sem querer” descobri uma sincronicidade tão peculiar que mereceu ser compartilhada com vocês.

No dia 18 de fevereiro minha série de artigos sobre Shiatsu e Espiritualidade começou a ser publicada aqui no site da Escola de Shiatsu.

Dias atrás, pesquisando por uma imagem para uma aula, fui parar no site do Prof. Saul Goodman, conhecido por seu livro “The Book of Shiatsu“. Goodman é um generoso professor, e disponibiliza uma série de artigos, vídeos e dicas no site de sua escola Shin Tai, da Pensilvânia.

Para minha surpresa, a página por onde entrei era do artigo The Spiritual Origin of Shiatsu. O texto dialoga completamente com o meu, e foi publicado… No dia 18 de fevereiro, como o meu!

O artigo de Goodman propõe uma novíssima interpretação para a palavra Shiatsu, sensacional, e alinhada com o que buscamos aqui na Shiem.

Em tradução livre, deixo aqui para vocês o trecho referente, chamado “O Espírito das Palavras”. Através desse fragmento, convido a todos a lerem o artigo original (link seguiu acima), e conhecerem o trabalho de Saul Goodman:

O Espírito das Palavras

O estudo do Kotodama – o espírito do som, palavras e linguagem – ensina que toda a manifestação primeiro existe em vibração. Vibração tranforma-se em som, e então manifesta-se nas várias dimensões físicas e energéticas. Vamos pegar a palavra shiatsu como exemplo. No nível mais denso, ela quer dizer pressão com os dedos ou com o polegar.

Shi significa polegar. Tsu significa pressão.

Nós também podemos olhar outras maneiras com que a vibração (ou espírito) dessas sílabas inspira nossa experiência humana.

shiatsu
Shiatsu

 

Shi também transforma-se em fogo, plasma, astral, coração, consciência, e polegar: No desenvolvimento do ser humano, o polegar apareceu e fez da mão nossa ferramenta mais básica. Simultaneamente, a medida em que o polegar se desenvolvia, o ser humano despontava. Esta consciência ativada pela alta frequência de energia movendo-se através de uma espinha ereta. O homem é também sentiente, ou um ser emocional (astral). O órgão do coração é uma condensação do fogo no corpo, e o plasma é a substância básica da celula (protoplasm) e a qualidade do corpo energético (bio-plasm). Todas essas formas e conexões provêm da vibração do shi, baixando do Infinito aos diferentes planos de realidade.

Tsu significa pressão e também pode indicar “o ciclo da energia eletromagnética: a expressão primitiva da força da vida. Também cria os canais de energia chamados meridianos. Os meridianos mostram-se regendo a Terra, toda a natureza, e também o corpo humano. Diferentes graus de pressão contem força vital ou Ki, e oferece a ela a possibilidade de tornar-se uma multitude de formas orgânicas e inorgânicas.  inorganic and organic forms.

Conectam-se os dois sons com “a” ou “ah”, que emana a vibração da origem ou gênesis.

SHI – A – TSU: Shi e tsu conectados por “a” demonstra as condições singulares com que a vibração se desdobra e cria o humano enquanto ser físico, emocional e espiritual. Outro bom exemplo da palavra espírito é o termo japonês para o tempo (clima) – tenki – que também inclui o com “ki”. Atualmente, a maior parte das pessoas usando esta palavra somente reconhecer o significado superficial do som. Tenki significa o Ki (energia) do Céu. (…)

Goodman, Saul. In: The Spiritual Origin of Shiatsu.

 

Muito bom, não?

Conto um pouco mais sobre a sincronicidade deste encontro na busca por um “Shiatsu com Alma”, em carta endereçada ao próprio Prof. Goodman. Ela está entre os comentários do citado artigo.

Espero que apreciem. Essa semana publicaremos mais um artigo de nossa série.

Aguardamos comentários.

Abraços,

Arnaldo V. Carvalho

Escola de Shiatsu SHIEM

 

Agenda: Cursos Eventos etc., Nossos cursos, Notícias

Primeira turma do curso Shiatsu Essencial ocorre no primeiro final de semana de abril, no Rio de Janeiro

cropped-shiem_logo2.png

O Rio de Janeiro sediará o primeiro curso introdutório Shiatsu Essencial. Voltado para o ensino da prática do Shiatsu altamente integrada à filosofia oriental, a atividade tem custo bem abaixo da média, e será ministrada pelo Professor Arnaldo V. Carvalho, um veterano na área, que já deu aulas em diversos países e dezenas de cidades de norte a sul do Brasil.

CURSO SHIATSU ESSENCIAL

O que é

É a forma mais profunda de iniciar o contato com o Shiatsu.

Um curso dinâmico e focado na prática, na percepção e interação consciente com a Energia (Ki) e na filosofia oriental que dá base ao Shiatsu.

Pré-requisitos e Público Alvo

Sem pré-requisitos, e ideal para quem quer praticar no âmbito familiar, pretende que o Shiatsu seja uma forma de manutenção pessoal da saúde ou ainda, para profissionais de terapia corporal que queiram reforçar as bases de sua prática.

Objetivos

Levar o aluno a perceber, compreender e interagir sabiamente com a Energia Vital; Fornecer bases para uma prática profunda, segura e consistente de Shiatsu; Integrar a prática à essência filosófica oriental; Fornecer os subsídios para a mente calma e atenta, e introduzir a filosofia oriental.

Conteúdo Programático

  • Shiatsu e a Cultura de busca da tradição Japonesa
  • Prática do Shiatsu: Toque, ergonomia, formas de pressão, sentir e seguir o corpo
  • Respiração e atenção plena
  • Ki (Energia vital; Yin-yang; Circulação de energia pelo corpo)
  • Padrões dolorosos e energia
  • Estratégias de tratamento dinâmicos
  • Autoshiatsu, Do-In e Pontos especiais

Características do curso

-40% de teoria, 60% de prática, poucos intervalos (aproveitamento máximo do tempo de aula).

– Profissionais de Shiatsu e terapias manuais irão revigorar-se com a profundidade teórico-prática em torno de temas simples e com a riqueza das práticas;

– O curso amplia exponencialmente o aproveitamento do Curso Formativo em Shiatsu;

– Os alunos ganham acesso a comunidade SHIEM online;

– Carga horária total: 20 horas

– O participante terá direito a Apostila e Certificado.

ATENÇÃO: O Shiatsu possui exigências físicas baixas ou moderadas relacionadas à posição e movimentação do praticante durante suas práticas. Caso haja alguma limitação física, por favor, consulte-nos antes de se inscrever, para que busquemos o diálogo e a melhor forma de adaptação! escoladeshiatsu@outlook.com

Professor

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/bf/Shiatsu_4.jpg

Arnaldo V. Carvalho, dirigente da Escola de Shiatsu, mais de vinte anos de formação e prática, mais de quinze anos de docência, autor do livro Shiatsu Emocional, membro-fundador da Associação Brasileira de Shiatsu.

Datas e Horários

01 e 02 de Abril, de 9 às 18H

Local do curso

Casa Psy: Rua Guilhermina Guinle, 114, Botafogo, Rio de Janeiro, RJ

Contato para informações e inscrições

escoladeshiatsu@outlook.com

Investimento

R$250,00 parcelável em até 2x R$125,00.

Descontos
Formados em Shiatsu com comprovação: Bolsa 50%; Ex-Alunos Shiem 50%; Membros ABRASHI (Associação Brasileira de Shiatsu) 50%. Desconto não cumulativo.

shiem_logo4

Artigos e afins

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 5

Na parte anterior, aprendemos sobre a importância de ultrapassar o Eu, e como isso pode ser alcançado através do Shiatsu como atividade meditativa. Transpessoal(1), o Shiatsu revela, através de sua peculiar forma de contato, a história da vida na terra, da humanidade, do ser aqui-agora enquanto desdobramento de tudo o que existiu até hoje, passado de tudo o que existirá. No que se refere a seu papel no tempo-espaço, não é possível desconectá-lo a ideia de ancestralidade, profundamente arraigada na cultura espiritual do Japão.

https://shiatsuemocional.files.wordpress.com/2017/03/9e859-2006_0519akameguchi0007.jpg
Botsudan com seus Ihais em destaque

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 5

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Entre mestres, dinossauros e avós

A família Kakeya, de onde descende um de meus sobrinhos, possui mais de três dezenas de plaquinhas (ihai) com dados sobre as diferentes gerações familiares que passaram pela Terra. São mais de mil anos de ancestralidade observada através dessas placas, cuidadosamente abrigadas em um Botsudan (altar familiar) (2), ainda no Japão. Através dos ihai devota-se tempo, respeito, pede-se proteção, e uma parte importante dos propósitos da vida são finalmente compreendidos. Na espiritualidade japonesa, todos estão conectados às suas famílias formando uma rede de mútuo débito, criando-se um senso de servir a essa linha infinita de desdobramentos que se formou. A contrapartida a essa conexão é garantir o acesso aos talentos e capacidades (virtudes) dessa linhagem, lapidadas ao longo das gerações e oferecidas através do DNA. Por isso, aos descendentes, tal percepção não soa como obrigação, mas como um direito. Como disse o conhecido monge zen-budista (3) Thich Nhat Hanh, trata-se de uma “prática de olhar para o fundo de nós próprios para reconhecer a presença dos nossos antepassados em nós, em cada uma das nossas células”. A afirmação oferece um sentido de continuidade do outro, ou melhor, continuidade de uma linha infinita de existência de um no outro.

 

Esse é o mais complexo dos temas de nossa série, visto que a visibilidade das ações do Shiatsu calcadas nos valores ressaltados pelas tradições da cultura espiritual japonesa, até aqui, eram bastante claras, enquanto que, ao longo da prática terapêutica, o contato com mestres, a ancestralidade, a história da Vida na Terra aparenta ser imperceptível. Porém, assim como não se pode compreender a espiritualidade japonesa sem a noção de tais relacionamentos metafísicos, também não é possível perceber de onde surge a profunda sabedoria nos atos, movimentos, palavras e silêncios no momento em que se faz a prática do Shiatsu.

 

Diferente dos tópicos sobre os quais nos debruçamos nos artigos passados, a conexão com a ancestralidade não se faz diretamente: a contemplação, a meditação, a busca pelo essencial e puro são os instrumentos de evocação de tal religare. Assim, ao se manter o ritmo do Shiatsu, atinge-se o Shiatsu Meditativo, e une-se à Fonte. Nos portais do Puro, aguardam nossos entes queridos, que tendo ascensionado (budismo) ou retornado à natureza essencial (xintoísmo), nos servem de guias para a jornada de equilíbrio através do corpo.

 

Pressionar e remover, pressionar e remover, pressionar e remover…

Inspirar e expirar, inspirar e expirar, inspirar e expirar…

Expandir e recolher… Expandir e recolher… Expandir e recolher…

 

Costumo dizer aos meus alunos nipo-descendentes que para eles é mais fácil… Afinal, não precisam aprender Shiatsu, é só “lembrar”. O que lhes peço é que (re)estabeleçam essa ligação. Os que conseguem parecem automaticamente passar a “saber” Shiatsu como praticantes de longa data. Esse fenômeno é testemunhado por mim, por outros alunos, e percebido pelos próprios muitas vezes. “Lembrar” é refazer o laço com a rede ancestral, e com ela, a sabedoria acumulada por gerações estará operando durante o Shiatsu de quem o evoca.

 

Além do Eu

https://larvalsubjects.files.wordpress.com/2009/04/milkyway.jpg?w=300

Se voltarmos mais e mais no tempo, inevitavelmente transpassaremos os ciclos evolutivos e alcançaremos o ancestral comum a todos os humanos, e antes ainda,de todas as formas de vida na Terra.

 

Na filogênese do desenvolvimento humano (do embrião à postura bípede), revivemos essa história: como o surgimento da vida do planeta, a célula matriz (ovo) desenvolve-se na mãe em ambiente aquático-salinizado; a embriologia demonstra a formação do corpo passando por uma fase mórfica assemelhada a girinos e répteis; já no ambiente extra-uterino, o desenvolvimento motor sugere associação com a evolução animal, obedecendo a ordem de aparecimento dos diferentes esquemas locomotores (rastejante > quadrúpede > bípede).

 

Desse modo, a linha ancestral passa por toda a história da Vida, e nos convida à compreensão de nosso potencial cósmico, implicado no relacionamento inter-espécies, do Tempo e do Espaço, e enfim, na experiência além do Eu.

 

On

https://i1.wp.com/fudoshinkan.eu/wp-content/uploads/2014/10/Tenpeki-Tama%C3%AF.jpgA palavra “on” pode ser traduzida como “gratidão incomensurável” no Japonês. Essa infinitude se estende para além da linhagem familiar, e alcança os mestres de todos os saberes aos quais nos desenvolvemos ao longo da vida. Por isso, a crença zen Budista crê em uma “segunda ancestralidade”: uma espécie de conexão voluntária a um continuum energético específico. No caso deles, creem no Caminho do Buda, do qual todos os que ascenderam na terra fazem parte. Egrégoras específicas, portanto, podem ser acessadas através do mesmo sentido de afinidade / familiaridade com o qual nossa mente/espírito se enleia. Por exemplo, se estou alinhado com o Shiatsu, todos os que também estiveram no passado tornam-se meus ancestrais nessa corrente. Assim, e por isso mesmo, devemos prestar reverência a nossos mestres (nossos ancestrais recentes), aos propagadores do Shiatsu, e seus pioneiros.

 

Talvez por isso, não seja raro ouvirmos relatos de praticantes de Shiatsu – e eu mesmo já vivi essa experiência em consultório algumas vezes, de um cliente que em sua sessão comentou: “vi um chinês ali no canto da sala”, ou “fechei meus olhos e senti que era visto por orientais que me acalmavam, parecia que a medida que recebia o Shiatsu outras mãos trabalhavam em mim”. Fantasia ou percepção metafísica?

 

Sugerimos aqui ao praticante que, antes de iniciar um dia de prática, procure estabelecer tal conexão. Respirar e lembrar de cada um dos antepassados e mestres que reconhecidamente foram importantes para si e para a Egrégora do Shiatsu. O resgate à memória empodera o presente, renovando laços com a sabedoria acumulada por gerações. Na reverência à ancestralidade, pai, mãe e mestres são o Cosmos, são Deus.

 

***

NOTAS:

 

  1. Transpessoal é um termo usado na filosofia e na psicologia, para descrever experiências e percepções de mundo que ultrapassam a individualidade.
  2. Altares familiares são muito comuns nas casas japonesas (60% nas metrópoles e mais de 80% nas zonas rurais. Os do xintoísmo são chamados kamidana e os do budismo, botsudan. A função em ambas as tradições, entretanto, é basicamente a mesma
  3. O Zen é o budismo nascido no Japão. A história conta que deriva do C’han, corrente do budismo que recebeu na China as influências do Taoísmo. No Japão, sofre influências do Xintoísmo e assume sua forma final, Zen. Há muitas correntes de Zen Budismo, em todo o mundo, sendo as principais a Soto e a Rinzai.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

Nossos cursos

Shiatsu Essencial – Novo curso resgata a sabedoria oriental na base do Shiatsu

Tamai Tempeki, pai do Shiatsu (foto de 1915)

Como anunciamos no mês passado, nosso programa formativo evoluiu, e o curso Shiatsu Essencial é um de seus principais destaques. Projetado para ser um curso de baixo custo mas de alta qualidade, ele traz o espírito do Shiatsu e prepara os que desejarem para alçar vôo em alto estilo em nossa já reputada formação.

Conheça o descritivo de nosso novo curso:

CURSO SHIATSU ESSENCIAL

O que é

É a forma mais profunda de iniciar o contato com o Shiatsu.

Um curso dinâmico e focado na prática, na percepção e interação consciente com a Energia (Ki) e na filosofia oriental que dá base ao Shiatsu.

Pré-requisitos e Público Alvo

Sem pré-requisitos, e ideal para quem quer praticar no âmbito familiar, pretende que o Shiatsu seja uma forma de manutenção pessoal da saúde ou ainda, para profissionais de terapia corporal que queiram reforçar as bases de sua prática.

Objetivos

Levar o aluno a perceber, compreender e interagir sabiamente com a Energia Vital; Fornecer bases para uma prática profunda, segura e consistente de Shiatsu; Integrar a prática à essência filosófica oriental; Fornecer os subsídios para a mente calma e atenta, e introduzir a filosofia oriental.

Conteúdo Programático

  • Shiatsu e a Cultura de busca da tradição Japonesa
  • Prática do Shiatsu: Toque, ergonomia, formas de pressão, sentir e seguir o corpo
  • Respiração e atenção plena
  • Ki (Energia vital; Yin-yang; Circulação de energia pelo corpo)
  • Padrões dolorosos e energia
  • Estratégias de tratamento dinâmicos
  • Autoshiatsu, Do-In e Pontos especiais

Características do curso

-40% de teoria, 60% de prática, poucos intervalos (aproveitamento máximo do tempo de aula).

– Profissionais de Shiatsu e terapias manuais irão revigorar-se com a profundidade teórico-prática em torno de temas simples e com a riqueza das práticas;

– O curso amplia exponencialmente o aproveitamento do Curso Formativo em Shiatsu;

– Os alunos ganham acesso a comunidade SHIEM online;

– Carga horária total: 20 horas

– O participante terá direito a Apostila e Certificado.

ATENÇÃO: O Shiatsu possui exigências físicas baixas ou moderadas relacionadas à posição e movimentação do praticante durante suas práticas. Caso haja alguma limitação física, por favor, consulte-nos antes de se inscrever, para que busquemos o diálogo e a melhor forma de adaptação! escoladeshiatsu@outlook.com

Próxima turma: Consulte nossa AGENDA

CONHEÇA NOSSAS ETAPAS FORMATIVAS E O PROGRAMA COMPLETO

Artigos e afins

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 4

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 4

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Image result for transcendental connection

A arte contemplativa de que tratamos na Parte 3 deste artigo é facilmente associada à  meditação. Quando praticado como meditação, o Shiatsu constrói uma relação com o Todo. Vejamos como este movimento de conexão espiritual ocorre na prática.

Toque-Meditação

 

Meditar: Mediar, criar um meio, uma interface entre eu e o Absoluto. A meditação(1) é o religare(2) que as diferentes correntes espirituais do oriente utilizam, e o principal instrumento de desidentificação do Eu individual.

 

A meditação é um movimento na direção do Não Eu,  o que é o mesmo que dizer Eu-Todo, ou ainda Todo-Eu. Da mesma forma, o Shiatsu é uma prática que exercita o não-Eu. O praticante gradualmente torna-se Eu-outro, Outro-eu, e depois Nós-Todo, Todo-nós, e por fim Todo. O que é isso?

 

  • Eu-outro é quando o íntimo do praticante percebe o que está ocorrendo na energia do outro.
  • Outro-eu é quando o íntimo do praticante percebe que, para o reequilíbrio do fluxo de energia do outro, me conecto a ele, me torno parte dele.
  • Nós-Todo é quando o íntimo do praticante percebe que uma energia única surge de todo encontro, a energia do nós, e ela tem um poder de conexão-acesso-percepção do todo em uma profundidade mais de duas vezes a individual.
  • Todo-Nós é quando o íntimo do praticante já não se identifica mais como eu. Pulsa no todo e é parte da Corrente Cósmica da Vida de uma forma não racional. A elevação espiritual ocorrida neste estado é profunda.
  • Todo é o que simplesmente é. Presente. Existência. O que realmente é. Como diziam os antigos vedas indianos: “Tu és Aquilo; tudo isto é Aquilo; E só Aquilo É”.

O processo de meditar pelo Shiatsu é, desse modo, singular e belíssimo, pois baseia-se na impossibilidade do religare na ausência de empatia, da capacidade de se conectar com o outro para que então possa vir o Todo.

.

Image result for transcendent connection

As muitas meditações estão no Shiatsu

 

Como o leitor deve saber, há muitas formas de meditar, que incluem buscar uma posição estática (sentado, deitado, em posição de lótus, voltado para uma parede, etc.) ou mesmo caminhar, movimentar o corpo livre, deixar-se levar por algum som (em geral monótono e constante).

 

Todas as “técnicas” são, na verdade, artifícios para que se atinja o mesmo resultado: O estado meditativo. Quando comparamos e analisamos as diferentes correntes de meditação, verificamos alguns aspectos ocorrem de forma mais frequente, e outros menos.

 

Por exemplo: se analisarmos as diferentes técnicas versus a posição corporal adotada, veremos que a meditação ocorre majoritariamente com a pessoa sentada. Isso ocorre por se tratar de uma posição confortável, repousante (diferente de em pé), mas não associada ao sono (deitado). O Shiatsu é feito com base no Seiza, a posição de joelhos mais adotada no oriente. Além disso, a maior parte das técnicas de meditação é realizada com os olhos fechados ou semicerrados. Essa é a postura ocular corrente na maior parte do trabalho de Shiatsu, quando este é executado com profundidade. O ritmo do toque, em Shiatsu, é outro elemento valioso no Shiatsu-Meditação, e é tão importante quanto forma de pressionar o corpo do interagente yin(3). A cadência do trabalho corporal, sua integração com as respirações dos envolvidos conduz ao aqui-agora e permite a imersão meditativa. O movimento do interagente yang é pendulante como o embalar de uma criança, ritmo que facilita a redução da frequência cerebral (o estado meditativo é verificado em frequências muito baixas).

 

Finalmente, damos conta de que quase todas os métodos meditativos passam por uma alteração do modo de respirar. A respiração do praticante de Shiatsu é profunda e, dependendo do estilo, recorre-se a um número de formas diferentes de inspirar e expirar.

 

Meditar através do toque é a “especialidade” do Shiatsu, e um de seus trunfos no conceber equilíbrio aos seus praticantes.

https://i1.wp.com/www.inimail.be/mailing-files/20110421.AlainArt/Alain5.jpg

***

Notas:

  1. Há diversas definições de meditação, que incluem refletir, esvaziar a mente, não pensar, conectar-se com o Cosmos. Para fins de compreensão deste texto, considere as diferentes possibilidades, pois todas são válidas.
  2. Religare é a palavra latina que dá origem à religião, e refere-se justamente a conectar novamente (re-ligar) com o Criador, Deus, Universo.
  3. Uma das maneiras de nos referirmos aos dois praticantes é como “interagente-yang” (aquele que se movimenta e pressiona com os dedos) e “interagente-yin” (aquele que entrega-se ao movimento e às pressões). Normalmente, o vocabulário utilizado passa por “terapeuta-cliente” ou “doador-receptor”, ou ainda “praticante-receptor”. Há muito vamos propagando a ideia de que o Shiatsu estabelece uma relação onde os dois são capazes de oferecer e receber, além de desenvolver um “Totem”: Uma terceira carga energética que nutre e é nutrida pelas cargas individuais.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

Artigos e afins

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 3

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 3

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Ressaltamos, na parte anterior, sobre a importância da limpeza e purificação, na sociedade japonesa, em continuidade à ideia de que, quando o Shiatsu se dissocia dos costumes e tradições que regem sua cultura originária, ele perde parte de seu potencial. A pureza é o fator fundamental no aproximar o ser humano de sua própria essência e assim torna-se ente cósmico da existência (Kami). Agora, passemos por uma outra tradição igualmente valiosa – a do Jardim Japonês, igualmente parte de uma cultura tanto espiritual como cotidiana naquele país.

Corpo, Jardim Japonês

1

 

Shiatsu é cuidar e contemplar o jardim da Vida. Em cada indivíduo, no corpo-mente de cada um, a vida pulsa, o jardim floresce e se renova diariamente. A tradição japonesa de se planejar, construir e usufruir de jardins com rara beleza oriunda da combinação de elementos naturais e humanos nos ensina sobre a natureza do próprio Shiatsu.

 

O Jardim Japonês (日本庭園 nihon teien) busca ser um reflexo, uma expressão de quem o criou e o cuida, e ao mesmo tempo, tenta se fazer refletir no interior de quem o observa. Seu sentido se produz na conexão do exterior (ambiente, pessoas) com o interior (mente, energia), e por isso, ao observá-los podemos sentir sinestesicamente que há um propósito maior que apenas uma beleza estética.

 

Locais assim, criados para representar a Perfeição Cósmica da Vida e da Natureza, fazem parte do imaginário japonês desde a antiguidade. Jardins míticos e montanhas dotadas de rara beleza entre os elementos de sua paisagem são citados nas mais antigas poesias no país(1).

Image result for nihon teien

Suas remotas origens datam dos primeiros séculos, quando já se indicava a percepção milenar de que o Sagrado habita onde a harmonia se faz. Desse modo, os primeiros jardins eram locais naturais de privilegiada beleza, santuários bem cuidados pelos habitantes da Ilha Maior do Japão (Honshu). Por alguns séculos, foi assim, até que no período Asuka (por volta do século V), com a influência do Taoísmo e a chegada do budismo como fenômeno religioso, cultural e tecnológico, é que os jardins foram tornando-se alvo de planejamento e miniatura de paisagens imaginárias, com seus diferentes estilos tomando a forma como as que conhecemos até hoje.

 

Organicismo

pa_body_s

 

Observar a sociedade, o cosmos, a vida e estruturas humanas organizadas como um corpo vivo é também uma maneira de abstração e compreensão observável das diferentes culturas, através do tempo. Pensar no jardim como representação do corpo, seguindo ideias organicistas nos parece reflexão inevitável, pois nos ajuda a fazer dialogar o Shiatsu – cuja prática está calcada no equilíbrio do todo através do corpo – e a ideia de jardim, com seus diversos elementos que precisam encontrar uma unidade harmônica.

 

Assim como cada órgão ocupa um espaço e uma função no corpo, devendo trabalhar em harmonia pelo todo, os diferentes elementos presentes no jardim japonês também o fazem, criando uma unidade essencial. Pontes, lanternas, lagos, plantas, rochas, peixes, cada um tem um símbolo e um completa o outro. Símbolos da vida estão todos lá, elemento por elemento, interagindo entre si.

 

As rochas no jardim japonês, por exemplo, são repletos de significado, que variam segundo tamanho, posição, natureza e forma. Frequentemente, por exemplo, são agrupadas em somas auspiciosas: duas, três, cinco ou sete, embora; contudo, pedras colocadas individualmente exibem a representação da espontaneidade.  A combinação das rochas com a água representa o yin e o yang, e por falar nela, a direção de seu fluxo é muito importante. Se flui do leste para o oeste eliminará o mal, e do norte para o sul representa a atração mútua de yin-yang e portanto atrai boa sorte. Pontes simbolizam a possibilidade de continuidade de um única caminho através do relacionamento de duas partes antes separadas. Em jardins de areia, as estrias feitas com ancinho representam correntes de Ki (energia vital). Plantas com diferentes ciclos vitais são colocadas de forma a transparecerem as 4 estações. O ritmo da vida e os ciclos. Lanternas chamam a atenção para um caminho ou nicho específico.

 

O que serão nossas rochas e águas internas? Como podemos perceber lanternas e pontes no corpo na comunicação não verbal de tocar e ser tocado no Shiatsu? Fica o convite para a meditação em torno do tema.

 

Metáfora Universal

 

Jardim como representação de harmonia não é exclusividade oriental. Na cultura-judaico cristã, o paraíso é representado como um “jardim perfeito”, e a punição divina pelo pecado é justamente a expulsão de tal paraíso. Não havendo o conceito de “humano pecador” na cultura original japonesa(2), a busca pelo estado edênico é mais uma maneira de reconhecer o interno no externo e vice-versa.

 

Para além de culturas, a relação do Homo sapiens com a estética e sua representação interior de harmonia natural é aparentemente intrínseca a condição humana.

 

O manejo do jardim, suas consequências, seu propósito são metáforas permanentes para as atitudes humanas, e estão bem representadas no filme “Muito além do Jardim”.

 

Quando o Shiatsu se reencontra com a Unidade na representação do Jardim, portanto, alinha-se novamente com as antigas tradições que compõem a cultura japonesa, e mais profundamente, com o sentido de humanidade que habita a cada um para além dos povos.

 

Arte de cuidar

 

Caso o jardim interior esteja bem cuidado, ele permanece em equilíbrio, a contemplação se torna fluída e a mente é alimentada pelo sentido simples de cuidar para viver. Chegamos, pois, ao âmago da experiência de ser terapeuta.

 

Jardins Japoneses não são belos sem esforço. O equilíbrio não se faz somente esperando cair do céu. Um paradoxo do pensamento oriental é uma das máximas do taoísmo: a abundância vem se você estiver no lugar certo, na ação certa. Assim ela vem, e sem esforço. Desavisados têm negligenciado a ação certa e passaram a imaginar que o sucesso não requer esforço, apenas estar no “lugar certo”. A metáfora do jardim ensina que o lugar certo é o que você faz dar certo. Planejar o jardim da Vida, o espaço que ele ocupa, cuidar para que ele esteja sempre em harmonia, é tarefa diária. Shiatsu, principalmente sua base tradicional, é atividade diária.

 

Todos os dias se removem as daninhas. Todos os dias removemos negatividade de nossas mentes. Todos os dias se renovam as águas. Todos os dias nos alimentamos bem e respiramos bem, renovando o sangue. Todos os dias se protege o que for delicado dos fortes ventos. Todos dias as nossas emoções mais sutis são protegidas. Todos os dias se verificam os musgos das rochas. Todos os dias nos alongamos para a saúde dos ossos, de nossa estrutura. E tudo isso se faz com contato. Toque. Contato. Toque. Shiatsu.

Image result for caring japanese garden

Arte de contemplar

 

O hanami (que quer dizer “ver as flores” é a semana de contemplação das Sakuras – flores de cerejeira. No Japão, na época do hanami há um grande feriado nacional. As pessoas são liberadas para estenderem esteiras nos gramados de parques, jardins e quintais, e simplesmente apreciarem. Todos querem fazer contato com a natureza, sua delicadeza, perfeição, impermanência, e assim reverenciarem o Estar Vivo.

 

Image result for mokiti okada satoryA Contemplação é, para a cultura japonesa, motivo não só de relaxamento, mas de elevação espiritual. Mokiti Okada(3), fundador da Igreja Messiânica, ao contemplar a evolução de sua pipa no céu alcança o Satori(4) e se ilumina. Os exemplos da iluminação pela contemplação são inúmeros e estão presentes das mais diferentes religiões do Japão.

 

A atitude  do Shiatsu mais uma vez é comparável com um passeio de contemplação por um jardim japonês. Esse jardim-corpo é motivo de cuidado e reverência, regozijo e conexão.  

 

Receber Shiatsu é poder contemplar o próprio jardim interior, e a ação do tempo sobre ele. O terapeuta é sol e chuva, dia e noite, e o praticante, observador de si mesmo, paisagem onde a Vida acontece. E o que faz parte do ato da contemplação? O silêncio. O Shiatsu precisa do silêncio. Não estamos nos referindo a não falar. É preciso ir além. Os praticantes de Shiatsu precisam entender que entre uma pressão e outra sobre o corpo de seus atendidos, há um silêncio. Uma pausa na partitura, que dá sentido à música do Contato. Isso é o intervalo da contemplação.

Image result for contemplating japanese garden

O terapeuta, ao mesmo tempo contemplador desse jardim sagrado, é também um jardineiro que busca ser parte da própria paisagem, busca ser a paisagem com que está lidando. A harmonia da paisagem será reflexo do Eu interno e vice-versa, pois no ato terapêutico do Shiatsu o Uno encontra sua plenitude.

 

Inclinações humanas: propósitos dos jardins das almas

 

Jardins japoneses possuem estilos variados, como existem as inclinações humanas: Há jardins de areia, destinados à favorecer a meditação através das poucas cores e do simbolismo da impermanência; Há jardins simples destinados a “preparar” o espírito de quem entrará em uma casa concebida para a Cerimônia do Chá; Há jardins-santuários, destinados à reverenciar os Kamis; e há os jardins de passeio, voltados exclusivamente para a contemplação, envolvendo seus observadores com paisagens cuidadosamente compostas.   

Image result for nihon teien

Ao entrar em contato com um jardim, é preciso respeitar sua proposta, entrar nela, ser a proposta. Desse modo, a conduta terapêutica no Shiatsu não pode ultrapassar as inclinações de seu atendido, e o atendido não deve ter expectativas maiores de seu tratamento para além do que ele e terapeuta somados realmente são.

***

NOTAS:

  1. O Man’yōshū, literalmente a “Coleção das Incontáveis Folhas” é a mais antiga compilação de poemas da poesia Japonesa. Datado do século VIII, no apogeu do período nominado “Nara”, ele reproduz poemas de tempos anteriores e do então presente.
  2. Não há conceito de pecado, mas há o conceito de desonra à família, a ancestralidade, e ao imperador – O pesar das consciências por artifícios que estimulam a culpa parece ser uma das mais universais formas de controle social e se apresenta desde tempos imemoriáveis.
  3. Mokiti Okada (岡田茂吉, Okada Mokichi) (23 de dezembro de 1882 — 10 de fevereiro de 1955) foi o fundador da Igreja Messiânica Mundial (世界救世教, Sekai Kyusei Kyo), na qual é conhecido pelo título honorífico de Meishu-sama (明主様, Meishu-Sama, Senhor da Luz).
  4. Satori, o estado de iluminação segundo a tradição japonesa.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/