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O Fazer Terapeutico

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O Fazer Terapeutico

Por Carlos Garcia

Tradução de Hirã Salsa*

Qual o papel do terapeuta? Até onde vai a terapia? Qual o seu limite? Quando deixa de ser terapia e passa a ser código moral?

Essas questões permeiam nossa atividade no Shiatsu, é são preocupações constantes. O equilibrio ético de nossos limites contra nossas limitações pessoais, nossos delirios egóicos de grandeza e suma sabedoria, podem nos tomar de assalto e nos distanciar da missão de apoiar o movimento de integração de nossos clientes.

Para contribuir com essa discussão, deixo aqui tradução livre de minha autoria de trecho do livro Biodanza: El Arte de Danzar la Vida, de Carlos Garcia (pgs 53 à 55).

“Existe algo em comum a todas as abordagens terapêuticas do Séc. XX, apesar das diferenças e divergencias. Algo as unifica: O afã remediador.

A necessidade de dar remédio¹, de colocar ordem onde se havia perdido, é um dos muitos pontos em comum, em diferentes terapias. Claro que, nada há de mais nobre e humano que a soliedariedade compassiva com a dor do semelhante e sua intenção de remedia-lo. O que nos faz humanos, além da codição de animal homem, é a reciprocidade de nos reconhecermos mutuamente. “Sofro porque sofres”, “me alivio porque te alivias”, “gozo porque gozas”.

O que não está de todo claro nestes tempos em que a saúde é mais uma mercadoria que um ato de soliedariedade, são os limites da pretensão remediadora, ou dito de outro modo: qual é o limite e o contexto do terapêutico? Tal pergunta torna-se imprescindível em momentos de extrema proliferação de receitas salvadoras e remedios milagrosos. Porque se concordamos com o exposto anteriormente (que o afã curador pretende colocar ordem onde foi perdida), devemos previamente definir que tipo de ordem é esta, como se perdeu e como restitui-lo.

Considero que os limites e o contexto do ato terapêutico são dados pelo livre fluxo dos instintos e o desejo e as ações que surgem destes, em todas as suas manifestações. Fluxo livre que se faz evidente na expressão do ímpeto vital e a harmonia orgânica.

Os bloqueios deste livre fluir dos instintos e o desejo, os sintomas que evidenciam estes bloqueios, mostram o campo de ação da terapia. Este é o único tratável, o único curável: abrir as amarras para o desenvolvimento do potencial humano, desarmar as estruturas repressivas e culpabilizantes, acabar com as sombras envergonhadas de uma cultura manipuladora da conciência do homem, que se sustenta sempre sobre grossos e sólidos pilares… O pecado e a culpa.

Fora disto, além deste contexto o ato terapêutico perde seu lugar. A vida não é o lugar do ato terapêutico; simplesmente porque a vida é: incurável. O lugar da cura está demarcado pelo transtorno ou pelo bloqueio que impede de viver, mas de nenhum modo uma terapêutica pode ser uma arte de saber-viver, porque haverá transformado o curativo em normativo e a terapia terá caído na moral. Daqui à inquisição há um só passo.”

***

¹Considerare aqui mais o sentido de remediar e menos o de medicação. NT.

** Hirã Salsa é terapeuta corporal, professor de Shiatsu na SHIEM Escola de Shiatsu, praticante assíduo da Biodanza.

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Escher, ilusão e realidade, yin-yang e Shiatsu Emocional

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Escher: ilusão, realidade e Shiatsu Emocional

“Para ler como quem sonha”

Por Adriana Benazzi*

Há alguns anos, fui com minha família à uma exposição que me encantou demais.

Enquanto eu transitava pelas salas, meus olhos iam cada vez se aprofundando mais numa viagem além do tempo e do espaço, um verdadeiro encantamento. O efeito hipnótico era como imagino ser o de um encantador de serpentes.

Meu estado de transe foi tamanho, que tive que ser praticamente arrastada pra fora, pois não conseguia parar de olhar e ao mesmo tempo copiar os textos da curadoria, numa tentativa de levar para mim um pouco desta descoberta. https://i1.wp.com/mathstat.slu.edu/escher/upload/thumb/e/e4/St-peters.jpg/300px-St-peters.jpg

Semanas depois, entendi o que ali me atraía, numa aula de Shiatsu Emocional**. O entendimento do movimento da vida na forma da dualidade relativa do Yin e Yang, da realidade que se expressa no binômio tempo e espaço… tanto a se revelar… meu corpo é um portal. (Adriana)

SELEÇÃO DE TEXTOS DA CURADORIA DA EXPOSIÇÃO DE Mauritis Cornelius ESCHER – 2011

“Chamar atenção para algo que é impossível. É preciso ter certo grau de mistério, mas que seja imediatamente aparente. Eternidade, infinito, natureza, perspectiva, reflexos e ladrilhamento. Espaço é um conceito flexível. Natureza morta com reflexos e panoramas, casas impossíveis. Olhar duas vezes para perceber que o que se vê, não pode ser real. Juntar céu e terra. Às vezes parece-me que ficamos aflitos e possuídos por um desejo pelo impossível. Buscamos o não natural ou o sobrenatural, aquilo que não existe, o milagre.

Pode acontecer que de forma contínua nos tornemos PERCEPTIVOS OU INEXPLICÁVEIS . É o MILAGRE da mesma espacialidade tridimensional na qual andamos ao longo do dia, como em uma esteira.

Este conceito de espacalidade se revela por vezes em raros momentos de lucidez, como algo que tira o fôlego.

NÃO CONHECEMOS O ESPAÇO.

“M.C.Escher (1898-1972) era um gênio da imaginação lúdica e um artesão habilidoso nas artes gráficas, mas a chave para muitos dos seus efeitos surpreendentes é a matemática. Não a matemática dos números e das fórmulas, mas a geometria em todos os seus aspectos. Escher podia imaginar os efeitos fantásticos, mas a geometria era uma ferramenta necessária para capturar esses efeitos.Também tratava da relatividade de forma agradável, obrigando-nos a perguntar:“O que eu percebo é realmente o que parece ser?”. 

* Textos de Pieter Tjabbes, curador  da exposição “O Mundo Mágico de Escher” promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil entre outubro de 2010 e julho de 2011, em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. 

 

* Adriana Benazzi é professora da Escola Shiem. Médica ginecologista, especializada em homeopatia e medicina ayurvédica, completamente apaixonada pela vida, pela humanidade, e por extensão pelo Shiatsu.

** O Curso “Shiatsu Emocional” cresceu, virou livro, virou formação, e deu origem à nossa Escola SHIEM de Shiatsu.

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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 5

Na parte anterior, aprendemos sobre a importância de ultrapassar o Eu, e como isso pode ser alcançado através do Shiatsu como atividade meditativa. Transpessoal(1), o Shiatsu revela, através de sua peculiar forma de contato, a história da vida na terra, da humanidade, do ser aqui-agora enquanto desdobramento de tudo o que existiu até hoje, passado de tudo o que existirá. No que se refere a seu papel no tempo-espaço, não é possível desconectá-lo a ideia de ancestralidade, profundamente arraigada na cultura espiritual do Japão.

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Botsudan com seus Ihais em destaque

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 5

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Entre mestres, dinossauros e avós

A família Kakeya, de onde descende um de meus sobrinhos, possui mais de três dezenas de plaquinhas (ihai) com dados sobre as diferentes gerações familiares que passaram pela Terra. São mais de mil anos de ancestralidade observada através dessas placas, cuidadosamente abrigadas em um Botsudan (altar familiar) (2), ainda no Japão. Através dos ihai devota-se tempo, respeito, pede-se proteção, e uma parte importante dos propósitos da vida são finalmente compreendidos. Na espiritualidade japonesa, todos estão conectados às suas famílias formando uma rede de mútuo débito, criando-se um senso de servir a essa linha infinita de desdobramentos que se formou. A contrapartida a essa conexão é garantir o acesso aos talentos e capacidades (virtudes) dessa linhagem, lapidadas ao longo das gerações e oferecidas através do DNA. Por isso, aos descendentes, tal percepção não soa como obrigação, mas como um direito. Como disse o conhecido monge zen-budista (3) Thich Nhat Hanh, trata-se de uma “prática de olhar para o fundo de nós próprios para reconhecer a presença dos nossos antepassados em nós, em cada uma das nossas células”. A afirmação oferece um sentido de continuidade do outro, ou melhor, continuidade de uma linha infinita de existência de um no outro.

 

Esse é o mais complexo dos temas de nossa série, visto que a visibilidade das ações do Shiatsu calcadas nos valores ressaltados pelas tradições da cultura espiritual japonesa, até aqui, eram bastante claras, enquanto que, ao longo da prática terapêutica, o contato com mestres, a ancestralidade, a história da Vida na Terra aparenta ser imperceptível. Porém, assim como não se pode compreender a espiritualidade japonesa sem a noção de tais relacionamentos metafísicos, também não é possível perceber de onde surge a profunda sabedoria nos atos, movimentos, palavras e silêncios no momento em que se faz a prática do Shiatsu.

 

Diferente dos tópicos sobre os quais nos debruçamos nos artigos passados, a conexão com a ancestralidade não se faz diretamente: a contemplação, a meditação, a busca pelo essencial e puro são os instrumentos de evocação de tal religare. Assim, ao se manter o ritmo do Shiatsu, atinge-se o Shiatsu Meditativo, e une-se à Fonte. Nos portais do Puro, aguardam nossos entes queridos, que tendo ascensionado (budismo) ou retornado à natureza essencial (xintoísmo), nos servem de guias para a jornada de equilíbrio através do corpo.

 

Pressionar e remover, pressionar e remover, pressionar e remover…

Inspirar e expirar, inspirar e expirar, inspirar e expirar…

Expandir e recolher… Expandir e recolher… Expandir e recolher…

 

Costumo dizer aos meus alunos nipo-descendentes que para eles é mais fácil… Afinal, não precisam aprender Shiatsu, é só “lembrar”. O que lhes peço é que (re)estabeleçam essa ligação. Os que conseguem parecem automaticamente passar a “saber” Shiatsu como praticantes de longa data. Esse fenômeno é testemunhado por mim, por outros alunos, e percebido pelos próprios muitas vezes. “Lembrar” é refazer o laço com a rede ancestral, e com ela, a sabedoria acumulada por gerações estará operando durante o Shiatsu de quem o evoca.

 

Além do Eu

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Se voltarmos mais e mais no tempo, inevitavelmente transpassaremos os ciclos evolutivos e alcançaremos o ancestral comum a todos os humanos, e antes ainda,de todas as formas de vida na Terra.

 

Na filogênese do desenvolvimento humano (do embrião à postura bípede), revivemos essa história: como o surgimento da vida do planeta, a célula matriz (ovo) desenvolve-se na mãe em ambiente aquático-salinizado; a embriologia demonstra a formação do corpo passando por uma fase mórfica assemelhada a girinos e répteis; já no ambiente extra-uterino, o desenvolvimento motor sugere associação com a evolução animal, obedecendo a ordem de aparecimento dos diferentes esquemas locomotores (rastejante > quadrúpede > bípede).

 

Desse modo, a linha ancestral passa por toda a história da Vida, e nos convida à compreensão de nosso potencial cósmico, implicado no relacionamento inter-espécies, do Tempo e do Espaço, e enfim, na experiência além do Eu.

 

On

https://i1.wp.com/fudoshinkan.eu/wp-content/uploads/2014/10/Tenpeki-Tama%C3%AF.jpgA palavra “on” pode ser traduzida como “gratidão incomensurável” no Japonês. Essa infinitude se estende para além da linhagem familiar, e alcança os mestres de todos os saberes aos quais nos desenvolvemos ao longo da vida. Por isso, a crença zen Budista crê em uma “segunda ancestralidade”: uma espécie de conexão voluntária a um continuum energético específico. No caso deles, creem no Caminho do Buda, do qual todos os que ascenderam na terra fazem parte. Egrégoras específicas, portanto, podem ser acessadas através do mesmo sentido de afinidade / familiaridade com o qual nossa mente/espírito se enleia. Por exemplo, se estou alinhado com o Shiatsu, todos os que também estiveram no passado tornam-se meus ancestrais nessa corrente. Assim, e por isso mesmo, devemos prestar reverência a nossos mestres (nossos ancestrais recentes), aos propagadores do Shiatsu, e seus pioneiros.

 

Talvez por isso, não seja raro ouvirmos relatos de praticantes de Shiatsu – e eu mesmo já vivi essa experiência em consultório algumas vezes, de um cliente que em sua sessão comentou: “vi um chinês ali no canto da sala”, ou “fechei meus olhos e senti que era visto por orientais que me acalmavam, parecia que a medida que recebia o Shiatsu outras mãos trabalhavam em mim”. Fantasia ou percepção metafísica?

 

Sugerimos aqui ao praticante que, antes de iniciar um dia de prática, procure estabelecer tal conexão. Respirar e lembrar de cada um dos antepassados e mestres que reconhecidamente foram importantes para si e para a Egrégora do Shiatsu. O resgate à memória empodera o presente, renovando laços com a sabedoria acumulada por gerações. Na reverência à ancestralidade, pai, mãe e mestres são o Cosmos, são Deus.

 

***

NOTAS:

 

  1. Transpessoal é um termo usado na filosofia e na psicologia, para descrever experiências e percepções de mundo que ultrapassam a individualidade.
  2. Altares familiares são muito comuns nas casas japonesas (60% nas metrópoles e mais de 80% nas zonas rurais. Os do xintoísmo são chamados kamidana e os do budismo, botsudan. A função em ambas as tradições, entretanto, é basicamente a mesma
  3. O Zen é o budismo nascido no Japão. A história conta que deriva do C’han, corrente do budismo que recebeu na China as influências do Taoísmo. No Japão, sofre influências do Xintoísmo e assume sua forma final, Zen. Há muitas correntes de Zen Budismo, em todo o mundo, sendo as principais a Soto e a Rinzai.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 4

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 4

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

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A arte contemplativa de que tratamos na Parte 3 deste artigo é facilmente associada à  meditação. Quando praticado como meditação, o Shiatsu constrói uma relação com o Todo. Vejamos como este movimento de conexão espiritual ocorre na prática.

Toque-Meditação

 

Meditar: Mediar, criar um meio, uma interface entre eu e o Absoluto. A meditação(1) é o religare(2) que as diferentes correntes espirituais do oriente utilizam, e o principal instrumento de desidentificação do Eu individual.

 

A meditação é um movimento na direção do Não Eu,  o que é o mesmo que dizer Eu-Todo, ou ainda Todo-Eu. Da mesma forma, o Shiatsu é uma prática que exercita o não-Eu. O praticante gradualmente torna-se Eu-outro, Outro-eu, e depois Nós-Todo, Todo-nós, e por fim Todo. O que é isso?

 

  • Eu-outro é quando o íntimo do praticante percebe o que está ocorrendo na energia do outro.
  • Outro-eu é quando o íntimo do praticante percebe que, para o reequilíbrio do fluxo de energia do outro, me conecto a ele, me torno parte dele.
  • Nós-Todo é quando o íntimo do praticante percebe que uma energia única surge de todo encontro, a energia do nós, e ela tem um poder de conexão-acesso-percepção do todo em uma profundidade mais de duas vezes a individual.
  • Todo-Nós é quando o íntimo do praticante já não se identifica mais como eu. Pulsa no todo e é parte da Corrente Cósmica da Vida de uma forma não racional. A elevação espiritual ocorrida neste estado é profunda.
  • Todo é o que simplesmente é. Presente. Existência. O que realmente é. Como diziam os antigos vedas indianos: “Tu és Aquilo; tudo isto é Aquilo; E só Aquilo É”.

O processo de meditar pelo Shiatsu é, desse modo, singular e belíssimo, pois baseia-se na impossibilidade do religare na ausência de empatia, da capacidade de se conectar com o outro para que então possa vir o Todo.

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As muitas meditações estão no Shiatsu

 

Como o leitor deve saber, há muitas formas de meditar, que incluem buscar uma posição estática (sentado, deitado, em posição de lótus, voltado para uma parede, etc.) ou mesmo caminhar, movimentar o corpo livre, deixar-se levar por algum som (em geral monótono e constante).

 

Todas as “técnicas” são, na verdade, artifícios para que se atinja o mesmo resultado: O estado meditativo. Quando comparamos e analisamos as diferentes correntes de meditação, verificamos alguns aspectos ocorrem de forma mais frequente, e outros menos.

 

Por exemplo: se analisarmos as diferentes técnicas versus a posição corporal adotada, veremos que a meditação ocorre majoritariamente com a pessoa sentada. Isso ocorre por se tratar de uma posição confortável, repousante (diferente de em pé), mas não associada ao sono (deitado). O Shiatsu é feito com base no Seiza, a posição de joelhos mais adotada no oriente. Além disso, a maior parte das técnicas de meditação é realizada com os olhos fechados ou semicerrados. Essa é a postura ocular corrente na maior parte do trabalho de Shiatsu, quando este é executado com profundidade. O ritmo do toque, em Shiatsu, é outro elemento valioso no Shiatsu-Meditação, e é tão importante quanto forma de pressionar o corpo do interagente yin(3). A cadência do trabalho corporal, sua integração com as respirações dos envolvidos conduz ao aqui-agora e permite a imersão meditativa. O movimento do interagente yang é pendulante como o embalar de uma criança, ritmo que facilita a redução da frequência cerebral (o estado meditativo é verificado em frequências muito baixas).

 

Finalmente, damos conta de que quase todas os métodos meditativos passam por uma alteração do modo de respirar. A respiração do praticante de Shiatsu é profunda e, dependendo do estilo, recorre-se a um número de formas diferentes de inspirar e expirar.

 

Meditar através do toque é a “especialidade” do Shiatsu, e um de seus trunfos no conceber equilíbrio aos seus praticantes.

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***

Notas:

  1. Há diversas definições de meditação, que incluem refletir, esvaziar a mente, não pensar, conectar-se com o Cosmos. Para fins de compreensão deste texto, considere as diferentes possibilidades, pois todas são válidas.
  2. Religare é a palavra latina que dá origem à religião, e refere-se justamente a conectar novamente (re-ligar) com o Criador, Deus, Universo.
  3. Uma das maneiras de nos referirmos aos dois praticantes é como “interagente-yang” (aquele que se movimenta e pressiona com os dedos) e “interagente-yin” (aquele que entrega-se ao movimento e às pressões). Normalmente, o vocabulário utilizado passa por “terapeuta-cliente” ou “doador-receptor”, ou ainda “praticante-receptor”. Há muito vamos propagando a ideia de que o Shiatsu estabelece uma relação onde os dois são capazes de oferecer e receber, além de desenvolver um “Totem”: Uma terceira carga energética que nutre e é nutrida pelas cargas individuais.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

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https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 3

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 3

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Ressaltamos, na parte anterior, sobre a importância da limpeza e purificação, na sociedade japonesa, em continuidade à ideia de que, quando o Shiatsu se dissocia dos costumes e tradições que regem sua cultura originária, ele perde parte de seu potencial. A pureza é o fator fundamental no aproximar o ser humano de sua própria essência e assim torna-se ente cósmico da existência (Kami). Agora, passemos por uma outra tradição igualmente valiosa – a do Jardim Japonês, igualmente parte de uma cultura tanto espiritual como cotidiana naquele país.

Corpo, Jardim Japonês

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Shiatsu é cuidar e contemplar o jardim da Vida. Em cada indivíduo, no corpo-mente de cada um, a vida pulsa, o jardim floresce e se renova diariamente. A tradição japonesa de se planejar, construir e usufruir de jardins com rara beleza oriunda da combinação de elementos naturais e humanos nos ensina sobre a natureza do próprio Shiatsu.

 

O Jardim Japonês (日本庭園 nihon teien) busca ser um reflexo, uma expressão de quem o criou e o cuida, e ao mesmo tempo, tenta se fazer refletir no interior de quem o observa. Seu sentido se produz na conexão do exterior (ambiente, pessoas) com o interior (mente, energia), e por isso, ao observá-los podemos sentir sinestesicamente que há um propósito maior que apenas uma beleza estética.

 

Locais assim, criados para representar a Perfeição Cósmica da Vida e da Natureza, fazem parte do imaginário japonês desde a antiguidade. Jardins míticos e montanhas dotadas de rara beleza entre os elementos de sua paisagem são citados nas mais antigas poesias no país(1).

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Suas remotas origens datam dos primeiros séculos, quando já se indicava a percepção milenar de que o Sagrado habita onde a harmonia se faz. Desse modo, os primeiros jardins eram locais naturais de privilegiada beleza, santuários bem cuidados pelos habitantes da Ilha Maior do Japão (Honshu). Por alguns séculos, foi assim, até que no período Asuka (por volta do século V), com a influência do Taoísmo e a chegada do budismo como fenômeno religioso, cultural e tecnológico, é que os jardins foram tornando-se alvo de planejamento e miniatura de paisagens imaginárias, com seus diferentes estilos tomando a forma como as que conhecemos até hoje.

 

Organicismo

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Observar a sociedade, o cosmos, a vida e estruturas humanas organizadas como um corpo vivo é também uma maneira de abstração e compreensão observável das diferentes culturas, através do tempo. Pensar no jardim como representação do corpo, seguindo ideias organicistas nos parece reflexão inevitável, pois nos ajuda a fazer dialogar o Shiatsu – cuja prática está calcada no equilíbrio do todo através do corpo – e a ideia de jardim, com seus diversos elementos que precisam encontrar uma unidade harmônica.

 

Assim como cada órgão ocupa um espaço e uma função no corpo, devendo trabalhar em harmonia pelo todo, os diferentes elementos presentes no jardim japonês também o fazem, criando uma unidade essencial. Pontes, lanternas, lagos, plantas, rochas, peixes, cada um tem um símbolo e um completa o outro. Símbolos da vida estão todos lá, elemento por elemento, interagindo entre si.

 

As rochas no jardim japonês, por exemplo, são repletos de significado, que variam segundo tamanho, posição, natureza e forma. Frequentemente, por exemplo, são agrupadas em somas auspiciosas: duas, três, cinco ou sete, embora; contudo, pedras colocadas individualmente exibem a representação da espontaneidade.  A combinação das rochas com a água representa o yin e o yang, e por falar nela, a direção de seu fluxo é muito importante. Se flui do leste para o oeste eliminará o mal, e do norte para o sul representa a atração mútua de yin-yang e portanto atrai boa sorte. Pontes simbolizam a possibilidade de continuidade de um única caminho através do relacionamento de duas partes antes separadas. Em jardins de areia, as estrias feitas com ancinho representam correntes de Ki (energia vital). Plantas com diferentes ciclos vitais são colocadas de forma a transparecerem as 4 estações. O ritmo da vida e os ciclos. Lanternas chamam a atenção para um caminho ou nicho específico.

 

O que serão nossas rochas e águas internas? Como podemos perceber lanternas e pontes no corpo na comunicação não verbal de tocar e ser tocado no Shiatsu? Fica o convite para a meditação em torno do tema.

 

Metáfora Universal

 

Jardim como representação de harmonia não é exclusividade oriental. Na cultura-judaico cristã, o paraíso é representado como um “jardim perfeito”, e a punição divina pelo pecado é justamente a expulsão de tal paraíso. Não havendo o conceito de “humano pecador” na cultura original japonesa(2), a busca pelo estado edênico é mais uma maneira de reconhecer o interno no externo e vice-versa.

 

Para além de culturas, a relação do Homo sapiens com a estética e sua representação interior de harmonia natural é aparentemente intrínseca a condição humana.

 

O manejo do jardim, suas consequências, seu propósito são metáforas permanentes para as atitudes humanas, e estão bem representadas no filme “Muito além do Jardim”.

 

Quando o Shiatsu se reencontra com a Unidade na representação do Jardim, portanto, alinha-se novamente com as antigas tradições que compõem a cultura japonesa, e mais profundamente, com o sentido de humanidade que habita a cada um para além dos povos.

 

Arte de cuidar

 

Caso o jardim interior esteja bem cuidado, ele permanece em equilíbrio, a contemplação se torna fluída e a mente é alimentada pelo sentido simples de cuidar para viver. Chegamos, pois, ao âmago da experiência de ser terapeuta.

 

Jardins Japoneses não são belos sem esforço. O equilíbrio não se faz somente esperando cair do céu. Um paradoxo do pensamento oriental é uma das máximas do taoísmo: a abundância vem se você estiver no lugar certo, na ação certa. Assim ela vem, e sem esforço. Desavisados têm negligenciado a ação certa e passaram a imaginar que o sucesso não requer esforço, apenas estar no “lugar certo”. A metáfora do jardim ensina que o lugar certo é o que você faz dar certo. Planejar o jardim da Vida, o espaço que ele ocupa, cuidar para que ele esteja sempre em harmonia, é tarefa diária. Shiatsu, principalmente sua base tradicional, é atividade diária.

 

Todos os dias se removem as daninhas. Todos os dias removemos negatividade de nossas mentes. Todos os dias se renovam as águas. Todos os dias nos alimentamos bem e respiramos bem, renovando o sangue. Todos os dias se protege o que for delicado dos fortes ventos. Todos dias as nossas emoções mais sutis são protegidas. Todos os dias se verificam os musgos das rochas. Todos os dias nos alongamos para a saúde dos ossos, de nossa estrutura. E tudo isso se faz com contato. Toque. Contato. Toque. Shiatsu.

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Arte de contemplar

 

O hanami (que quer dizer “ver as flores” é a semana de contemplação das Sakuras – flores de cerejeira. No Japão, na época do hanami há um grande feriado nacional. As pessoas são liberadas para estenderem esteiras nos gramados de parques, jardins e quintais, e simplesmente apreciarem. Todos querem fazer contato com a natureza, sua delicadeza, perfeição, impermanência, e assim reverenciarem o Estar Vivo.

 

Image result for mokiti okada satoryA Contemplação é, para a cultura japonesa, motivo não só de relaxamento, mas de elevação espiritual. Mokiti Okada(3), fundador da Igreja Messiânica, ao contemplar a evolução de sua pipa no céu alcança o Satori(4) e se ilumina. Os exemplos da iluminação pela contemplação são inúmeros e estão presentes das mais diferentes religiões do Japão.

 

A atitude  do Shiatsu mais uma vez é comparável com um passeio de contemplação por um jardim japonês. Esse jardim-corpo é motivo de cuidado e reverência, regozijo e conexão.  

 

Receber Shiatsu é poder contemplar o próprio jardim interior, e a ação do tempo sobre ele. O terapeuta é sol e chuva, dia e noite, e o praticante, observador de si mesmo, paisagem onde a Vida acontece. E o que faz parte do ato da contemplação? O silêncio. O Shiatsu precisa do silêncio. Não estamos nos referindo a não falar. É preciso ir além. Os praticantes de Shiatsu precisam entender que entre uma pressão e outra sobre o corpo de seus atendidos, há um silêncio. Uma pausa na partitura, que dá sentido à música do Contato. Isso é o intervalo da contemplação.

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O terapeuta, ao mesmo tempo contemplador desse jardim sagrado, é também um jardineiro que busca ser parte da própria paisagem, busca ser a paisagem com que está lidando. A harmonia da paisagem será reflexo do Eu interno e vice-versa, pois no ato terapêutico do Shiatsu o Uno encontra sua plenitude.

 

Inclinações humanas: propósitos dos jardins das almas

 

Jardins japoneses possuem estilos variados, como existem as inclinações humanas: Há jardins de areia, destinados à favorecer a meditação através das poucas cores e do simbolismo da impermanência; Há jardins simples destinados a “preparar” o espírito de quem entrará em uma casa concebida para a Cerimônia do Chá; Há jardins-santuários, destinados à reverenciar os Kamis; e há os jardins de passeio, voltados exclusivamente para a contemplação, envolvendo seus observadores com paisagens cuidadosamente compostas.   

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Ao entrar em contato com um jardim, é preciso respeitar sua proposta, entrar nela, ser a proposta. Desse modo, a conduta terapêutica no Shiatsu não pode ultrapassar as inclinações de seu atendido, e o atendido não deve ter expectativas maiores de seu tratamento para além do que ele e terapeuta somados realmente são.

***

NOTAS:

  1. O Man’yōshū, literalmente a “Coleção das Incontáveis Folhas” é a mais antiga compilação de poemas da poesia Japonesa. Datado do século VIII, no apogeu do período nominado “Nara”, ele reproduz poemas de tempos anteriores e do então presente.
  2. Não há conceito de pecado, mas há o conceito de desonra à família, a ancestralidade, e ao imperador – O pesar das consciências por artifícios que estimulam a culpa parece ser uma das mais universais formas de controle social e se apresenta desde tempos imemoriáveis.
  3. Mokiti Okada (岡田茂吉, Okada Mokichi) (23 de dezembro de 1882 — 10 de fevereiro de 1955) foi o fundador da Igreja Messiânica Mundial (世界救世教, Sekai Kyusei Kyo), na qual é conhecido pelo título honorífico de Meishu-sama (明主様, Meishu-Sama, Senhor da Luz).
  4. Satori, o estado de iluminação segundo a tradição japonesa.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 2

Na postagem anterior destacamos o papel da cultura espiritual japonesa na preservação de costumes e tradições que se observam de muito tempo aos dias de hoje no cotidiano japonês, e perpassam a prática do Shiatsu. Cumpre apresentar a partir de agora aspectos que não poderão escapar da citação às correntes religiosas de maior influência no Japão – o Xintoísmo (1), religião oficial do Japão, e Budismo, e também as ideias revisitadas por religiões novas mas bem estabelecidas, como a Igreja Messiânica e o Seicho-no-ie.

Assim, quando necessário as mencionaremos com uma apresentação muito breve sobre aquilo que relaciona o texto a um dado costume ou tradição de uma dessas religiões.

Japanese Baths

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 2

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Limpeza energética

Image result for misogi-shuhoÉ próprio do Xintoísmo e da cultura tradicional japonesa como um todo, a reverência à natureza e seus fenômenos. Desse modo, o vento, as tempestades, eclipses, a noite, a lua e o luar, o mar, e também a flora e a fauna permeiam a música, as artes plásticas e cênicas. O enredo típico, em tais artes, se faz pela simples alusão, descrição e adjetivação do elemento natural em foco, não tendo a aparente necessidade ocidental de colocar o ser humano no protagonismo das obras.

Para o xintoísmo, a natureza é pura, e todos os seus elementos em sua forma mais pura (Kamis) são entidades divinas – facetas do Absoluto. Assim, o ser humano deve buscar sua pureza, para se aproximar de sua condição divina essencial.

Imagem de um sentô (casa de banho, 1901)

Essa maneira de enxergar a vida torna os japoneses devotos da limpeza do corpo e da alma, e por lá os banhos tradicionais tem uma conotação para além da simples higiene da pele.

O furô (banheira) torna-se ofurô(2), e os ritos como o Misogi-shuho (banho ritual) estão entre os mais importantes Harae (rituais de purificação xintoístas). A cultura da limpeza  no Japão faz com que sapatos não entrem nas casas, o lavar de mãos mesmo antes de entrar em certos ambientes seja corriqueiro; O popular Shiatsu “de rua”, feito em cadeiras em shoppings e aeroportos é oferecido sempre com um tecido limpo intermediando as mãos do terapeuta e cliente; E nos consultórios, o ambiente limpo, e a roupagem adequada são costumes atrelados a essa noção intrínseca. A higiene é uma prioridade no dia a dia das pessoas, independente de qualquer devoção, e de que atividade for prestada.

Uma pessoa limpa é uma pessoa reta, uma pessoa moralmente forte.

Em tudo o que se faz, carrega-se essa forte noção, e assim deve ser com o Shiatsu quando alcança o esplendor de sua potencialidade.

O Shiatsu limpa a energia, renova-a, aproxima da retidão. Este caráter se verifica tanto na disciplina necessária em seu aprendizado, como a concentração e foco empregados em sua prática.

Quando fazemos Shiatsu, praticamos um ritual de limpeza energética. Estamos em busca de limpar o leito dos rios internos (meridianos) para que a água (energia, ki) corra livre por ele. Estamos em busca da liberação somato-psíquica que torna o ser fluido, puro, mais próximo de seu estado naturalmente sábio.

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*Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

NOTAS:

(1) No Xintoísmo, reúnem-se as crenças espirituais mais antigas do Japão, em uma só organização. Seu nome é uma modernização do que seria Shen Tao para os chineses, ou seja, “Caminho Espiritual”. Shen tornou-se Xin, Tao, tornou-se To ou Do. Assim que a trilha do caminho espiritual, ou o professar da espiritualidade é tratada simplesmente dessa forma, Shintô.

(2) “O” (お) é um prefixo que indica exaltação, respeito, reverência. Quando se opta por dizer “furo”, refere-se a “uma banheira qualquer”. Já “ofuro” denota que é um banho particularmente voltado ao relaxamento, renovação, purificação.

Leia o ensaio completo:

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 1

Por Arnaldo V. Carvalho*

A cultura se faz presente em tudo o que uma pessoa faz, e como ela age, pensa e sente; Torna-se indispensável ao estudioso de Shiatsu tomar consciência da raiz cultural que molda o espírito dessa terapia oriental.
Vamos iniciar uma reflexão sobre aspectos fundamentais da cultura espiritual japonesa, ao longo dos dias desta semana, e de como ele se encaixa na prática do Shiatsu em regime de excelência, e essência. Boa Leitura!

Arnaldo V. Carvalho

Introdução

A vida e a morte, a saúde e a doença, os relacionamentos e seus moldes – e como lidar com esses aspectos da existência – são tratados pelas pessoas de acordo com suas culturas. Raízes culturais profundas por vezes confundem-se com a noção do que é ser, e funcionam como uma matriz esquemática aos próprios pensamentos do indivíduo. E isso não é diferente quando nos referimos à cultura japonesa, berço do Shiatsu.

Tudo o que se pode produzir leva em conta a história pessoal, a forma como a pessoa se criou. Escrevo em português, por exemplo, porque foi através dessa língua que aprendi a pensar verbalmente; e pensarei como brasileiro mas possivelmente com um toque lusitano, porque meu pai e a minha família do lado paterno é portuguesa.

Estruturamos um jeito de pensar segundo a mescla de facetas que vamos sistematicamente aceitando ou rejeitando no íntimo, durante a formação de nossas personalidades. O uso do verbo, falado ou escrito, possui portanto esse arcabouço cultural, e é usado sem que seja preciso lembrar disso. Isso é cultura, e vale para qualquer grupo ou indivíduo, de qualquer tempo ou lugar. Não é necessário afirmar-se ente cultural de um grupo social. Apenas se é.

No tocante à “cultura” de um povo, ela pode ser identificada como um fenômeno fluído, mutante, que de tempos em tempos particulariza suas dinâmicas, incluindo seus costumes e representações (1).

O que se pode observar nos costumes e representações dos japoneses é que sua música, dança, normas de etiqueta, religião, e práticas de saúde, seguem regidas por uma unidade implícita – resguardadas suas modificações ao longo do período – desde o surgimento do Shiatsu, no início do século XX, e mesmo antes dele. Desse modo, observar como tais aspectos culturais dialogam entre si, nos conscientiza de que, para quem é criado imerso neste panteão de saberes e fazeres, não é possível ter uma coisa sem a outra, sob o risco da descaracterização do próprio Shiatsu imerso nessa lógica que o origina e o inclui.

Em outras palavras, Shiatsu não pode ser compreendido apartado de tais raízes. Ele atrela-se com força as tradições japonesas, em especial as espirituais, e carrega-o em suas práticas. Afinal, os costumes e tradições espirituais abrigaram, por séculos, as artes da cura.

É preciso, pois deter-se sobre tais costumes, quando na busca de uma praxis terapêutica mais próxima da essencialidade que a originou.

Estamos afirmando que há um peso oculto dessa cultura, discretamente implícito, porém essencial, no modo de atuar de um praticante de Shiatsu.

Purificar corpo, mente e espírito; Contemplar; Fazer a energia fluir; Estar em harmonia com o Todo; Meditar; Conectar-se com a ancestralidade; Deixar-se conduzir pela sabedoria da Natureza; Reverenciar a vida e respeitar solenemente a morte, são características que fazem parte desse peso oculto, e participam de forma invisível do Shiatsu. Tais práticas conectam o Shiatsu com o “ser/estar” no mundo que frutificou como uma tradição mais ampla da cultura oriental: O espírito abrilhanta-se a cada ação humana. Sem tal perspectiva, o Shiatsu torna-se uma técnica apenas razoável, e provida no máximo de valor mecânico. Dentro dela, no entanto, o Shiatsu torna-se modo de viver, de desenvolver-se, de compreender a vida e encontrar o equilíbrio.

Na continuação desta série, iremos focalizar em cada um dos aspectos citados, observando os vínculos destes com o Shiatsu em sua condição de excelência.

(continua – Próxima parte: Limpeza Energética)

***

(1) Ver: THOMPSON, Edward P. Costumes em Comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

* Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

Leia o ensaio completo (disponível a medida em que é publicado):

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

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“Shiatsu Expresso” x “Quick Massage”

Diferenças teóricas e técnicas do Shiatsu aplicado na cadeira e a “Massagem Rápida”

Shiatsu rápido não é “Quick Massagem”. Shiatsu na cadeira NÃO É “Quick Massagem”.

Por Arnaldo V. Carvalho*

Shiatsu Cadeira

É completamente aceitável que pessoas leigas passem por um pequeno quiosque onde se oferece “Shiatsu Expresso”, ou outro que ofereça “Quick Massagem” e não perceba diferença. Mas quando profissionais que trabalham com terapias manuais passam a pensar e agir como se tais técnicas se equiparassem, então temos uma grave confusão ou mesmo distorção teórica, que merece ser esclarecida rapidamente.

 

A cadeira para a prática terapêutica, foi criada há cerca de trinta anos e é utilizada amplamente para um sem-número de terapias corporais. Na realidade, ela apenas acrescente sofisticação, praticidade e qualidade a uma possibilidade de intervenção, realizada com o(a) atendido(a) sentado (a). Dessa forma, o modus operandi que está por trás de cada modalidade de trabalho – incluindo o Shiatsu Expresso e o Quick Massagem  faz muita diferença.

 

Este artigo pretende demonstrar as razões pelos quais é imprescindível discriminar adequadamente ambas as técnicas, como se deu esse processo de falsa equivalência, e quais são suas reais convergências e divergências. Esperamos que ampliem-se os horizontes dos leitores, que poderão aprofundar-se em uma matéria rica e cheia de possibilidades muito acima do que se tem comumente oferecido no Brasil. Vale notar que ao longo do texto chamaremos de “Quick Massage”, “Massagem rápida”, ou “Massagem na cadeira” a adaptação das dinâmicas massoterapeuticas (terapia ocidental) para um trabalho curto (entre sete e 30 minutos) e executado na cadeira dedicada a tal terapia, e “Shiatsu expresso”, “Shiatsu rápido”, ou ainda “Shiatsu na cadeira” a técnica de Shiatsu, de base oriental, aplicada utilizando-se os mesmos critérios de tempo e local de acomodação do atendido. Vale salientar que muitos dos nomes empregados tanto para o Shiatsu como para a massagem surgiram simplesmente como tentativas particulares de se patentear protocolos e vender métodos exclusivos.

 

A origem da confusão: aspectos convergentes

 

Quase sempre, cursos e workshops com foco no atendimento na cadeira são destinados a profissionais tanto da área de massoterapia, como de Shiatsu. Superficiais, têm sido ensinados na maior parte dos locais ao modo “passo-a-passo”: “Primeiro vamos trabalhar com movimentos circulares no tronco superior, ombros, agora passe a percussões e amassamentos na região deltoide”, e assim por diante. O profissional aprende um “protocolo básico” que será aplicado sempre mais ou mesmo da mesma forma. Frequentemente, os cursos são rápidos, e não buscam detalhes relacionados à postura, atenção plena e percepção tátil do que é necessário. Professores e alunos partem do pressuposto que quem está para aprender “já sabe” (já é massoterapeuta ou shiatsuterapeuta), e assim, basta aprender a mexer na cadeira, uma sequencia minimamente interessante, acertar no tempo reduzido e aprender como funciona a higienização do equipamento. Mais raro é quando o professor (no caso do Shiatsu expresso) ainda revisa teorias como a dos meridianos, etc.

 

A teoria, infelizmente negligenciada, impede que o profissional de “Quick” ou de Shiatsu tire o melhor proveito possível da cadeira e da posição em que seu atendido se encontra, ou que atue de forma ergonômica para sua própria saúde. Tais vantagens estão amplamente explicadas na apostila “Shiatsu Expresso”, de minha autoria. Também impede um trabalho mais profundo e impactante norteie o trabalho.

 

Finalmente, vale pontuar que os excelentes alongamentos possíveis para a cadeiras têm sido positivamente incorporados para ambos os métodos.

 

As especificidades

 

Quanto às especificidades técnicas, o Shiatsu rápido segue a estrutura do Shiatsu original, bem como o “”Quick, da Massoterapia”:

 

 

Shiatsu rápido na cadeira

 

 

Quick Massagem

 

 

Métodos diagnósticos baseados no             aspecto energético.

 

 

Avaliação tátil da tensão             muscular ao longo do processo.

 
 

 

 

Ação imediata sobre pontos de             energia ou neuromusculares (depende do estilo), utilizando sempre             as pressões específicas do Shiatsu (normalmente com o polegar             mas podendo haver variações).

 

 

Opera com a típica diversidade de             manobras da massoterapia: percussões, amassamentos,             deslizamentos, fricções.

 

 

Utilização de técnicas             respiratórias

 

 

Utilização variada de acessórios             para maior variedade tátil e/ou conforto do terapeuta.

 

 

Pode utilizar uma superfície             interfacial (um pano limpo ou descartável) para realizar certas             manobras.

 

 
 

 

 

Foco no equilíbrio energético

 

 

Foco no relaxamento muscular.

 

 

Não pretendemos aqui dissertar sobre cada tópico técnico apresentado na tabela, acreditando que a mesma já é clara o suficiente. Contudo, para além das diferenciações operativas mais óbvias, será no sutil que encontraremos as diferenças fundamentais.

 

Uma delas diz respeito à capacidade do Shiatsu, caso a formação seja suficientemente profunda, de realizar uma analise somato-psíquica-energética, de maneira rápida e bastante precisa. Isso significa que entre Massagem e Shiatsu, apenas essa última terapia pode fornecer chaves de entendimento sobre a possível real origem de desequilíbrios que apareçam durante a sessão (por mais rápida que seja). A aplicação prática desse saber vai desde o direcionamento das pressões empregadas, até a orientação geral que o terapeuta pode fornecer.

 

No panorama das “terapias rápidas” no Brasil esse tipo de abordagem é raríssima. Porque em ambas as formações, têm sido pobre o programa formativo, como criticaremos mais adiante. Tem faltado teoria, porém independente disso, falta filosofia para a massoterapia ocidental, por sua própria origem e natureza. E esse é um dos principais diferenciais do Shiatsu, a ser conservado no trabalho rápido e/ou “da cadeira”. A filosofia por trás do Shiatsu funciona como um guia de foco de atenção quando o assunto é atuar especialmente em locais públicos ou abertos, situação típica para a cadeira. A utilização da respiração, da parte de terapeuta e atendido, a intencionalidade do fechar de olhos para uma atuação profunda são uma constante no Shiatsu (de alto nível). Tais possibilidades são ainda uma lição a ser assimilada pela massoterapia ocidental, que ainda espelha muito da mentalidade geral de nossa cultura.

 

Infelizmente, porém, é preciso denunciar que o Shiatsu, cada vez menos vem sendo praticado com tais preocupações filosóficas. E essa é mais uma razão para a aparente homogeneização da práxis do Shiatsu com a massoterapia. Verificamos, por sinal, que a crítica à própria massoterapia poderia ser debelada, por uma profunda reforma das mentalidades ligada às profissões que a praticam.

 

Conclusão

 

Em tese, ambos os trabalhos são interessantes e têm seu lugar. As variadas formas de abordar o corpo, com identificação das questões anatomo-fisiológicas e suas possíveis respostas terapêuticas pelo lado ocidental, ou os diferentes estilos de Shiatsu a trabalharem a circulação energética e/ou igualmente as questões físicas. O que não é possível é achar que é tudo a mesma coisa, ou que os resultados serão o mesmos.

 

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* Arnaldo V. Carvalho dá aula de terapias manuais desde 1998, e foi um dos pioneiros no trabalho com a cadeira no Rio de Janeiro .

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Há onze anos, o Shiatsu Emocional e sua história estreavam em Salvador

Memórias do começo de tudo

Como surgiu o Shiatsu Emocional

Por Arnaldo V. Carvalho*

O assunto era Aromaterapia. A lista, criada pelo Aromaterapeuta virtuosi Fabián Lazló naquele momento era moderada por mim e por Alê Kali, braço de Fabián em Salvador, Bahia. Alê é terapeuta e artista, daquelas que demonstra com  acertividade que arte e cura talvez sejam indivisíveis. E uma de suas marcas é estar na vanguarda.

Eu era o velho sem forma que verborragiava informação diferenciada na lista, e isso a atraiu de alguma forma. As interrelações traçadas entre óleos essenciais e terapias orientais, entremeadas com cases de consultório e experiências que conduzia e divulgava na lista oxigenavam discussões e produziam mais saberes. Tantos nomes ativos dessa lista colaboravam e faziam parecer que finalmente a Aromaterapia amadureceria e se difundiria com uma cara profissional, embasada. Lá estavam o próprio Fabián, eu, Alê, Daniela Sim, Carmen e Ary Bon, Aghata, Mari Gemma, Suzy Belai, entre outros. Mas isso é história.

Criteriosa, Alê observou meu trabalho por algum tempo, até que decidiu que eu poderia colaborar com qualidade em seu espaço terapeutico. Mas ela queria mais, queria o tom das discussões que tínhamos no grupo, queria que o Shiatsu não só falasse de energia, queria que falasse das emoções. Mais: queria que fosse um Shiatsu das emoções.

– Queria que viesse dar um curso de Shiatsu, mas um Shiatsu Emocional!

Fiz de seu entusiasmo o meu. Reavaliei o curso de Shiatsu que já ministrava, sob bases bem tradicionais e um ou outro tempero de uma certa semente que lá habitava.

A Xamã Chamas e Cheiros misto de loja e espaço terapêutico comandada por Alê, era o grande nome baiano no que dizia respeito a óleos essenciais, plantas medicinais e também, terapias de vanguarda. Recebeu o curso em abril de 2004, e dessa turma me recordo com carinho dos vários alunos. Assim como todo baiano, o Shiatsu Emocional não nascia, estreava.

Foi preciso um tempo para que as inspirações ali surgidas ganhassem um corpo teórico sólido o bastante para ir na direção que hoje estamos. Naquele tempo, a proposta era apenas ensinar Shiatsu valorizando a visão emocional clássica dos meridianos, com um ou outro insight diferenciado. Uma primeira revolução estaria por vir, e dessa vez seria na Argentina.

Mercedes, Eiji

Havíamos nos conhecido no primeiro curso de Ohashiatsu no Rio de Janeiro, ministrado por meu querido mestre Marco Duarte. Mercedes foi uma colega preciosa na pequena turma: ela tinha o silencio de quem verdadeiramente ouve, o bom humor de quem não confunde seriedade com sisudez, e o brilho nos olhos de quem apaixona-se por tudo o que decide fazer. Já era uma pessoa experiente no Shiatsu, e havia passado por duas escolas com forte base Masunaga, o que fez o Ohashiatsu soar como um passo natural para ela. Tornamo-nos grande amigos e esse amor permanece, com a adição de uma gratidão imensa por tudo o que me fez crescer, em diversos momentos da vida. Se não fosse por ela, talvez o Shiatsu Emocional não tivesse tido fôlego para alcançar a vida própria que está alcançando.

Em viagem para Buenos Aires, pedi para aplicar Shiatsu em Mercedes. Fora do curso, seria a minha primeira oportunidade de “mostrar o que sabia”. Minha ideia era ser avaliado. Fiz o meu melhor, mas ao final, ela pareceu desapontada. Não deixou de elogiar a minha técnica e meus recursos, mas disse-me que não parecia legítimo. A vantagem é que também aprendo com a crítica. Aquilo doeu. Fiquei buscando que eu verdadeiro era esse em mim, e se ele não aparecia, que tipo de terapeuta de Shiatsu eu era. Certamente não era quem eu imaginava ser, quem eu gostava de achar que era.

Os dias passaram, e eu pude aprender muito com tudo o que vi e vivi na Argentina. Mas antes de passar a outros episódios marcantes, preciso ligar o que aconteceu com o que viria a ocorrer ao final da viagem, um episódio incidental me trouxe a resposta da Vida às minhas indagações. Mercedes machucou-se e chegou da rua com muita dor. Pedi para lhe fazer alguma forma de massagem. Não sei o que fiz. Não foi o Shiatsu como eu havia aprendido em diferentes escolas. Eu não buscava aprovação. Não buscava nada, apenas agia por instinto.

Ao terminar ela abriu os olhos e disse: “esse é o seu Shiatsu”.

Naquele momento, descobri que Amor é Instinto, e se nós o bloqueamos ao Outro, não podemos ser nós mesmos. E se isso não é possível, não podemos fazer Shiatsu, ser o Shiatsu.

O instinto me afastava de vaidade pessoal, preocupações técnicas, e me aproximava de quem eu era na essência. Faz parte de minha jornada como professor ajudar o aluno a descobrir seu próprio Shiatsu. Ele fará isso quando descobrir o Amor em si, e como permitir que flua.

Mas esse foi um dos pontos de aprendizagem que iriam fazer o Shiatsu Emocional adquirir outro tom a partir dessa viagem.

Mercedes me apresentou seu antigo professor, o mestre japonês Eiji. Foi uma oportunidade rara, o privilégio de conhecer um mestre japonês em sua espontaneidade, a sós, fora de sala de aula. Generoso, ele me recebeu a pedido dela. Ele me conduziu por seu centro de cursos e terapias,  até uma sala vazia e harmoniosa, ao estilo oriental.

Conversamos sobre a arte de ensinar Shiatsu. Em certo momento, ele abaixou sua cabeça, e após breve silêncio, me disse, entre pausas diversas, de quem ao mesmo tempo que verbalizava, buscava refletir sobre o que dizia:

– Há algo que nunca consegui ensinar… Por algum motivo estranho, quando eu toco… Eu sei o que a pessoa tem. Eu simplesmente sei. E não consigo ensinar isso -, lamentou.

Essa foi a parte da conversa que nortearia meu desafio de crescer como professor nos anos que se seguiram. Eu também sentia que podia perceber sobre as pessoas ao toca-las, muito além das teorias já escritas. E sabia que, se pudesse .transmitir essa habilidade aos meus alunos, estaria oferecendo um recurso extraordinário.

Já havia iniciado uma escrita que se se converteria no livro Shiatsu Emocional, publicado em 2007. Os esboços foram comigo. Tudo muito em sintonia com o que havia conseguido desenvolver do início de minha formação até o curso Shiatsu Emocional.

Na véspera de minha ida havia ocorrido a sessão de emergência em Mercedes. Na manhã seguinte, eu sentei e escrevi. Escrevi as principais ideias que dariam forma ao livro. E é por isso que nos agradecimentos se lê: “À Mercedes Avellaneda, onde tudo começou”.

Daniel Luz e a picaretagem

Uma passagem rápida e inesquecível deu-se através de uma confusão ocorrida na extinta rede social “Orkut”. Não éramos conhecidos. Uma pessoa perguntou na comunidade “Shiatsu Brasil”, idealizada e administrada pelo excelente profissional e pessoa Daniel Luz: “alguém aí sabe o que é Shiatsu emocional”?

Daniel não teve dúvidas: “Me soa picaretagem”.

Uma pessoa ligada a mim leu e me contou, eu fui lá, li a discussão, me indignei, me coloquei no lugar de todos, me des-indignei, e refleti sobre o que era o Shiatsu Emocional. Sabia que não era picaretagem, pelo contrário! Ao mesmo tempo eu mesmo não enxergava Shiatsu Emocional como um estilo de Shiatsu ou algo assim. Era apenas um curso que inspirara um livro.

Conversei por e-mail com Daniel, me apresentei, esclareci como eu pensava. Ele me leu, mas até hoje tenho dúvidas se ele mudou de ideia (risos). Fato: foi caldo para que eu começasse a me perguntar: “o que origina um estilo de Shiatsu”? O que faz com que uma nova terapia seja realmente nova? O que faz com que ela permaneça vinculada a sua origem, tornando-se um “estilo” ou “variação”? O que por outro lado a afasta demais, fazendo-o deixar de ser aquilo?

Para ser Shiatsu, uma terapia precisa estar alinhada com sua principal fundamentação teórica e linha prática. E assim seguimos: os meridianos, o yin-yang, a pressão com os dedos… O conhecimento comparado de várias técnicas nos permitia seguir aprofundando o conceito de Shiatsu e nortear a técnica a partir deste.

A medida que o Shiatsu Emocional amadurecia, incorporando novos aspectos, estivemos atentos para sua transformação, e percebemos o momento em que ele é diferente demais para ser “Shiatsu tradicional”, mas que era fiel demais a ele para não ser Shiatsu.

Não fosse a polêmica gerada no Shiatsu Brasil do Orkut, talvez essa clareza nunca tivesse ocorrido.

Reich, Sylvio

O primeiro a me falar de Wilhelm Reich foi um de seus poucos amigos verdadeiros. Seu nome era Alexander Sutherland Neill, um senão o educador mais importante da história. Em sua escola, não há diretividade, e sua ausência permitia que os alunos simplesmente fossem. E sendo simplesmente, descobriam-se como nenhum pai ou pedagogo jamais poderia estimular. A célebre frase “Gostaria antes de ver a escola produzir um varredor de ruas feliz do que um erudito neurótico”, presente em um de seus vários livros, marcou meu final de adolescência, quando descobri muito as minhas dificuldades comuns daquela época. Neill enxergava seus alunos como pessoas com vontades próprias, e as respeitava. Isso em geral os fazia ir bem além de ocuparem profissões mecânicas como varrer ruas, mas tornarem-se profissionais de alto destaque fosse a área que escolhessem. Se Malinovsky havia vencido a teoria do complexo de Édipo latente através de seu estudo entre os trobiendeses, Neill havia vencido a “alma caótica infantil” a ser modelada pela educação para seu próprio bem. E parte disso tem relação com o que li e conversava com Reich. Reich, pai das psicoterapias corporais. Reich, discípulo de Freud, mais um dos dissidentes da psicanálise. Reich, o louco que reintroduzia na psiquiatria a ideia de energia vital – o Orgon. Li Reich em Neill e depois li Reich em diversos autores de psicoterapia e psicoterapia corporal: Dutchwald, Gaiarsa, Roberto Freire, Pierrakos, Perls, Keleman, Schulz, Boadella, Raknes, e enfim nele mesmo. Compreendia apenas parcialmente seus escritos, compreendia apenas parcialmente seu mundo. Mas o bastante para conhecer sua teoria acerca da análise do caráter e suas couraças musculares. Eu considerava suas teorias uma descoberta fascinante, e enxergava correlações claras com as teorias da antiga medicina oriental. Investia no estudo comparado entre meridianos, couraças e chakras, e isso foi a grande base do livro. Mas ainda havia um algo mais, que não pode ser adquirido nos livros. Havia um mestre a conhecer, alguém que respirasse Reich. Foi quando conheci Sylvio Porto.

Porto fizera parte de uma geração de psicólogos que mergulhara junto, fundo, no mundo de Wilhelm Reich. No início dos anos de 1980 eles eram o CIO – Centro de Investigação Orgonômicas Wilhelm Reich. Muitas realizações ocorreram ali: a vinda de Federico Navarro (discípulo direto de Ola Raknes, um dos principais terapeutas reichianos, com quem inclusive Reich viveu uma relação transferencial) para oficinas, refizeram experiências executadas no passado pelo próprio Reich, traduziram textos, atenderam pessoas discutiram com calor a obra do gênio que fora o psiquiatra.

Entrei para uma de suas turmas de Massagem Reichiana em 2009. Para Sylvio Porto, a massagem é um veículo de mobilização de couraças, que pode auxiliar e ou anteceder a terapia reichiana propriamente dita. Ensinar esse curso é para ele um modo excelente de apresentar o pensamento ortodoxo reichiano, e distingui-lo do movimento neo-reichiano que altera muitas de suas ideias e prática.

Não parei no curso. Fui seu cliente. Estudei mais. Fui seu monitor. Colei nele. Um dia o Mestre Wu, da Sociedade Taoísta do Brasil, disse que era sempre muito bom estar perto dos mestres, que quanto mais se ficava, mesmo que sem palavras, mais se aprendia. Eu procurei respirar Sylvio para respirar um Reich mais puro do que o que havia encontrado nos livros e nas passagens por outros livros.

O Shiatsu e a Terapia Reichiana eram complementos um do outro, já não havia dúvida. Um corpo teórico mais sólido e revigorado surgiu e permitiu uma apresentação bem sucedida do Shiatsu Emocional, no XI Congresso de Psicoterapia Corporal, ocorrido em 2011 na cidade de Curitiba. Era uma questão de tempo para que o curso, que já havia crescido de 16 para 32H, ganhasse novos níveis de conhecimento, e uma metodologia ainda mais diferenciada, onde a etapa final se baseia na relação direta professor-aluno.

Em 2016, o Shiatsu Emocional tornou-se a principal formação da Escola de Shiatsu SHIEM, opera por vontade própria. Outros professores dão o curso. Outros profissionais atual com a mesma qualidade que eu, e até melhor, porque eles são eles mesmos, e talvez sejam ainda melhores.  Em breve, novas teorias e práticas começam a se desenhar, de minha parte e de outras pessoas, pois o Shiatsu Emocional não para de evoluir.

É uma satisfação muito grande relembrar os três primeiros grandes marcos formativos que orientaram os principais fundamentos do Shiatsu Emocional nesse momento.

Durante esses anos, nunca esqueci das pessoas, lugares e situações que fizeram amadurecer a trajetória do Shiatsu Emocional. E foram tantos que seria injusto anunciar aqui e correr o risco de deixar faltar alguém.

Vida longa e próspera ao Shiatsu Emocional!

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Quantas horas deve ter um curso de Shiatsu? Os verdadeiros parâmetros na aprendizagem do Shiatsu

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Número de horas ideal é grave equívoco no que se refere ao aprendizado do Shiatsu

Por Arnaldo V. Carvalho

Nos círculos de discussão sobre a “boa formação” de Shiatsu no Brasil, pode-se perceber a insistência coletiva na na manutenção do modelo educacional padrão de nosso país. Os debatedores, embora com variada gama de opiniões, são praticamente unânimes ao pleitear para o ensino do Shiatsu um número de horas de sala de aula (quase sempre 1200 horas são consideradas “suficientes”).

Esse modelo, oriundo do ensino técnico brasileiro, é contudo obsoleto, e como em outros saberes, não se adequa ao Shiatsu. 

O aproveitamento das horas depende da infra-estrutura que cerca o curso, qualidade, dedicação e comprometimento do professor e do aluno, e das inter-relações de todos esses elementos. Uma hora de aula com o professor e o aluno excelentes e em sintonia rendem certamente mais do que cem horas com o professor e o aluno medíocre.

Saiba mais sobre a arte de aprender Shiatsu

Todos os educadores em essência sabem disso.

Ao interessado em aprender Shiatsu, é importante destacar que educação é um processo SUBJETIVO, e estabelecer horas ou provas com notas é um meio de dar a algo subjetivo uma aparência objetiva, a partir da qual se pode trabalhar com dados concretos e se determinar um “sim e não”, “pronto e não pronto”, aprovado e não aprovado”. Essa “máscara de objetividade” não incentiva a autonomia na aprendizagem, nem valoriza a inteligencia do aluno. Segue a velha educação diretiva A>B, preocupada com programar, não em fazer refletir.

Mas Shiatsu – em alto nível – não pode existir sem reflexão.

Não pode ser ensinado ao “modo objetivo”, pois isso o empobrece. Não é possível quantificar aprendizado de Shiatsu por um número pré-determinado de horas.  Fazendo parte de uma filosofia de aprendizado profundo e contínuo, o Shiatsu segue tornando-se um caminho, um modo de vida para seus praticantes.

Novos parâmetros de aprendizagem

Mas então como os formadores em Shiatsu podem gerar parâmetros de aprendizagem? E como os interessados em aprender podem analisar avaliar se um curso pode realmente leva-lo ao Shiatsu de alto nível?

A solução, para os agentes formadores (professores, escolas, etc.) deve ser a adoção de critérios diversificados, que incluem a subjetividade e visam perceber a maturidade do aluno-praticante acerca dos diversos temas inerentes à Terapia Shiatsu. Entre outras atitudes, os agentes devem pensar que certificado de participação não equivale a certificado de qualidade. E que provas escritas ou mesmo testes práticos nem sempre são o parâmetro ideal da avaliação. A avaliação objetiva não pode ser uma avaliação sábia, pois a sabedoria não é meramente objetiva, embora possa incluir objetividade.

O tema da avaliação em Shiatsu é um tema caríssimo, e se há uma avaliação sábia, ela requer tempo. Então um professor e um aluno em sua relação precisam de tempo. Tempo para se conhecerem um ao outro, de modo que o educere* se faça profundamente. Na Sabedoria, avaliação e autoavaliação dançarão juntas por anos, e reconhecer-se-ão uma a outra.

A formação precisa ter a possibilidade de continuidade, e uma vez alcançando o limite técnico disponível, deve permanecer oferecendo atualização e manutenção do que se aprendeu. Mais ainda, deve possibilitar uma sequência de desenvolvimento, que levará o aluno à pesquisa e à transversalidade com outros campos de saber. Finalmente, uma formação de qualidade deve investir no aprofundamento ético do praticante. É esse aprofundamento que o tornará uma pessoa melhor, e somente tornando-se melhor ele poderá ser um praticante verdadeiramente melhor.

Interessados em aprender Shiatsu por aí já começam a entender que um curso baseado em carga horária, que termine “e só” apresenta limitações. Mas há outros critérios simples a buscar na procura por um bom curso de Shiatsu, quando se pensa em alto nível.

Fique atento ao que a escola/professor te oferece

O número de pessoas por turma é um deles. É possível encontrar cursos baratos com trinta pessoas em uma turma. Mas não é possível que mesmo um bom professor ofereça grande qualidade de atenção a uma turma tão grande. Se participativa, as perguntas serão saciadas. Um direcionamento personalizado dos conteúdos de acordo com a heterogênea demanda será impossível. E as correções individualizadas durante as práticas serão deficientes. Para a aprendizagem de Shiatsu, turmas pequenas, entre oito e doze pessoas, são ideais. Turmas pequenas demais são igualmente um problema: o Shiatsu é uma terapia do Outro, é preciso que haja um grupo mínimo para haver a aprendizagem da escuta, a experiência do toque em diferentes tipos físicos e a lida com diferentes temperamentos. Sem um número mínimo, a amostragem tende a ser insuficiente.

Pouca gente se preocupa com o que o Shiatsu provoca em quem faz o Shiatsu, e isso não é uma questão para o interessado. Em geral, ele se preocupa com o efeito que acredita que irá causar no Outro. Mas sem a orientação correta, ele será mais um entre muitos que se afastarão do Shiatsu, que lhe provocará tendinites, dores nas costas, ou mesmo intoxicações energéticas (o leitor já deve ter ouvido falar da pessoa que se afirma ser “uma esponja” – esses são os que mais sofrem). Então uma pergunta que poderia ser feita ao professor/local de ensino de interesse seria: você me dará orientação postural para que eu não tenha problemas? você me dará orientação e suporte para que eu não venha a somatizar um conteúdo transferido do Outro para mim?

A preocupação com o número de horas em geral também não fará lembrar de uma dúvida que cerca muitos alunos após terminado um curso de Shiatsu: “será que já estou pronto”?, ou, embora mais raro: “será que aprendi tudo o que há para se aprender em se tratando de Shiatsu?”. A raridade desse segundo questionamento se deve ao fato de que os cursos em geral são “vendidos” como um produto acabado, quando o Shiatsu é fractal, desdobrando-se infinitamente em conhecimentos múltiplos. Para responder a primeira pergunta, é preciso ter um suporte pós-curso da parte da escola/professor, e quanto a segunda, iniciar o curso dizendo que não, não bastam aquelas horas seria no mínimo honesto, mas não o bastante. Porque a partir dessa conclusão, há que se apontar caminhos. Essa é uma das missões do professor/instituição de ensino.

Para mais do que as questões técnicas e éticas, existe o lado de quem quer ser um profissional de Shiatsu. É preciso avaliar se a escola  vai dar condições de um praticante galgar uma profissão não regulamentada no Brasil, como a Shiatsuterapia, criando plano estratégico, enfrentando as condições jurídicas e de mercado, sabendo conduzir-se de forma ética mas ao mesmo tempo que o permita crescer de forma firme.

É quase irresistível elencarmos itens que talvez pudessem simplesmente pudessem estar numa grade de conteúdos de um curso, fazendo parte do número total de horas. Entretanto, quanto mais esmiuçamos, mais nos afastamos do tema central do texto, de modo que agora é hora de retornarmos através de uma pergunta chave: se o número de horas de curso não é o mais importante, o que é então?

Naturalmente, não há uma resposta curta para uma questão que, apesar de parecer simples, é complexa como é complexo o ser humano.

Como seria bom conhecer o professor primeiro, observar sua paixão; Como seria útil observar se as horas que passarão juntos serão horas onde ele se dedica totalmente… Mas quase nunca isso é possível, e talvez deslocar a responsabilidade de aprender para o educador seja um desserviço a si próprio. A direção correta é a da autoeducação, como nos ensina Tomio Kikushi.

Assim, eu gostaria de perguntar ao leitor: o que você pretenderá fazer com as horas que passará com seu professor e colegas? Com que atitude interna entrará no curso, e o que fará a cada dia após sair da sala de aula? Que perguntas pretenderá fazer ao professor, e que perguntas fará a si mesmo? Se você levar a sério tais questões, talvez mesmo um curso “fraco” seja ótimo. Este texto, então, deixará de ser necessário, e ao mesmo tempo cumprirá sua função. Como já diz o provérbio oriental, “o orador pode ser tolo se o ouvinte for sábio”.

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* Educere: trazer para fora, em latim

* Arnaldo V. Carvalho é pai, educador, praticante de Shiatsu desde 1993, membro da Associação Brasileira de Shiatsu e autor do livro Shiatsu Emocional.