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Shiatsu e participação política

Shiatsu e participação política

 

Por Arnaldo V. Carvalho*

Pouco antes da crise política brasileira chegar ao ponto onde se encontra, um certo grupo cobrava isenção política da parte das instituições de ensino e seus profissionais (através do projeto de lei “escola sem partido”).

Apartar uma pessoa, classe profissional ou instituição de qualquer natureza da reflexão, debate e posicionamento político é, ao modo de ver terapêutico, ato de esquizofrenização, que faria Laing (1927-1982), nesse momento, mais uma vez denunciar que a sociedade “enlouquece” seus indivíduos. Mais ainda, os posiciona de forma a manter um estranho equilíbrio social, onde uns sofrem para a prosperidade de outros. A denúncia da sociedade louca-enlouquecedora, no entanto, não é exclusivamente de um só homem. Ela também surge entre os pensadores orientais contemporâneos. Tomio Kikushi (1926-), um dos grandes nomes do pensamento oriental aborda esse conceito em suas palestras e livros, e aponta a auto-educação como forma de vencer essa estrutura viciada, desigual e destrutiva.

As características da auto-educação preconizadas por Kikuchi são as mesmas do Shiatsu – as mesmas oriundas de antigas e profundas reflexões ocorridas no Japão através do tempo. Para um avanço real, a sociedade precisa oferecer a seus indivíduos a possibilidade de refletir, pois somente o ser humano dotado desta capacidade participa de forma consciente dos processos sociais.

Sendo uma terapia calcada no equilíbrio do eu e do outro, a partir do contato corporal, as reflexões ocorrem no âmbito relacional e ensina seus praticantes sobre a vida coletiva. Sua prática, toda a vez que acontece, cria espaço para a expressão e reflexão. E assim, os praticantes têm, a cada sessão, a oportunidade de relembrar dos pilares filosóficos fundamentais do Shiatsu.

O que é aplicado em uma sessão de Shiatsu, e direciona-se ao Eu-Outro, serve igualmente para a aplicação no dia a dia, na interação com a sociedade, no exercer da cidadania. E essa é uma chave fundamental no próprio ato terapêutico, visto que não se pode agir pelo indivíduo dissociando-o do universo que o cerca. Sim, a constatação de que não se pode agir plenamente pelo indivíduo se não se busca agir em sua coletividade é impele qualquer terapeuta de excelência à uma vida sociopolítica ativa.

No momento que o Brasil atravessa, é de suma importância que os praticantes de Shiatsu, e suas variadas correntes e organizações coletivas possam, neste momento, estarem muito atentos às nuances de sabedoria supracitadas, transmitidas desde a primeira aula nas boas escolas.

Vale detalhar que a aprendizagem do Shiatsu dissemina valores como disciplina, atenção plena, e aprendizagem permanente. Como uma verdadeira arte de cura, têm em sua essência a cultura de paz, a anti-guerra, a comunicação não violenta, o caminho do meio.

Assim, um praticante de Shiatsu precisa saber escutar. Precisa estar atento às incoerências e divisões do Outro – seja seu atendido, seja a sociedade. Não há uma verdade a se revelar, mas um conjunto de óticas. A boa ação do praticante é de retornar ao atendido, ou a sociedade, o resultado de sua percepção do Todo. Para alcançar um painel mais próximo do Todo (único detentor da Verdade), deve haver um interesse investigativo e capacidade reflexiva. Para efetuar esse retorno, deve ter mente serena, comunicação clara, firmemente calcada na mente tranquila. Apenas a mente tranquila consegue ir próximo do Todo.

A linha do tempo de aprendizagem do Shiatsu é permanente, e da mesma forma é permanente o caminho que nos leva a consciência do todo, dos mecanismos sociais, das implicações em curto, médio e longo prazo sobre os indivíduos. Se compreender o Shiatsu a sociedade são igualmente passíveis de um aprendizado para toda a vida, então a humildade deve guiar nossas afirmações. Se percebemos que há um desequilíbrio em um meridiano, precisamos ir em busca da origem desse desequilíbrio. Fará parte de um padrão estabelecido no nascimento? É apenas a ponta de um iceberg energético onde muitas outras forças se chocam internamente? Ou será que é um apelo do corpo para ser ouvido em relação a uma determinada atitude que não se toma? Em Shiatsu, consideramos que o que está na superfície, ou seja, o problema aparente é apenas uma pequena parte de um Todo muito mais complexo. Analogamente, se afirmamos que um determinado ato político é condenável, precisamos perceber profundamente o que estamos dizendo. Foram consideradas as diferentes variáveis? Aquele que afirma tem consistência no que está dizendo, ou seja, está próximo o suficiente para perceber o problema em sua totalidade? Têm noção das diferentes consequências do que afirma, e do que pode ocorrer nas diferentes escolhas que a sociedade faz? É preciso respirar fundo. Não há espaço para a desarmonia, pois toda exaltação cardíaca lesa a consciência. E sem ela, não podemos ser bons cidadãos ou bons Shiatsuterapeutas.

Finalmente, o Shiatsu, em sua essência de levar ao equilíbrio natural, é uma prática do Caminho do Meio. Só se chega ao meio quando se conhece os extremos, quando eles dialogam, quando a mente – ou a sociedade – pode refletir sobre as polaridades e o que cada uma está reivindicando. O diálogo banhado de sinceridade e desejo de integração é a única maneira de salvarmos as relações humanas em nossa sociedade.

Que o Caminho do Meio, alcançável pela prática profunda do Shiatsu, possa ser trilhado por todos os brasileiros nesse momento difícil.

Arnaldo V. Carvalho

 

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  • Arnaldo V. Carvalho, praticante e professor de Shiatsu, autor do livro Shiatsu Emocional, membro da Associação Brasileira de Shiatsu.
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2 opiniões sobre “Shiatsu e participação política”

  1. Não é´por acaso que as pessoas começam a se interessar pela EMPATIA. Colocar-se no lugar do outro para entender com maior profundidade o que ela realmente está sentindo, e como podemos ajudá-la. Ser SIMPÁTICO pode ser agradável mas não nos coloca no lugar do outro para percebê-lo. Ser EMPÁTICO é muito mais mais comprometedor porque pode envolver sua participação efetiva no processo de relação humana. A participação política, conforme ressaltado, exige um posicionamento que não aceita simplesmente ficar em cima do muro como expectador. No entanto, a linha do meio nos leva a uma reflexão sobre as razões das partes (o nome partido significa que não há uma boa vontade para compreender o todo, mas somente uma determinada parte). No shiatsu precisamos compreender que tudo está ligado, embora possamos nos deter num determinado segmento eventual ou momentaneamente. Essa visão maior nos dá a sensação de participação partilhada, não sendo radical nem autoritária. E assim ao cuidar dos outros vamos cuidado de nós também sabendo que estamos ligados por uma trama invisível que a todos envolve. Se desejamos o bem, ele também passará por nós como uma energia saudável e revigorante.

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