Shiatsu NÃO é ligado diretamente à Medicina Tradicional Chinesa!

Origem do Shiatsu e parte de seus preceitos confunde praticantes

Por Arnaldo V. Carvalho*

Um dos equívocos comuns dos praticantes de Shiatsu no Brasil – inclusive de professores da técnica – é o crédito que dão a Medicina Tradicional Chinesa como origem da existência do Shiatsu. É  claro que parte do que colocamos sob o selo de “Medicina Tradicional Chinesa” participa da racionalidade oriental que influenciará a cultura asiática como um todo, inclusive a japonesa e suas tradições de cura.

Sim, no Shiatsu encontram-se várias práticas encontradas no continente (onde se situa a China): As teorias dos Meridianos, do yin-yang, dos Cinco Elementos. O que temos aí é uma racionalidade que percorreu como vento todo o Oriente, influenciando em todos os campos do saber humano: política, religião, artes, medicina. Sua propagação ocorreu em um tempo em que não havia China, Japão, ou qualquer outro país – não havia a formação do estado moderno tal qual conhecemos hoje. Como nos demais lugares, essa visão sobre a vida, seu equilíbrio e desequilíbrio temperou os próprios sabores e cores do Japão.

As terras japonesas, isoladas antes pela dificuldade de acesso, e depois pelas políticas locais, puderam fermentar lentamente  esses saberes com suas próprias crenças, incluindo as que constituirão as noções espirituais típicas do Xintoísmo, bem como o entendimento taoista particular do japonês, que em franco intercâmbio com o budismo origina nesse país o Zen*.  A maneira de perceber a o ciclo da vida, sua natureza, manifestações, implicações, e controle, tornava-se única, e gerava lastro para as particularidades mais conhecidas dessa cultura, como o Bushidô (código de ética samurai), o teatro kabuki, entre outros.

Por uma situação curiosa e particular do Brasil, os elementos de vínculo entre acupuntura, Shiatsu e as teorias da MTC criaram entre profissionais e praticantes das terapias orientais o senso comum  de que a prática de Shiatsu seria indissociável dessa sino-medicina. Poucos têm conhecimento de que, no Japão, as teorias e ferramentas da MTC praticamente inexistem entre a larga maioria dos praticantes de Shiatsu. Em sua maneira de trabalhar, eles utilizam muitos pontos-chave (mais de 600!) a serem pressionados pelo corpo e executam um trabalho preciso e funcional. A prática ocorre sem qualquer noção de Meridianos, Cinco Elementos, e qualquer outra teoria da atribuída a MTC.

O fenômeno ocorre por uma combinação de fatores, entre eles:

– A cultura japonesa tem seu próprio olhar sobre a energia, a vida e suas maneiras de ligar com a realidade há muitos séculos.

– O ranço criado entre chineses e japoneses na época em que surgiu o Shiatsu (o Japão nos tempos próximos aos da I Guerra Mundial expandiu seu império imensamente e tomou largas fatias do território chinês, em ocupação sangrenta e muito cruel).

– A proibição das práticas de saúde orientais por parte do governo provisório ordenado pelos EUA no pós-guerra.

– A ascensão profissional de Tokujiro Namikoshi, terapeuta de características muito específicas com sua escola que não utilizava MTC, e seu reconhecimento como escola oficial diante do governo japonês.

De outro lado, a ilusão do Shiatsu estar vinculado em primeira mão com a MTC, especialmente no Brasil, tem suas razões de ser. A primeira porque a prática mais desvinculada a MTC restringiu-se mais às colônias japonesas e suas práticas familiares. Segundo porque boa parte das publicações de Shiatsu são de apelo popular, mais vendáveis, e isso favorecia a divulgação de um Shiatsu suave, tendo sido o título “Zen Shiatsu”, que ensinava os fundamentos do estilo de Masunaga, o primeiro best-seller sobre o assunto nos EUA e devidamente importado pelo mercado editorial do Brasil. Masunaga empregava o conhecimento dos meridianos, do yin-yang e dos elementos, sem deixar de incorporar elementos tipicamente japoneses, como a noção do Hara e o trabalho baseado em kyo-jitsu. Terceiro, os cursos de Shiatsu se estruturaram a partir de professores dominantes da MTC, normalmente vinculados ao taoísmo, ao zen budismo ou a prática de artes marciais, além da acupuntura. Com o mercado estruturado, o Shiatsu fora dessa linha nunca conseguiu penetração em nosso país, em contraste ao que ocorre na Europa e América do Norte, onde escolas como a de Namikoshi possuem uma base de praticantes bastante ampla, um mercado consolidado e que divide a prática do Shiatsu em dois eixos nesses lugares: com ou sem MTC.

Nos países onde o Shiatsu mais cresce, parece haver espaço para muitas maneiras de se fazer Shiatsu, e o diálogo entre as diferentes técnicas evolui, promovendo fusões e o surgimento de novas escolas e estilos. O Brasil esbarra em seu conservadorismo e a má informação de parte do corpo formador, o que demonstra que temos um longo caminho adiante para fazer do Shiatsu uma técnica avançada em nosso país.

*    *    *

Arnaldo V. Carvalho é pedagogo e pratica Shiatsu desde 1994. É autor do livro Shiatsu Emocional, membro da Associação Brasileira de Shiatsu (ABRASHI) e professor convidado a dar aulas em diversas cidades do Brasil e do mundo.

* Até então era conhecido como T’chan, um braço do budismo tomado emprestado do continente, e este tendo recebido o budismo de terras ainda mais distantes, índias que sequer sonhavam em mover toda uma história de globalização da qual nosso tempo é apenas etapa transitória.

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