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O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 4

O Shiatsu e a cultura espiritual japonesa – Parte 4

Por Arnaldo V. Carvalho*

 

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A arte contemplativa de que tratamos na Parte 3 deste artigo é facilmente associada à  meditação. Quando praticado como meditação, o Shiatsu constrói uma relação com o Todo. Vejamos como este movimento de conexão espiritual ocorre na prática.

Toque-Meditação

 

Meditar: Mediar, criar um meio, uma interface entre eu e o Absoluto. A meditação(1) é o religare(2) que as diferentes correntes espirituais do oriente utilizam, e o principal instrumento de desidentificação do Eu individual.

 

A meditação é um movimento na direção do Não Eu,  o que é o mesmo que dizer Eu-Todo, ou ainda Todo-Eu. Da mesma forma, o Shiatsu é uma prática que exercita o não-Eu. O praticante gradualmente torna-se Eu-outro, Outro-eu, e depois Nós-Todo, Todo-nós, e por fim Todo. O que é isso?

 

  • Eu-outro é quando o íntimo do praticante percebe o que está ocorrendo na energia do outro.
  • Outro-eu é quando o íntimo do praticante percebe que, para o reequilíbrio do fluxo de energia do outro, me conecto a ele, me torno parte dele.
  • Nós-Todo é quando o íntimo do praticante percebe que uma energia única surge de todo encontro, a energia do nós, e ela tem um poder de conexão-acesso-percepção do todo em uma profundidade mais de duas vezes a individual.
  • Todo-Nós é quando o íntimo do praticante já não se identifica mais como eu. Pulsa no todo e é parte da Corrente Cósmica da Vida de uma forma não racional. A elevação espiritual ocorrida neste estado é profunda.
  • Todo é o que simplesmente é. Presente. Existência. O que realmente é. Como diziam os antigos vedas indianos: “Tu és Aquilo; tudo isto é Aquilo; E só Aquilo É”.

O processo de meditar pelo Shiatsu é, desse modo, singular e belíssimo, pois baseia-se na impossibilidade do religare na ausência de empatia, da capacidade de se conectar com o outro para que então possa vir o Todo.

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As muitas meditações estão no Shiatsu

 

Como o leitor deve saber, há muitas formas de meditar, que incluem buscar uma posição estática (sentado, deitado, em posição de lótus, voltado para uma parede, etc.) ou mesmo caminhar, movimentar o corpo livre, deixar-se levar por algum som (em geral monótono e constante).

 

Todas as “técnicas” são, na verdade, artifícios para que se atinja o mesmo resultado: O estado meditativo. Quando comparamos e analisamos as diferentes correntes de meditação, verificamos alguns aspectos ocorrem de forma mais frequente, e outros menos.

 

Por exemplo: se analisarmos as diferentes técnicas versus a posição corporal adotada, veremos que a meditação ocorre majoritariamente com a pessoa sentada. Isso ocorre por se tratar de uma posição confortável, repousante (diferente de em pé), mas não associada ao sono (deitado). O Shiatsu é feito com base no Seiza, a posição de joelhos mais adotada no oriente. Além disso, a maior parte das técnicas de meditação é realizada com os olhos fechados ou semicerrados. Essa é a postura ocular corrente na maior parte do trabalho de Shiatsu, quando este é executado com profundidade. O ritmo do toque, em Shiatsu, é outro elemento valioso no Shiatsu-Meditação, e é tão importante quanto forma de pressionar o corpo do interagente yin(3). A cadência do trabalho corporal, sua integração com as respirações dos envolvidos conduz ao aqui-agora e permite a imersão meditativa. O movimento do interagente yang é pendulante como o embalar de uma criança, ritmo que facilita a redução da frequência cerebral (o estado meditativo é verificado em frequências muito baixas).

 

Finalmente, damos conta de que quase todas os métodos meditativos passam por uma alteração do modo de respirar. A respiração do praticante de Shiatsu é profunda e, dependendo do estilo, recorre-se a um número de formas diferentes de inspirar e expirar.

 

Meditar através do toque é a “especialidade” do Shiatsu, e um de seus trunfos no conceber equilíbrio aos seus praticantes.

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Notas:

  1. Há diversas definições de meditação, que incluem refletir, esvaziar a mente, não pensar, conectar-se com o Cosmos. Para fins de compreensão deste texto, considere as diferentes possibilidades, pois todas são válidas.
  2. Religare é a palavra latina que dá origem à religião, e refere-se justamente a conectar novamente (re-ligar) com o Criador, Deus, Universo.
  3. Uma das maneiras de nos referirmos aos dois praticantes é como “interagente-yang” (aquele que se movimenta e pressiona com os dedos) e “interagente-yin” (aquele que entrega-se ao movimento e às pressões). Normalmente, o vocabulário utilizado passa por “terapeuta-cliente” ou “doador-receptor”, ou ainda “praticante-receptor”. Há muito vamos propagando a ideia de que o Shiatsu estabelece uma relação onde os dois são capazes de oferecer e receber, além de desenvolver um “Totem”: Uma terceira carga energética que nutre e é nutrida pelas cargas individuais.

 

Arnaldo V. Carvalho pratica Shiatsu desde 1993 e o ensina desde 1999. Dedica-se há mais de uma décadas a compreender as origens desta prática para além dos livros. É membro fundador da Associação Brasileira de Shiatsu – ABRASHI, autor do livro Shiatsu Emocional e de dezenas de artigos sobre o tema.

 

Leia o ensaio completo:

 

Leia também:

https://japaocaminhosessenciais.wordpress.com/2014/11/06/a-espiritualidade-japonesa-e-seus-tesouros/

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