Há onze anos, o Shiatsu Emocional e sua história estreavam em Salvador

Memórias do começo de tudo

Como surgiu o Shiatsu Emocional

Por Arnaldo V. Carvalho*

O assunto era Aromaterapia. A lista, criada pelo Aromaterapeuta virtuosi Fabián Lazló naquele momento era moderada por mim e por Alê Kali, braço de Fabián em Salvador, Bahia. Alê é terapeuta e artista, daquelas que demonstra com  acertividade que arte e cura talvez sejam indivisíveis. E uma de suas marcas é estar na vanguarda.

Eu era o velho sem forma que verborragiava informação diferenciada na lista, e isso a atraiu de alguma forma. As interrelações traçadas entre óleos essenciais e terapias orientais, entremeadas com cases de consultório e experiências que conduzia e divulgava na lista oxigenavam discussões e produziam mais saberes. Tantos nomes ativos dessa lista colaboravam e faziam parecer que finalmente a Aromaterapia amadureceria e se difundiria com uma cara profissional, embasada. Lá estavam o próprio Fabián, eu, Alê, Daniela Sim, Carmen e Ary Bon, Aghata, Mari Gemma, Suzy Belai, entre outros. Mas isso é história.

Criteriosa, Alê observou meu trabalho por algum tempo, até que decidiu que eu poderia colaborar com qualidade em seu espaço terapeutico. Mas ela queria mais, queria o tom das discussões que tínhamos no grupo, queria que o Shiatsu não só falasse de energia, queria que falasse das emoções. Mais: queria que fosse um Shiatsu das emoções.

– Queria que viesse dar um curso de Shiatsu, mas um Shiatsu Emocional!

Fiz de seu entusiasmo o meu. Reavaliei o curso de Shiatsu que já ministrava, sob bases bem tradicionais e um ou outro tempero de uma certa semente que lá habitava.

A Xamã Chamas e Cheiros misto de loja e espaço terapêutico comandada por Alê, era o grande nome baiano no que dizia respeito a óleos essenciais, plantas medicinais e também, terapias de vanguarda. Recebeu o curso em abril de 2004, e dessa turma me recordo com carinho dos vários alunos. Assim como todo baiano, o Shiatsu Emocional não nascia, estreava.

Foi preciso um tempo para que as inspirações ali surgidas ganhassem um corpo teórico sólido o bastante para ir na direção que hoje estamos. Naquele tempo, a proposta era apenas ensinar Shiatsu valorizando a visão emocional clássica dos meridianos, com um ou outro insight diferenciado. Uma primeira revolução estaria por vir, e dessa vez seria na Argentina.

Mercedes, Eiji

Havíamos nos conhecido no primeiro curso de Ohashiatsu no Rio de Janeiro, ministrado por meu querido mestre Marco Duarte. Mercedes foi uma colega preciosa na pequena turma: ela tinha o silencio de quem verdadeiramente ouve, o bom humor de quem não confunde seriedade com sisudez, e o brilho nos olhos de quem apaixona-se por tudo o que decide fazer. Já era uma pessoa experiente no Shiatsu, e havia passado por duas escolas com forte base Masunaga, o que fez o Ohashiatsu soar como um passo natural para ela. Tornamo-nos grande amigos e esse amor permanece, com a adição de uma gratidão imensa por tudo o que me fez crescer, em diversos momentos da vida. Se não fosse por ela, talvez o Shiatsu Emocional não tivesse tido fôlego para alcançar a vida própria que está alcançando.

Em viagem para Buenos Aires, pedi para aplicar Shiatsu em Mercedes. Fora do curso, seria a minha primeira oportunidade de “mostrar o que sabia”. Minha ideia era ser avaliado. Fiz o meu melhor, mas ao final, ela pareceu desapontada. Não deixou de elogiar a minha técnica e meus recursos, mas disse-me que não parecia legítimo. A vantagem é que também aprendo com a crítica. Aquilo doeu. Fiquei buscando que eu verdadeiro era esse em mim, e se ele não aparecia, que tipo de terapeuta de Shiatsu eu era. Certamente não era quem eu imaginava ser, quem eu gostava de achar que era.

Os dias passaram, e eu pude aprender muito com tudo o que vi e vivi na Argentina. Mas antes de passar a outros episódios marcantes, preciso ligar o que aconteceu com o que viria a ocorrer ao final da viagem, um episódio incidental me trouxe a resposta da Vida às minhas indagações. Mercedes machucou-se e chegou da rua com muita dor. Pedi para lhe fazer alguma forma de massagem. Não sei o que fiz. Não foi o Shiatsu como eu havia aprendido em diferentes escolas. Eu não buscava aprovação. Não buscava nada, apenas agia por instinto.

Ao terminar ela abriu os olhos e disse: “esse é o seu Shiatsu”.

Naquele momento, descobri que Amor é Instinto, e se nós o bloqueamos ao Outro, não podemos ser nós mesmos. E se isso não é possível, não podemos fazer Shiatsu, ser o Shiatsu.

O instinto me afastava de vaidade pessoal, preocupações técnicas, e me aproximava de quem eu era na essência. Faz parte de minha jornada como professor ajudar o aluno a descobrir seu próprio Shiatsu. Ele fará isso quando descobrir o Amor em si, e como permitir que flua.

Mas esse foi um dos pontos de aprendizagem que iriam fazer o Shiatsu Emocional adquirir outro tom a partir dessa viagem.

Mercedes me apresentou seu antigo professor, o mestre japonês Eiji. Foi uma oportunidade rara, o privilégio de conhecer um mestre japonês em sua espontaneidade, a sós, fora de sala de aula. Generoso, ele me recebeu a pedido dela. Ele me conduziu por seu centro de cursos e terapias,  até uma sala vazia e harmoniosa, ao estilo oriental.

Conversamos sobre a arte de ensinar Shiatsu. Em certo momento, ele abaixou sua cabeça, e após breve silêncio, me disse, entre pausas diversas, de quem ao mesmo tempo que verbalizava, buscava refletir sobre o que dizia:

– Há algo que nunca consegui ensinar… Por algum motivo estranho, quando eu toco… Eu sei o que a pessoa tem. Eu simplesmente sei. E não consigo ensinar isso -, lamentou.

Essa foi a parte da conversa que nortearia meu desafio de crescer como professor nos anos que se seguiram. Eu também sentia que podia perceber sobre as pessoas ao toca-las, muito além das teorias já escritas. E sabia que, se pudesse .transmitir essa habilidade aos meus alunos, estaria oferecendo um recurso extraordinário.

Já havia iniciado uma escrita que se se converteria no livro Shiatsu Emocional, publicado em 2007. Os esboços foram comigo. Tudo muito em sintonia com o que havia conseguido desenvolver do início de minha formação até o curso Shiatsu Emocional.

Na véspera de minha ida havia ocorrido a sessão de emergência em Mercedes. Na manhã seguinte, eu sentei e escrevi. Escrevi as principais ideias que dariam forma ao livro. E é por isso que nos agradecimentos se lê: “À Mercedes Avellaneda, onde tudo começou”.

Daniel Luz e a picaretagem

Uma passagem rápida e inesquecível deu-se através de uma confusão ocorrida na extinta rede social “Orkut”. Não éramos conhecidos. Uma pessoa perguntou na comunidade “Shiatsu Brasil”, idealizada e administrada pelo excelente profissional e pessoa Daniel Luz: “alguém aí sabe o que é Shiatsu emocional”?

Daniel não teve dúvidas: “Me soa picaretagem”.

Uma pessoa ligada a mim leu e me contou, eu fui lá, li a discussão, me indignei, me coloquei no lugar de todos, me des-indignei, e refleti sobre o que era o Shiatsu Emocional. Sabia que não era picaretagem, pelo contrário! Ao mesmo tempo eu mesmo não enxergava Shiatsu Emocional como um estilo de Shiatsu ou algo assim. Era apenas um curso que inspirara um livro.

Conversei por e-mail com Daniel, me apresentei, esclareci como eu pensava. Ele me leu, mas até hoje tenho dúvidas se ele mudou de ideia (risos). Fato: foi caldo para que eu começasse a me perguntar: “o que origina um estilo de Shiatsu”? O que faz com que uma nova terapia seja realmente nova? O que faz com que ela permaneça vinculada a sua origem, tornando-se um “estilo” ou “variação”? O que por outro lado a afasta demais, fazendo-o deixar de ser aquilo?

Para ser Shiatsu, uma terapia precisa estar alinhada com sua principal fundamentação teórica e linha prática. E assim seguimos: os meridianos, o yin-yang, a pressão com os dedos… O conhecimento comparado de várias técnicas nos permitia seguir aprofundando o conceito de Shiatsu e nortear a técnica a partir deste.

A medida que o Shiatsu Emocional amadurecia, incorporando novos aspectos, estivemos atentos para sua transformação, e percebemos o momento em que ele é diferente demais para ser “Shiatsu tradicional”, mas que era fiel demais a ele para não ser Shiatsu.

Não fosse a polêmica gerada no Shiatsu Brasil do Orkut, talvez essa clareza nunca tivesse ocorrido.

Reich, Sylvio

O primeiro a me falar de Wilhelm Reich foi um de seus poucos amigos verdadeiros. Seu nome era Alexander Sutherland Neill, um senão o educador mais importante da história. Em sua escola, não há diretividade, e sua ausência permitia que os alunos simplesmente fossem. E sendo simplesmente, descobriam-se como nenhum pai ou pedagogo jamais poderia estimular. A célebre frase “Gostaria antes de ver a escola produzir um varredor de ruas feliz do que um erudito neurótico”, presente em um de seus vários livros, marcou meu final de adolescência, quando descobri muito as minhas dificuldades comuns daquela época. Neill enxergava seus alunos como pessoas com vontades próprias, e as respeitava. Isso em geral os fazia ir bem além de ocuparem profissões mecânicas como varrer ruas, mas tornarem-se profissionais de alto destaque fosse a área que escolhessem. Se Malinovsky havia vencido a teoria do complexo de Édipo latente através de seu estudo entre os trobiendeses, Neill havia vencido a “alma caótica infantil” a ser modelada pela educação para seu próprio bem. E parte disso tem relação com o que li e conversava com Reich. Reich, pai das psicoterapias corporais. Reich, discípulo de Freud, mais um dos dissidentes da psicanálise. Reich, o louco que reintroduzia na psiquiatria a ideia de energia vital – o Orgon. Li Reich em Neill e depois li Reich em diversos autores de psicoterapia e psicoterapia corporal: Dutchwald, Gaiarsa, Roberto Freire, Pierrakos, Perls, Keleman, Schulz, Boadella, Raknes, e enfim nele mesmo. Compreendia apenas parcialmente seus escritos, compreendia apenas parcialmente seu mundo. Mas o bastante para conhecer sua teoria acerca da análise do caráter e suas couraças musculares. Eu considerava suas teorias uma descoberta fascinante, e enxergava correlações claras com as teorias da antiga medicina oriental. Investia no estudo comparado entre meridianos, couraças e chakras, e isso foi a grande base do livro. Mas ainda havia um algo mais, que não pode ser adquirido nos livros. Havia um mestre a conhecer, alguém que respirasse Reich. Foi quando conheci Sylvio Porto.

Porto fizera parte de uma geração de psicólogos que mergulhara junto, fundo, no mundo de Wilhelm Reich. No início dos anos de 1980 eles eram o CIO – Centro de Investigação Orgonômicas Wilhelm Reich. Muitas realizações ocorreram ali: a vinda de Federico Navarro (discípulo direto de Ola Raknes, um dos principais terapeutas reichianos, com quem inclusive Reich viveu uma relação transferencial) para oficinas, refizeram experiências executadas no passado pelo próprio Reich, traduziram textos, atenderam pessoas discutiram com calor a obra do gênio que fora o psiquiatra.

Entrei para uma de suas turmas de Massagem Reichiana em 2009. Para Sylvio Porto, a massagem é um veículo de mobilização de couraças, que pode auxiliar e ou anteceder a terapia reichiana propriamente dita. Ensinar esse curso é para ele um modo excelente de apresentar o pensamento ortodoxo reichiano, e distingui-lo do movimento neo-reichiano que altera muitas de suas ideias e prática.

Não parei no curso. Fui seu cliente. Estudei mais. Fui seu monitor. Colei nele. Um dia o Mestre Wu, da Sociedade Taoísta do Brasil, disse que era sempre muito bom estar perto dos mestres, que quanto mais se ficava, mesmo que sem palavras, mais se aprendia. Eu procurei respirar Sylvio para respirar um Reich mais puro do que o que havia encontrado nos livros e nas passagens por outros livros.

O Shiatsu e a Terapia Reichiana eram complementos um do outro, já não havia dúvida. Um corpo teórico mais sólido e revigorado surgiu e permitiu uma apresentação bem sucedida do Shiatsu Emocional, no XI Congresso de Psicoterapia Corporal, ocorrido em 2011 na cidade de Curitiba. Era uma questão de tempo para que o curso, que já havia crescido de 16 para 32H, ganhasse novos níveis de conhecimento, e uma metodologia ainda mais diferenciada, onde a etapa final se baseia na relação direta professor-aluno.

Em 2016, o Shiatsu Emocional tornou-se a principal formação da Escola de Shiatsu SHIEM, opera por vontade própria. Outros professores dão o curso. Outros profissionais atual com a mesma qualidade que eu, e até melhor, porque eles são eles mesmos, e talvez sejam ainda melhores.  Em breve, novas teorias e práticas começam a se desenhar, de minha parte e de outras pessoas, pois o Shiatsu Emocional não para de evoluir.

É uma satisfação muito grande relembrar os três primeiros grandes marcos formativos que orientaram os principais fundamentos do Shiatsu Emocional nesse momento.

Durante esses anos, nunca esqueci das pessoas, lugares e situações que fizeram amadurecer a trajetória do Shiatsu Emocional. E foram tantos que seria injusto anunciar aqui e correr o risco de deixar faltar alguém.

Vida longa e próspera ao Shiatsu Emocional!

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