Quantas horas deve ter um curso de Shiatsu? Os verdadeiros parâmetros na aprendizagem do Shiatsu

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Número de horas ideal é grave equívoco no que se refere ao aprendizado do Shiatsu

Por Arnaldo V. Carvalho

Nos círculos de discussão sobre a “boa formação” de Shiatsu no Brasil, pode-se perceber a insistência coletiva na na manutenção do modelo educacional padrão de nosso país. Os debatedores, embora com variada gama de opiniões, são praticamente unânimes ao pleitear para o ensino do Shiatsu um número de horas de sala de aula (quase sempre 1200 horas são consideradas “suficientes”).

Esse modelo, oriundo do ensino técnico brasileiro, é contudo obsoleto, e como em outros saberes, não se adequa ao Shiatsu. 

O aproveitamento das horas depende da infra-estrutura que cerca o curso, qualidade, dedicação e comprometimento do professor e do aluno, e das inter-relações de todos esses elementos. Uma hora de aula com o professor e o aluno excelentes e em sintonia rendem certamente mais do que cem horas com o professor e o aluno medíocre.

Saiba mais sobre a arte de aprender Shiatsu

Todos os educadores em essência sabem disso.

Ao interessado em aprender Shiatsu, é importante destacar que educação é um processo SUBJETIVO, e estabelecer horas ou provas com notas é um meio de dar a algo subjetivo uma aparência objetiva, a partir da qual se pode trabalhar com dados concretos e se determinar um “sim e não”, “pronto e não pronto”, aprovado e não aprovado”. Essa “máscara de objetividade” não incentiva a autonomia na aprendizagem, nem valoriza a inteligencia do aluno. Segue a velha educação diretiva A>B, preocupada com programar, não em fazer refletir.

Mas Shiatsu – em alto nível – não pode existir sem reflexão.

Não pode ser ensinado ao “modo objetivo”, pois isso o empobrece. Não é possível quantificar aprendizado de Shiatsu por um número pré-determinado de horas.  Fazendo parte de uma filosofia de aprendizado profundo e contínuo, o Shiatsu segue tornando-se um caminho, um modo de vida para seus praticantes.

Novos parâmetros de aprendizagem

Mas então como os formadores em Shiatsu podem gerar parâmetros de aprendizagem? E como os interessados em aprender podem analisar avaliar se um curso pode realmente leva-lo ao Shiatsu de alto nível?

A solução, para os agentes formadores (professores, escolas, etc.) deve ser a adoção de critérios diversificados, que incluem a subjetividade e visam perceber a maturidade do aluno-praticante acerca dos diversos temas inerentes à Terapia Shiatsu. Entre outras atitudes, os agentes devem pensar que certificado de participação não equivale a certificado de qualidade. E que provas escritas ou mesmo testes práticos nem sempre são o parâmetro ideal da avaliação. A avaliação objetiva não pode ser uma avaliação sábia, pois a sabedoria não é meramente objetiva, embora possa incluir objetividade.

O tema da avaliação em Shiatsu é um tema caríssimo, e se há uma avaliação sábia, ela requer tempo. Então um professor e um aluno em sua relação precisam de tempo. Tempo para se conhecerem um ao outro, de modo que o educere* se faça profundamente. Na Sabedoria, avaliação e autoavaliação dançarão juntas por anos, e reconhecer-se-ão uma a outra.

A formação precisa ter a possibilidade de continuidade, e uma vez alcançando o limite técnico disponível, deve permanecer oferecendo atualização e manutenção do que se aprendeu. Mais ainda, deve possibilitar uma sequência de desenvolvimento, que levará o aluno à pesquisa e à transversalidade com outros campos de saber. Finalmente, uma formação de qualidade deve investir no aprofundamento ético do praticante. É esse aprofundamento que o tornará uma pessoa melhor, e somente tornando-se melhor ele poderá ser um praticante verdadeiramente melhor.

Interessados em aprender Shiatsu por aí já começam a entender que um curso baseado em carga horária, que termine “e só” apresenta limitações. Mas há outros critérios simples a buscar na procura por um bom curso de Shiatsu, quando se pensa em alto nível.

Fique atento ao que a escola/professor te oferece

O número de pessoas por turma é um deles. É possível encontrar cursos baratos com trinta pessoas em uma turma. Mas não é possível que mesmo um bom professor ofereça grande qualidade de atenção a uma turma tão grande. Se participativa, as perguntas serão saciadas. Um direcionamento personalizado dos conteúdos de acordo com a heterogênea demanda será impossível. E as correções individualizadas durante as práticas serão deficientes. Para a aprendizagem de Shiatsu, turmas pequenas, entre oito e doze pessoas, são ideais. Turmas pequenas demais são igualmente um problema: o Shiatsu é uma terapia do Outro, é preciso que haja um grupo mínimo para haver a aprendizagem da escuta, a experiência do toque em diferentes tipos físicos e a lida com diferentes temperamentos. Sem um número mínimo, a amostragem tende a ser insuficiente.

Pouca gente se preocupa com o que o Shiatsu provoca em quem faz o Shiatsu, e isso não é uma questão para o interessado. Em geral, ele se preocupa com o efeito que acredita que irá causar no Outro. Mas sem a orientação correta, ele será mais um entre muitos que se afastarão do Shiatsu, que lhe provocará tendinites, dores nas costas, ou mesmo intoxicações energéticas (o leitor já deve ter ouvido falar da pessoa que se afirma ser “uma esponja” – esses são os que mais sofrem). Então uma pergunta que poderia ser feita ao professor/local de ensino de interesse seria: você me dará orientação postural para que eu não tenha problemas? você me dará orientação e suporte para que eu não venha a somatizar um conteúdo transferido do Outro para mim?

A preocupação com o número de horas em geral também não fará lembrar de uma dúvida que cerca muitos alunos após terminado um curso de Shiatsu: “será que já estou pronto”?, ou, embora mais raro: “será que aprendi tudo o que há para se aprender em se tratando de Shiatsu?”. A raridade desse segundo questionamento se deve ao fato de que os cursos em geral são “vendidos” como um produto acabado, quando o Shiatsu é fractal, desdobrando-se infinitamente em conhecimentos múltiplos. Para responder a primeira pergunta, é preciso ter um suporte pós-curso da parte da escola/professor, e quanto a segunda, iniciar o curso dizendo que não, não bastam aquelas horas seria no mínimo honesto, mas não o bastante. Porque a partir dessa conclusão, há que se apontar caminhos. Essa é uma das missões do professor/instituição de ensino.

Para mais do que as questões técnicas e éticas, existe o lado de quem quer ser um profissional de Shiatsu. É preciso avaliar se a escola  vai dar condições de um praticante galgar uma profissão não regulamentada no Brasil, como a Shiatsuterapia, criando plano estratégico, enfrentando as condições jurídicas e de mercado, sabendo conduzir-se de forma ética mas ao mesmo tempo que o permita crescer de forma firme.

É quase irresistível elencarmos itens que talvez pudessem simplesmente pudessem estar numa grade de conteúdos de um curso, fazendo parte do número total de horas. Entretanto, quanto mais esmiuçamos, mais nos afastamos do tema central do texto, de modo que agora é hora de retornarmos através de uma pergunta chave: se o número de horas de curso não é o mais importante, o que é então?

Naturalmente, não há uma resposta curta para uma questão que, apesar de parecer simples, é complexa como é complexo o ser humano.

Como seria bom conhecer o professor primeiro, observar sua paixão; Como seria útil observar se as horas que passarão juntos serão horas onde ele se dedica totalmente… Mas quase nunca isso é possível, e talvez deslocar a responsabilidade de aprender para o educador seja um desserviço a si próprio. A direção correta é a da autoeducação, como nos ensina Tomio Kikushi.

Assim, eu gostaria de perguntar ao leitor: o que você pretenderá fazer com as horas que passará com seu professor e colegas? Com que atitude interna entrará no curso, e o que fará a cada dia após sair da sala de aula? Que perguntas pretenderá fazer ao professor, e que perguntas fará a si mesmo? Se você levar a sério tais questões, talvez mesmo um curso “fraco” seja ótimo. Este texto, então, deixará de ser necessário, e ao mesmo tempo cumprirá sua função. Como já diz o provérbio oriental, “o orador pode ser tolo se o ouvinte for sábio”.

*  *  *

* Educere: trazer para fora, em latim

* Arnaldo V. Carvalho é pai, educador, praticante de Shiatsu desde 1993, membro da Associação Brasileira de Shiatsu e autor do livro Shiatsu Emocional.

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