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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 5

Na parte anterior, aprendemos sobre a importância de ultrapassar o Eu, e como isso pode ser alcançado através do Shiatsu como atividade meditativa. Transpessoal(1), o Shiatsu revela, através de sua peculiar forma de contato, a história da vida na terra, da humanidade, do ser aqui-agora enquanto desdobramento de tudo o que existiu até hoje, passado de tudo o que existirá. No que se refere a seu papel no tempo-espaço, não é possível desconectá-lo a ideia de ancestralidade, profundamente arraigada na cultura espiritual do Japão.

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Botsudan com seus Ihais em destaque

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 5

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

Entre mestres, dinossauros e avós

A família Kakeya, de onde descende um de meus sobrinhos, possui mais de três dezenas de plaquinhas (ihai) com dados sobre as diferentes gerações familiares que passaram pela Terra. São mais de mil anos de ancestralidade observada através dessas placas, cuidadosamente abrigadas em um Botsudan (altar familiar) (2), ainda no Japão. Através dos ihai devota-se tempo, respeito, pede-se proteção, e uma parte importante dos propósitos da vida são finalmente compreendidos. Na espiritualidade japonesa, todos estão conectados às suas famílias formando uma rede de mútuo débito, criando-se um senso de servir a essa linha infinita de desdobramentos que se formou. A contrapartida a essa conexão é garantir o acesso aos talentos e capacidades (virtudes) dessa linhagem, lapidadas ao longo das gerações e oferecidas através do DNA. Por isso, aos descendentes, tal percepção não soa como obrigação, mas como um direito. Como disse o conhecido monge zen-budista (3) Thich Nhat Hanh, trata-se de uma “prática de olhar para o fundo de nós próprios para reconhecer a presença dos nossos antepassados em nós, em cada uma das nossas células”. A afirmação oferece um sentido de continuidade do outro, ou melhor, continuidade de uma linha infinita de existência de um no outro.

 

Esse é o mais complexo dos temas de nossa série, visto que a visibilidade das ações do Shiatsu calcadas nos valores ressaltados pelas tradições da cultura espiritual japonesa, até aqui, eram bastante claras, enquanto que, ao longo da prática terapêutica, o contato com mestres, a ancestralidade, a história da Vida na Terra aparenta ser imperceptível. Porém, assim como não se pode compreender a espiritualidade japonesa sem a noção de tais relacionamentos metafísicos, também não é possível perceber de onde surge a profunda sabedoria nos atos, movimentos, palavras e silêncios no momento em que se faz a prática do Shiatsu.

 

Diferente dos tópicos sobre os quais nos debruçamos nos artigos passados, a conexão com a ancestralidade não se faz diretamente: a contemplação, a meditação, a busca pelo essencial e puro são os instrumentos de evocação de tal religare. Assim, ao se manter o ritmo do Shiatsu, atinge-se o Shiatsu Meditativo, e une-se à Fonte. Nos portais do Puro, aguardam nossos entes queridos, que tendo ascensionado (budismo) ou retornado à natureza essencial (xintoísmo), nos servem de guias para a jornada de equilíbrio através do corpo.

 

Pressionar e remover, pressionar e remover, pressionar e remover…

Inspirar e expirar, inspirar e expirar, inspirar e expirar…

Expandir e recolher… Expandir e recolher… Expandir e recolher…

 

Costumo dizer aos meus alunos nipo-descendentes que para eles é mais fácil… Afinal, não precisam aprender Shiatsu, é só “lembrar”. O que lhes peço é que (re)estabeleçam essa ligação. Os que conseguem parecem automaticamente passar a “saber” Shiatsu como praticantes de longa data. Esse fenômeno é testemunhado por mim, por outros alunos, e percebido pelos próprios muitas vezes. “Lembrar” é refazer o laço com a rede ancestral, e com ela, a sabedoria acumulada por gerações estará operando durante o Shiatsu de quem o evoca.

 

Além do Eu

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Se voltarmos mais e mais no tempo, inevitavelmente transpassaremos os ciclos evolutivos e alcançaremos o ancestral comum a todos os humanos, e antes ainda,de todas as formas de vida na Terra.

 

Na filogênese do desenvolvimento humano (do embrião à postura bípede), revivemos essa história: como o surgimento da vida do planeta, a célula matriz (ovo) desenvolve-se na mãe em ambiente aquático-salinizado; a embriologia demonstra a formação do corpo passando por uma fase mórfica assemelhada a girinos e répteis; já no ambiente extra-uterino, o desenvolvimento motor sugere associação com a evolução animal, obedecendo a ordem de aparecimento dos diferentes esquemas locomotores (rastejante > quadrúpede > bípede).

 

Desse modo, a linha ancestral passa por toda a história da Vida, e nos convida à compreensão de nosso potencial cósmico, implicado no relacionamento inter-espécies, do Tempo e do Espaço, e enfim, na experiência além do Eu.

 

On

https://i2.wp.com/fudoshinkan.eu/wp-content/uploads/2014/10/Tenpeki-Tama%C3%AF.jpgA palavra “on” pode ser traduzida como “gratidão incomensurável” no Japonês. Essa infinitude se estende para além da linhagem familiar, e alcança os mestres de todos os saberes aos quais nos desenvolvemos ao longo da vida. Por isso, a crença zen Budista crê em uma “segunda ancestralidade”: uma espécie de conexão voluntária a um continuum energético específico. No caso deles, creem no Caminho do Buda, do qual todos os que ascenderam na terra fazem parte. Egrégoras específicas, portanto, podem ser acessadas através do mesmo sentido de afinidade / familiaridade com o qual nossa mente/espírito se enleia. Por exemplo, se estou alinhado com o Shiatsu, todos os que também estiveram no passado tornam-se meus ancestrais nessa corrente. Assim, e por isso mesmo, devemos prestar reverência a nossos mestres (nossos ancestrais recentes), aos propagadores do Shiatsu, e seus pioneiros.

 

Talvez por isso, não seja raro ouvirmos relatos de praticantes de Shiatsu – e eu mesmo já vivi essa experiência em consultório algumas vezes, de um cliente que em sua sessão comentou: “vi um chinês ali no canto da sala”, ou “fechei meus olhos e senti que era visto por orientais que me acalmavam, parecia que a medida que recebia o Shiatsu outras mãos trabalhavam em mim”. Fantasia ou percepção metafísica?

 

Sugerimos aqui ao praticante que, antes de iniciar um dia de prática, procure estabelecer tal conexão. Respirar e lembrar de cada um dos antepassados e mestres que reconhecidamente foram importantes para si e para a Egrégora do Shiatsu. O resgate à memória empodera o presente, renovando laços com a sabedoria acumulada por gerações. Na reverência à ancestralidade, pai, mãe e mestres são o Cosmos, são Deus.

 

***

NOTAS:

 

  1. Transpessoal é um termo usado na filosofia e na psicologia, para descrever experiências e percepções de mundo que ultrapassam a individualidade.
  2. Altares familiares são muito comuns nas casas japonesas (60% nas metrópoles e mais de 80% nas zonas rurais. Os do xintoísmo são chamados kamidana e os do budismo, botsudan. A função em ambas as tradições, entretanto, é basicamente a mesma
  3. O Zen é o budismo nascido no Japão. A história conta que deriva do C’han, corrente do budismo que recebeu na China as influências do Taoísmo. No Japão, sofre influências do Xintoísmo e assume sua forma final, Zen. Há muitas correntes de Zen Budismo, em todo o mundo, sendo as principais a Soto e a Rinzai.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

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