A mediocridade humana compromete o Shiatsu – Parte 3: Compradores de certificados

Compradores de Certificados

Quando os mecanismos do Ego sobrepujam a vontade de aprender

Por Arnaldo V. Carvalho

 Existe todo tipo de aluno, e um professor sabe que, do total de pessoas que frequentarão suas aulas, apenas um pequeno número conseguirá se dedicar ao tema pelo qual ele, a priori, é apaixonado. Isso independe da vontade do professor; Por mais que ele tenha facilidade transmitir conteúdos e facilitar a reflexão de seu aluno; por mais que ele contagie com seu interesse ante ao tema; ainda assim, é o que acontece. As razões são inúmeras, e vão desde a formação para aprendizado da pessoa, passando pela afinidade pelo tema, possíveis habilidades inatas, capacidade de concentração, momento de vida, etc. O tipo de linguagem utilizada, a didática, o acompanhamento ao longo e no pós-curso, etc., são também motivos importantes para que o aprofundar-se em dado conhecimento sempre seja afunilado.

Neste artigo, vamos focar sobre um tipo particular de aluno, que não necessariamente tem problemas de dispersão, nem exatamente está ali para aprender. Este aluno deseja mostrar ao mundo que passou pelo funil, tenha ele feito jus ao feito ou não.

Estamos falando do “caçador de certificados”, um aluno que tem como finalidade de curso ostentar suas formações em paredes, em currículos, mostrando “o quanto sabe”. Muitos por puro ego, outros simplesmente porque estimam uma remuneração melhor a partir da obtenção de um diploma. Infelizmente, o sistema educacional padrão está infestado desses caçadores, que contaminam as turmas no período formativo e inundam o mercado de trabalho de incompetência; e não há uma previsão otimista que aponte perspectivas de mudança nesse quadro.

Embora não seja regra, alguns desses alunos são facilmente identificados: O caçador de certificados por vezes responde muito bem às aulas; demonstra empolgação, sorri ao professor com frequência (e muitas vezes com artificialidade), mas dificilmente faz perguntas (a menos que junto com o ímpeto do diploma exista um “medidor de forças”, que deseja comprovar que o professor/curso realmente é “complexo o suficiente” para que ele use isso lá fora). Tão logo recebe o certificado, ignora a existência da instituição, desinteressa-se por qualquer aprofundamento, e o pior: ignora sua própria ignorância a respeito do tema. Não importa se é uma graduação em ensino superior ou um curso livre, mesmo o bom aluno que se forma ainda é bastante ignorante, frente ao universo de entendimento, percepção, experiência e conhecimento que há para conquistar. O caçador de certificados após alguns anos desconhece qualquer movimento feito em sua escola de origem, e o mais comum é que não absorva o essencial da formação – a sabedoria por trás dos conteúdos. Muitos permanecem inseguros – e em suas entranhas sabem disso.

As instituições, infelizmente, alimentam continuamente o processo. Sujeitas a uma mentalidade capitalista, transformam conhecimento em produto rápido, fácil e barato, e tratam seus alunos como mera massa de consumidores. Sabem que “o freguês tem sempre razão”, e como não querem perder, são permissivas em suas avaliações, pouco intuitivas ou user friendly em relação a suas capacidades pedagógicas, despersonalistas, com número obtuso de aulnos, etc. Mas ao final das contas, não temos dúvida, o mérito de ser bom no que faz sempre coube muito mais ao aluno do que a uma instituição. Presos aos modelos de ensino nascidos na escolástica medieval, a instituição está a mercê do sistema onde se não aprova o maior percentual de alunos, estará mostrando incompetência ao ensinar; Se aprova a todos, sabe que estará deixando passar pessoas desqualificadas. A instituição comum tenta documentar progresso através de provas escritas, que notadamente não são formuladas de modo capturar o que a pessoa sabe, seu know-how e principalmente qual a capacidade de elaboração em torno do objeto de estudo.

Converse com um professor de uma escola, curso ou universidade, e você ouvirá muitas histórias tristes a esse respeito. Hoje temos alunos que mal sabem ler e escrever no ensino superior, e não estamos falando de gente na situação da “inclusão social”; Temos pessoas que lá estão para as famílias dizerem ao mundo: “vejam, ela é esquizofrênica mas tirou o curso com muito esforço”. Esforço e um belo empurrão da faculdade, que chega por (muitas) vezes a ser de fato ameaçadas pelos alunos e seus familiares, de “perseguição”, “discriminação” etc. Não ter qualificação intelectual, formativa, educacional agora tornou-se “perseguição”.

A escola vem aceitando nivelar-se por baixo, porque seu aluno hoje encontra-se amplamente incapacitado. É dever da escola tornar um indivíduo apto a aprender, estimulado ao conhecimento? A escola, meus caros, é o segundo degrau. O primeiro é a família. As famílias não leem, e se leem não interagem sobre o que leem. As famílias tem pouquíssimo tempo para passar juntas, e pouquíssimo estímulo para conhecer, refletir, criticar e em especial, construir a partir do que se aprende.

Quando se trata do ensino de Shiatsu, as coisas não são diferentes. A mediocridade contamina todos os setores da sociedade. É a fulana que entrou no curso porque acha que uma sessão é cara e por tanto a profissão aparentemente é bem paga. É o ciclano que optou pelo curso x, fraquérrimo, mas que tem “certificado MEC” (que no caso de nossa profissão não oferece vantagens); É a beltrana que achou bonito dizer que fez o curso “com professor tal” ou “na escola tal”.

Claro que há um tipo de caçador inconsciente. Talvez seja até maioria. São pessoas que fazem mil cursos, mas não se aprofundam em nenhum. Eles simplesmente, “vão fazendo”. Os conhecimentos, todos fascinantes, lhes atraem. Ante a vasta oferta do mercado, ficam tão perdidos como crianças numa imensa loja de brinquedos. Essa é uma armadilha curiosa, que “sem querer” constitui uma multidão inteira de gente. Aqui, temos de fato em um labirinto humano, mental, com muita indecisão e pouca solidez interna – o que o atrasará muito em sua caminhada rumo a atividade profissional de excelência.

Aqui em ShiEm não há espaço para essas pessoas. Caçamos os caçadores de certificados já no primeiro curso, e de maneira muito simples e pacífica. O que oferecemos ao longo do processo é DE FATO uma FORMAÇÃO, e não uma certificação. Nosso certificado é de curso livre, justamente para que as pessoas nos procurem somente pela vontade de aprender. Somos satisfeitos em perceber que, após tantos anos de trabalho, um certificado com nossa assinatura possui ótima reputação e representa no mitier do Shiatsu brasileiro uma formação focada na qualidade.

Em nossa Escola de Shiatsu, só há um curso liberado para todos fazerem: o ciclo básico de Shiatsu – em que se recebe um certificado de participação. Só. Para avançar aos outros ciclos (níveis), somente demonstrando total familiaridade com os fundamentos do ciclo anterior. Não utilizamos sistemas de provas ou notas: As turmas são pequenas e as avaliações feitas de pessoa para pessoa, de forma 100% personalizada. Não há uma “média” para passar. Ou a pessoa realmente apreendeu o necessário ou precisará retomar os estudos (reciclagens e estudos online gratuitos são oferecidos por esse motivo). E ao mesmo tempo, damos a todos a oportunidade de começar do começo e desenvolverem-se em seus próprios ritmos. Só depende de cada um.

Torcemos que os que nos leem, investiguem-se, vençam orgulhos, superem eventuais sintomas de normose, e saiam do ciclo dos mil cursos que serão esquecidos em meio a uma coleção de experiências, em alguma prateleira difícil de alcançar. Isso os tornará pessoas melhores para vocês mesmos, e lhe colocarão na rota de transformação do Shiatsu (ou qualquer outra atividade profissional) em mera prática ou técnica para uma verdadeira Terapia.

*   *   *

Arnaldo V. Carvalho estuda Shiatsu há vinte anos. Autor do livro Shiatsu Emocional, membro-fundador da ABRASHI – Associação Brasileira de Shiatsu, membro do SINDACTA – Sindicato de Acupuntura e Terapias Afins do Rio de Janeiro, diretor da Escola de Shiatsu SHIEM conta com uma experiência de mais de vinte anos com o Shiatsu, tendo aprendido uma diversidade de estilos diferentes.

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