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Mitos e verdades sobre a origem do Shiatsu

As três “histórias do Shiatsu”

Mitos e verdades sobre a origem da terapia

Por Arnaldo V. Carvalho

Há pelo menos três “origens” do Shiatsu anunciadas na Internet, nos livros, e nas falas dos professores da técnica. Uma quarta, menos conhecida ou explorada também surge como hipótese. Para os alunos iniciantes, ou que aprenderam de um jeito e agora deparam-se com informações diferentes da recebida durante a formação, a confusão fica armada. Desmistificamos aqui as principais afirmativas acerca da origem do Shiatsu:

1. Shiatsu é uma técnica da Medicina Tradicional Chinesa

Mito. Tem influência, mas não origem, pelo menos não direta, e a principal corrente do Japão, inclusive, sequer utiliza as teorias da Medicina Tradicional Chinesa. Sabemos da grande influência cultural do continente asiático ao longo do tempo no Japão, sobretudo a partir do século VI. As práticas de saúde fluiam de um lugar ao outro. Formalmente, entretanto,  não se pode afirmar que o Shiatsu tem origem na MTC, embora ela possa utilizar fragmentos de sua teoria, e ainda coincida que a técnica de pressão com os dedos faça parte de práticas de saúde empregadas largamente na China (na verdade, em todo o globo).

2. Tokujiro Namikoshi foi o criador do Shiatsu

Mito. Namikoshi foi um famoso professor de Shiatsu, e sua escola chegou ao auge no pós-guerra. Desenvolveu um estilo próprio, adequado ao pensamento da época, aos desígnios do que ocorria em seu país. Sua escola, atualmente dirigida pelo neto, segue como talvez a mais poderosa do Japão, e possui braços fortes na Europa e América do Norte.

3. Shiatsu deriva da Anma

Em partes. Anma, a antiga massagem japonesa que inclui diversas manobras, entre diferentes variações de digitopressura. É muito possível que o Shiatsu tenha sido uma “especialização” informal dentro da Anma.  (que se tornaria o Shiatsu). Contudo, há pioneiros do Shiatsu, como o citado mestre Tokujiro Namikoshi, que chegaram ao Shiatsu (ou à técnica de pressão com os dedos) por observação empírica, a partir da prática de uma massagem livre, sem nome. 

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Principais afirmativas devidamente desmistificadas, lanço aos leitores mais uma vez a hipótese com que mais trabalho em meus estudos sobre a história do Shiatsu: a das origens múltiplas. Nos últimos anos, busquei observar a sociedade japonesa da virada do século XIX para o XX, e daí às suas primeiras duas décadas (contexto do aparecimento do primeiro livro a citar Shiatsu no Japão), levando ainda em conta as transformações culturais ocorridas naquele país ao longo dos séculos, e coletando finalmente os resquícios desse momento no anos subsequentes. Considero plausível especular que o Shiatsu surgiu informalmente em diferentes segmentos sociais, que foram aos poucos intercambiando e cunhando uma série de métodos de pressão, hoje agrupados sob o nome “Shiatsu”.

É difícil de se precisar, pois as fontes históricas (registros escritos, pinturas, etc.) – pertencia a uma elite sociocultural muito restrita. Se havia uma forma de Shiatsu praticada nas camadas populares, entre agricultores por exemplo, não temos como provar. Mas há indícios, inclusive preservados no Brasil, através das migrações: Os prováveis primeiros praticantes em nosso país foram eles – e os que vieram pertenciam a tais camadas sociais.

Em paralelo, o Shiatsu era praticado em dojos, atrelados a arte marcial (por sua vez originada dos treinamentos de Samurai e outros de defesa dos Damyos e famílias), e nos templos, como parte das técnicas de cura preservadas junto aos monges (xintoístas e zen-budistas). Desses dois segmentos devem ter se originado os primeiros professores formais, ligadas às escolas técnicas de Amma, surgidas na ocidentalização e massificação da educação relacionada à Restauração Meiji.

Contudo, a prática seguiu e modificou-se no próprio Japão e depois em todo o mundo (leia nosso artigo “os muitos Shiatsus”), apesar das reivindicações deste ou daquele grupo de praticantes como “verdadeiros” ou “fundadores”.

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Arnaldo V. Carvalho, praticante de Shiatsu desde 1993, dedica-se à compreensão histórica do Shiatsu e suas origens, além da preservação de sua memória popular.

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