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2012 une festas das ciências e de grandes religiões do mundo Dia do Shiatsu

2012 une festas das ciências e de grandes religiões do mundo ao Dia do Shiatsu

Por Arnaldo V. Carvalho

Dia 8 de abril de 2012. Povos do mundo inteiro seguem com suas tradições e comemorações pela vida, pelos deuses e pelas conquistas do próprio ser humano: os budistas celebram o aniversário do próprio Buda. Os cristãos, a ressurreição de Cristo (Páscoa). Os judeus, a libertação do povo hebreu (Pesach). A ciência comemora internacionalmente o Dia da Astronomia e a medicina, a antiga luta contra a doença que tem sido o maior desafio da arte de curar em todos os tempos: o câncer (Dia Mundial de Combate ao Câncer) Um só tempo que reúne de forma singular, comemorativos a representar vários tipos de racionalidade: a científica, a médica, a religiosa ocidental e a religiosa oriental. A coincidência de datas de festas fixas e móveis alimenta o imaginário de um momento auspicioso para a humanidade.

É belo, ao praticante de Shiatsu, entender-se também como celebrante desse dia, engendrando em si a percepção de que essa técnica é hoje um pouco de cada uma dessas culturas, lógicas e saberes. Uma fusão mágica que segue evoluindo, sem perder contato com as raízes.

Sua origem é o Japão com sua cultura oriental-insular. Sua inspiração oriunda de antigos saberes da ásia continental. Sua expansão, sobretudo através da cultura ocidental; seu espírito, derradeiramente primal1. As virtudes do Shiatsu moderno vêm justamente da harmoniosa combinação cultural, que abraça aquilo que transcende a cultura: as raízes profundas do ser humano, sua relação consigo, com o outro e com a Terra.

Raízes

Ao ser criado em uma cultura ilhéu extremamente homogênea, e que após curto período de intercâmbio ainda permaneceu por mais de dois séculos afastada do contato com outros povos, o Shiatsu pôde, como parte integrante da cultura japonesa, nascer único. Enquanto manifestação viva deste povo, de certa forma essa terapia representou o desenvolvimento final de tal cultura, até ali mergulhada em si mesma. Por isso mesmo, é resultado de um sistema de saúde autêntico, que exatamente no momento de seu surgimento já começava a perder suas características autênticas, como consequência da Revolução Meiji2. Contudo, seu método de ensino já sofre influência inclusive ocidental, e suas sementes teórico-práticas não escondem a influencia continental (manchu, coreana, chinesa, etc)3. Se pudéssemos inspirar profundamente em busca de trazer ou avivar o espírito com os ares do passado oriental, revelar-se-ia nos etéreos gases que armazenam a memória dos homens muitos aromas dessa medicina continental: incensos, agulhas, ventosas, toalhas quentes, mãos hábeis, ervas, deuses e dragões – os ingredientes desse caldeirão constituiriam o que hoje denominamos Medicina Tradicional Chinesa. Os vapores da medicina oriental percorreram o continente, suas montanhas e estepes. E ao aportarem finalmente na Ilha do Sol Nascente, ali tais saberes puderam ser fundida aos preceitos do xintô4 e crenças anímicas diversas e a um cem número de hábitos e saberes de uma sociedade original, primeiramente costeira, cujas luzes eram inspiradas pelo mar, pelo sol e pela luz, e por paisagens predominantemente vulcânicas, ricas em lagos, montanhas e águas sulfurosas.

A observação desse sistema de compreensão da vida, construída pela constatação de um filosofia que por milhares de anos pensou-a e abstraiu que mecânica da vida do Ser Humano funciona da mesma maneira como a mecânica da natureza, do próprio Universo, nos remonta a uma certeza que todo humano vivo tem desde o útero ao sempre: mãos que amam são mãos que curam, regulam, afagam. O poder das mãos, do ritmo, da respiração está em cada um, desde o nascimento. É aí que vive o espírito primal transcultural no Shiatsu. Sua técnica reproduz, através do ritmo e intensidade de suas manobras, a própria pulsação da vida. Vai ao encontro do inter-relacionamento curativo, vital, utilizando o toque, o ritmo interno e a respiração harmoniosa.

O papel do Ocidente e sua maneira de pensar, contudo, não deve ser negligenciado. O método científico, aprimorado por essa cultura em seu período renascentista e iluminista, amadurecido ao longo desse tempo a atravessar nosso tempo suas tecnologias e saberes acumulados, nos ajuda a demonstrar a utilidade do Shiatsu nas áreas da vida. A ciência oferece a mente ocidental-racional uma compreensão sobre os processos da técnica. Oferece ainda suporte teórico que vem possibilitando o Shiatsu a permanecer em desenvolvimento em muitos lados. Os conhecimentos da anatomia, fisiologia, embriologia, da psicologia do desenvolvimento, do inconsciente e seus processos, da biomecânica, da etologia, da neurofisiologia e neurociência, da pedagogia e mesmo da sociologia hoje influenciam as práticas modernas, criam novas escolas e estilos, e preparam melhor o praticante para muitas situações que não se sabiam ser possível tratar com Shiatsu ou cuja atuação até bem pouco tempo era bem mais limitada.

É exatamente por utilizar a linguagem Universal além-verbo e ser amparado por uma racionalidade respaldada que o Shiatsu é aceito no mundo todo, cresce conforme as necessidades específicas de cada povo ou localidade, e vem se tornando parte da maneira de viver de cada vez mais pessoas ao redor do globo.

Consciência

Aparentemente, há níveis de consciência diferentes de pessoa para pessoa, de grupo para grupo entre os shiatsu-praticantes. Talvez o momento nos leve a afirmar que a consciência das raízes e a pulsação extra-individual do Shiatsu pareçam um pouco dispersas no coração de muitos praticantes e professores. Mesmo assim, faz-se presente a mesma pulsação e esse mesmo contato profundo, toda vez que a técnica, não importa o estilo ou base teórica, é realizado com profundidade.

Por ocasião deste dia especial, vale refletir um pouco a consciência do processo, capaz de trazer a memória da pulsação da vida durante a prática terapêutica, e quem sabe suscitar que ela se faça mais assíduo no universo dessa terapia. Comecemos por perguntar: “O quanto tal consciência conta?”, e seguida a esta, várias outras:

  • Como você estabelece seu vínculo terapêutico com as pessoas que atende?
  • Como você estabelece seu vínculo com o próprio Shiatsu?
  • Você recebe Shiatsu?
  • Você aplica em situações não profissionais, sobretudo em seu ambiente familiar?

São perguntas que exigem não apenas respostas, mas atitudes. Uma vez passando a prática, novos questionamentos insistirão em surgir: “és capaz de sintonizar sua respiração a do outro, és capaz de observar a própria pulsação, do outro e do próprio vínculo que se forma?”; “É a mão que faz Shiatsu em quem está deitado ou quem está deitado também faz Shiatsu no praticante ativo a medida em que é tocado?”

Tomar consciência e ir as raízes; olhar para frente; desmecanizar os movimentos, Permitir que a teoria e a prática se unam. Permitir que as demais sabedorias que habitam seu ser se façam presentes em seu Shiatsu diário. Fazer do Shiatsu mais do que um momento, uma maneira de vez o mundo que faz parte do próprio praticante.

São as propostas deste entusiasta que despede-se com o desejo mais simples: Feliz Dia do Shiatsu para todos!

* Arnaldo V. Carvalho, praticante de Shiatsu há quase duas décadas.

1. A origem do Shiatsu no Japão encontra influência de diversos aspectos de sua cultura, onde vários segmentos sociais abrigarão variantes da técnica. Assim o Shiatsu possui conexões com os modos de viver e pensar, samurai, zen, camponês, técnico-prático (anma ensinadas aos cegos como profissão é um exemplo desse segmento social); Sua inspiração é continental, de um conjunto de saberes que hoje vem sendo compilado como Medicina Tradicional Chinesa, que pos sua vez bebe de fontes filosóficas e crenças taoístas, pré-históricas. Sua expansão ocorreu no e através do Ocidente, que ofereceu bases teóricas de seus conhecimentos biomédicos, e popularizou rapidamente o shiatsu em seus países. O pensamento judaico-cristão não deixa de aparecer, tanto na própria história cristã no Japão (pensem nos diversos movimentos religiosos cristãos do Japão, como a Igreja Messiânica, Sei-sho-no-ie, Perfect Liberty, etc.), como por ser parte constituinte da psiquê coletiva no ocidente. Primal: iniciados nos primeiros e tempos, sob perspectivas filogênicas, psicogênicas e etológicas.

2. Revolução ou Restauração Meiji: Momento da história do Japão , que principiou no momento da derrubada do Shogunato Tokugawa em 1868 com a ascenção do imperador Mutsuhito (Meiji) ao poder. A isto seguiram-se alterações culturais sem precedentes, concomitantes a abertura de portas do Japão ao mundo. As mudanças aconteceram em todas as áreas: governo, instituição, educação, economia, saúde, religião, etc. A Era Meiji (período em o Império Japonês se estabelece sob o governo de Mutsuhito) duro até 1912. A concepção do império prosseguiria por mais dois governos até a rendição japonesa na II Guerra Mundial.

3. O que hoje chamamos de China, Coreia são países numa concepção moderna de estado. No tempo que evocamos como inspirador da cultura de cura no oriente, não se pode falar exatamente nesses países, mas nos muitos povos em constante mescla, fusão, difusão, revezamento de poder, expansão e retração. Tal estudo é de uma complexidade além da proposta deste texto. O que aqui cabe é que o Japão foi ciclicamente alvo dos impérios que se revezaram durante toda a história principalmente (mas não somente) do território atualmente chinês. Essas “ondas imperiais” trouxeram a Ilha pessoas e suas culturas, de toda a parte do oriente. Destaca-se o século VI como de talvez maior evidente influência, tanto pela chegada maciça do Zen, como pelo próprio amadurecimento da MTC nesse momento em toda a parte. Fundiram-se essas práticas aos costumes dos povos pré-japoneses e seus métodos de cura.

4. Xintoísmo: Xintô quer dizer “caminho dos Deuses”, e o xintoísmo congrega a espiritualidade tradicional dos japoneses.

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