Caminhos do Shiatsu: As Escolas Essenciais do Cipreste e do Capim

Caminhos do Shiatsu

As Escolas Essenciais do Cipreste e do Capim

 

capim_cipreste

Por Arnaldo V. Carvalho*

Um dos orgulhos de meu mestre Marco Duarte é de ter feito apenas uma escola de Shiatsu – e ido fundo nela. Prof. Marco estudou Ohashiatsu na Itália e na sede do Instituto Ohashi em Nova Iorque, com o criador do estilo. Efetuou todos os níveis de treinamento dessa escola, inclusive o que o habilitou a ser professor, e praticou muito, muito, muito. O Ohashiatsu é uma escola com metodologia e conteúdo fechado, completa, que se basta em si mesma para o propósito a que se propõe. Simples. Reto. Belo. O Caminho Profundo do Cipreste1.

Mas há aqueles, que por um ou outro motivo, acabam estudando em mais de uma escola, com mais de um professor, em mais de um estilo. Esse é o caminho da diversidade, tomado intencionalmente por uns e ao acaso em outros. São seus adeptos como os antigos Ronins, “samurais desgarrados”, a perambular pelo Japão a oferecer os serviços de sua espada. Em suas andanças, aprendem a reconhecer e utilizar uma diversificada gama de técnicas, e esse contato com muitas culturas de cura dentro e fora do Shiatsu torna esse praticante conhecedor amplo, aparentemente versátil, mas muitas vezes raso ou confuso com a soma de seus recursos. Esse é o Caminho Ramificado do Capim.

Para os adeptos do Caminho Profundo, será no entendimento harmônico das lições do mestre, e na perfeição do movimento, treinado exaustivamente pelo praticante atento e dedicado que reside o Shiatsu de excelência. É como obter a maestria do Chanoyu, a Cerimônia do Chá.2 Porém, todo caminho tem seus riscos. O Cipreste cresce de forma lenta, e é mais inflexível. Pode correr o risco de achar que por ser mais alto que os demais, somente ele recebe a luz do Sol. Em clima adverso, pode ser que não vingue.

O Caminho Ramificado não é menos exigente. E certamente, também cheio de ilusões. Cada curso, uma curta e frágil irradiação da raiz do capim. Isso exige muito do noviço. Estar sempre aberto a aprendizagem é mais difícil do que parece. Mil atenções diferentes, mil memórias distintas movem uma quantidade de energia quase sempre estafante. A abertura, a disponibilidade, a capacidade de observar e a disposição serão virtudes essenciais para um bom trilhar. A humildade também: o caminhante se desenvolve com aquilo que o cerca, se nutre de toda e qualquer poeira, tal qual o capim. Faz cursos, conhece professores, mas aprende também através de observar atentamente o seu entorno. Precisará falar menos do que seus impulsos saltitantes fariam, se quiser sobreviver. Nesse Caminho, vê-se pessoas que fizeram cursos (bons inclusive!) a vida inteira e usam muito menos do que foram atrás para aprender. As razões sobre um investir de tempo e dinheiro na eterna busca que não se conclui de modo algum devem ser interpretadas como um exercício de curiosidade. Dentre as razões do Capim, pode haver falta de confiança em si ou no que já havia aprendido. E ainda, a influência da propaganda dos colegas, da sociedade, a atração por recursos terapêuticos de rápida resolução.

A busca de respostas

Raízes profundas, mas que se limitam a pequeno terreno; raízes que se abrem ao largo mas permanecem rasas. Afinal, que caminho seguir? A perfeição do treinamento profundo em uma determinada técnica, ou a ampla oportunidade de aprender de forma aberta e diversificada? O treinamento intenso de um modelo concedido ou a busca pela espontaneidade valorosa?

Estamos tratando de uma questão extremamente individual, cuja resposta impõe novas perguntas:

– A que me proponho ao me tornar um terapeuta? Aquilo que aprendi atende a minha proposta em todos os sentidos mais profundos?

Se o objetivo do praticante é atender o maior número possível de pessoas, problemas, etc., possivelmente ingressou no Caminho do Capim. Se por outro lado, ele deseja apenas atender casos específicos, pessoas específicas, e adotar um regime de trabalho profundo e de longo prazo com elas, então essa pessoa pertence ao Caminho do Cipreste. Ambas as afirmações, todavia, pouco concluem. A reflexão intensa acerca das indagações acima propostas e tantas outras que certamente surgirão trazem a oportunidade de que se acendam lanternas em direção a um ou outro caminho.

A interdependência e a inter-geração

A natureza apenas vence o deserto através da raiz radiculosa do capim. Não se pode trazer vida das profundezas à superfície ou oferecer sombra sem grandes árvores, como o Cipreste, capaz de tirar as almas das profundezas e leva-las diretamente aos céus. A floresta depende de ambos para ser floresta.

Toda Vida encontra meios para se desenvolver de acordo com sua característica. Cabe a cada um situar-se onde considera seu ponto de inserção no solo da Vida, e por onde se desenvolverá. A Vida depende da combinação das características dos diferentes seres humanos. E assim é com o Shiatsu e seus distintos praticantes.

O fluxo de aprendizado do Capim e do Cipreste e as características de seus praticantes

Mesmo antes de se saber da existência do Shiatsu, o Ki3 individual segue sintonizado a uma linha de conduta pela vida – os Caminhos do Capim e do Cipreste são abstrações observáveis em todos os seres humanos. Então, quando se toma contato com o Shiatsu, cada um irá se afinar naturalmente com uma escola, professor ou instituição com aptidão para dar suporte ao desenvolvimento da pessoa dentro de seu Caminho. Assim, para além da ideia de escola como instituição de ensino, a Escola a que nos referimos aqui é um modelo de afinidade na relação orientador-orientado. Ambos estão por afinidade ligados a uma Escola Essencial de Shiatsu. Elas têm como missão desenvolver a a forma com que a alma humana a se traduz para o mundo externo, na forma de movimento terapêutico. O movimento humano é seu próprio pulsar; quanto mais se integra a alma ao corpo, melhor será sua atuação. As escolas são ligadas ao Caminho do Cipreste, do Capim ou mistas.

Sob esse prisma, há quatro Escolas Essenciais:

Cipreste-Cipreste

Os alunos entram para trilhar uma só escola, e se instrumentalizam para as questões profundas. Desejam conhecer o próprio âmago, e de certa maneira, observam na dificuldade de encontrar ou entrar numa escola dessas, um ponto de exclusividade necessária. Nessas escolas, o Shiatsu é frequentemente associado à reclusão, a uma maneira monástica de conduzir a vida pessoal e profissional. Essas escolas não costumam oferecer papéis (certificados, etc.), porque não são necessariamente preocupadas com isso. Quase sempre contam com um ou pouquíssimos professores, notórios e metódicos, e o relacionamento Mestre-Discípulo é quase sempre adotado. É profundo, oferece elevação de alma, mas ao mesmo tempo é um caminho muito lento e solitário, mesmo que se passe em grupo. Os conflitos existenciais podem ser fazer presentes quando o Cipreste-Cipreste não está em equilíbrio.

O terapeuta da escola Cipreste-Cipreste atende seleto grupo de pessoas, identificadas com seus princípios.

O Metal é o regente do Cipreste-Cipreste.

Cipreste-Capim

Seus alunos buscam trilhar uma só escola, cuja imagem seja a que “é séria, cumpra os protocolos, tenha diploma reconhecido, tenha “boa reputação”, e se instrumentalizam para questões superficiais. Escolas com muitos professores, rígidas em método, e que oferecem pouco espaço para inovações. Exigem grande dose de conhecimento, que serão aplicados com a espera de respostas imediatistas, focando questões ortopédicas ou frugalmente comportamentais.

Há certa atração por associar a terapias como a quiroprática, a reflexologia e o EMF, bem como a literatura de autoajuda. São terapeutas altamente populares, pois tem o respaldo, o reconhecimento que se faz ver de longe da profundidade e altura do cipreste.

Atende grande número de pessoas, com grande sucesso e popularidade. Seus clientes, om frequência, querem resolver suas questões pelas correções superficiais. Por vezes incorrem ao erro da diretividade, com atitudes manipuladoras em relação aos seus clientes. Sofrem grande desgaste no embate profundo com “o que está errado”, o que lhe molesta as articulações.

Os praticantes Cipreste-Capim são guiados pelo elemento Madeira.

Capim-Capim

O capim se expande rapidamente, e se detém aos trabalhos mais corriqueiros. Escolas de pessoas que fazem muitos mini-workshops, se dedicam pouco ou quase nada a teoria, a compreensão profunda; querem técnicas, “pegar e fazer”. Conhecem muitos pontos e fórmulas e “receitas de alívio rápido”. Gostam de impressionar, dificilmente arriscam em tratamentos mais complexos, nem tentam ir fundo em nada. Frequentemente refletem isso neles mesmos, descuidando de seu próprio Chi, de seu corpo, desconectando-se de sua própria história.

O Capim-Capim atende gente de todo o tipo, bastante gente, de todos os padrões. É comum atuarem em projetos de clínica popular, em casas destinadas ao trabalho anti-stress, etc.

O elemento chave do Capim-Capim é a Terra.

Capim-Cipreste

Expande-se rapidamente, mas converge os conhecimentos para questões mais profundas. Está sempre em contato com muitos estilos e escolas, e talvez não se encaixe bem em nenhuma delas. Pode ser centralizador e autoexigente demais. Transmite ideia de profundidade aos seus clientes, porém por vezes é inseguro ou mesmo falha na eleição do melhor recurso num dado momento.

Pode oscilar entre atender muito ou pouco; quase sempre consegue atender com profundidade bastante gente e por um tempo bem maior que o capim capim. Seus tratamentos são para a Alma como Cipreste-Cipreste, mas sua raiz sendo mais rasa, cansa-se mais fácil, tornando-o frágil; isso leva o Capim-Cipreste ao adoecimento ou mudanças de localidade, técnicas e clientes, quando não acaba por abandonar o Shiatsu – o que levará seu espírito a repetir o processo com muitas outras atividades, ao longo da vida.

A Água é o elemento chave do Capim-Cipreste.

Em síntese,

O Caminho do Capim ensina entre outras coisas:

  • Identificar nas diferentes visões os elementos para compor um Shiatsu mais próprio, autêntico;
  • Manter o coração aberto ao novo;
  • A capacidade de reconhecer os movimentos dos demais, suas origens, etc.;
  • Atuar sob o prisma da terapia paliativa é trabalho valoroso.

O Caminho do Cipreste ensina entre outras coisas

  • Profundidade gera segurança e respeito;
  • Uma terapia profunda é a verdadeiramente efetiva e é extremamente assertiva;
  • O aprendizado profundo é lento;
  • O estado existencial é o que está por trás dos fenômenos mais rasos;

O trânsito de uma escola a outra

Profissionais que imergiram profundamente no que fazem em certa altura da vida podem desejar lateralizar. É comum. O profundo, complexo, prolixo, um dia se cansa e decide ser simples, sem questionamentos, sem temas pesados. Igualmente cansa de ficar na superfície aquele que após anos se esforçou para atender bastante, ajudar muito, e aprender uma gama de coisas de origens e visões tão distintas.

Parece que a maturidade traz ao Cipreste um relaxamento ao típico radicalismo, e ao Capim, um movimento de aprofundamento em direção a si e a Vida. Assim ocorrem os trânsitos do praticante por entre as Escolas Essenciais, até a Maestria, e talvez além dela.

A Maestria e os Caminhos

Os dois Caminhos possuem seus mestres, e identifica-los é tarefa do aprendiz. “Quando o discípulo está pronto o mestre aparece”; quando está pronto, ele reconhece. Seja no Caminho do Cipreste, seja do Caminho do Capim, os mestres demonstram visões específicas, que delimitam a maneira como suas almas se expressam. Em todo o caso, a função maior é servir de estaca para que os ramos do discípulo possam crescer com viço e sob proteção dos vícios profissionais. E finalmente, encorajar os aprendizes a encontrar sua própria base, sua própria sustentação. E conhecimento profundo com amplitude, é possível?

Somente quando o praticante encontra seu Dô4 Único é que ele deixa de ser discípulo, e descobre que a Maestria é uma ilusão. Finalmente, ele tornou-se a Floresta, e se alegrará por ser visto ora como relva, ora árvore generosa por quem estiver seja numa, seja noutra trilha.

* * *

 * Arnaldo V. Carvalho é praticante de Shiatsu há quase vinte anos. Seu método de ensino é único, e já foi ensinado em  diversos estados do Brasil, e oito países  de 4 continentes. É autor do livro “Shiatsu Emocional”.  

1O leitor perceberá ao longo do texto diversas palavras cotidianas que utilizam caixa alta. Trataremos assim as palavras quando as colocarmos em um contexto ligado ao desenvolvimento espiritual. Caminho e Escola, por exemplo, não dizem sobre um caminho físico ou um prédio onde se tem aulas, mas respectivamente a um caminho de desenvolvimento espiritual e um modo de trilhá-lo.

2A Cerimônia do Chá, nomeada como Chanoyu ou Chadô, tornou-se há quase quinhentos anos uma prática espiritual no Japão, capaz de elevar a alma humana através de seus quatro pilares principais: Wa (harmonia), Sei (pureza), Jaku (tranquilidade) e Kei (respeito).

3Energia da vida em japonês.

4Dô, mais comumente escrito simplesmente Do, quer dizer Caminho em Japonês.

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