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No chão ou na maca? Vantagens e desvantagens para os praticantes na hora de aplicar e receber Shiatsu

Professor de Shiatsu explica diferenças, vantagens e desvantagens entre o tratamento feito em dois lugares.

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Por Arnaldo V. Carvalho*

Quem procurar no Google Imagens por “Shiatsu”, encontrará a prática em duas variáveis: com os praticantes em uma sessão de Shiatsu sendo feita na maca, e outra, com o Shiatsu aplicado com a pessoa no chão. Existiria um padrão mais correto ou melhor? Qual a diferença?

Essa é uma pergunta típica de meus alunos, e a minha primeira resposta é que antes de ser uma terapia, o Shiatsu estabelece uma relação entre duas pessoas. Sim, entre dois há uma relação e isso é o ponto mais precioso do Shiatsu. E a proposta do Shiatsu é a de uma relação saudável. Esta, por sua vez, tem como pressuposto essencial ser sempre boa para cada um de seus agentes.

Assim, o Shiatsu, independente de contrapartidas materiais (no caso do Shiatsu ocorrer profissionalmente) deve atingir seus objetivos (promover o equilíbrio) não só para o interagente que “recebe” o Shiatsu, mas também para aquele que o aplica**.

Note as aspas. Nossa cultura está acostumada a manter relações unilaterais, e isso acaba sendo reproduzido no Shiatsu. Contudo, um olhar atento ao que acontece numa sessão de Shiatsu de qualidade perceberá que ambos estão ali recebendo e concedendo algo. A diferença entre os dois interagentes é que um utiliza o movimento, e o outro o “desmovimento”***.

Não adianta o interagente que fica deitado sentir-se ótimo, e o outro sair com dores, tensão, ou quem sabe até angustiado ou de mal com a vida. Do mesmo modo, não é admissível que uma sessão de Shiatsu não remeta ao que recebe os movimentos e toques a sensação de acolhimento, de que tudo o que está sendo feito lhe equilibra e beneficia, e que tudo parte de um interagente extremamente PRESENTE no momento. Refletir sobre como cada um se posiciona, como onde, quando e como, é refletir sobre a qualidade desta relação – o que permite o encontro do melhor para os dois.

Sob essa perspectiva, refletimos então, ao longo deste pequeno texto, sobre a qualidade de dinâmica possível quando o shiatsu é feito na maca e quando é feito no chão (colchonete, tatame, futon, etc.), tanto para o interagente que utiliza o movimento (no caso profissional, o terapeuta), como o que se deita e se propõe ao desmovimento (cliente).

Quanto a perícia do terapeuta em uma ou outra superfície, posso dizer que assim como um pianista clássico consegue executar uma peça popular se tanta dificuldade mas o popular já sua mais para tocar uma peça clássica, o praticante de Shiatsu que atua com eficiência no chão atua muito facilmente na maca; já o que se habituou com a maca nem sempre desenvolve bem seu Shiatsu no chão – especialmente para si mesmo. Naturalmente, isso se deve ao fato de que o chão exige uma perícia e uma harmonia psicocorporal diferenciadas em relação à maca.

Praticantes com a mobilidade comprometida preferirão num primeiro momento fazer o Shiatsu na maca. Embora a lógica indique que revezar mais músculos e mais segmentos corporais facilitaria a vida (e é por isso que os bebês primeiro engatinham e DEPOIS andam), o corpo adulto vêm padecendo mais e mais. Sedentarismo é talvez a principal causa externa. Em seguida, má alimentação, stress, e mesmo exercícios físicos comprometidos com a estética, mas nada comprometidos com a saúde.

A maca é um meio de acessibilidade para quem não pode – temporariamente ou permanentemente – ir ao chão. Quem pode, mesmo com dificuldades, poderá se beneficiar grandemente do Shiatsu no chão. O Shiatsu no chão estimula a propriocepção; Estimula a integração hemisferial do cérebro; Ajuda a melhorar a musculatura abdominal e anterior como um todo, o que favorece na sustentação da coluna; Promove um domínio do próprio corpo muito maior; Utiliza-se do peso do corpo e da gravidade para criar os toques e pressões do Shiatsu, ao invés de força; Permite que o terapeuta se alongue enquanto atua. O processo resulta numa atividade que mexe com todo o corpo, com a mente, com a respiração, e assim conserva no praticante regular uma disposição maravilhosa, uma concentração ímpar e a manutenção do contato da mente com o corpo de maneira integral. Praticar Shiatsu como agente de movimento, como terapeuta promove saúde, sendo a prática completa nesse sentido apenas no chão.

É certo que uma massagem bem feita terá resultados seja na maca, seja no chão. Não é tão certo que o terapeuta ao atender muita gente todos os dias não desgaste com o tempo certos segmentos de seu corpo ao investir em tratar continuamente na maca. O que no início pode parecer mais difícil pode ser o mais saudável, uma oportunidade ao terapeuta. O caminho mais fácil, sem dúvida a maca, não é tão propício a fazer o praticante estar presente e encontrar ali espaço para seu aprimoramento e evolução.

Para os clientes, por outro lado, a diferença pode ser menor, nenhuma, ou bem grande. Clientes grandes ou obesos têm dificuldades com a maca, porque a maioria delas não tem dimensões adequadas para esses. Clientes com baixa mobilidade podem apresentar dificuldade em “subir” na maca. Idosos ou pessoas com reflexos reduzidos por qualquer situação terão atenção extra-exigida ao virarem-se na maca. O chão oferece um ambiente seguro e elimina esses problemas, permitindo inclusive por isso uma maior entrega ao processo. Com espaço adequado, é possível fazer alongamentos que dificilmente podem ser feitos na maca. Mas a maca também permite alguns alongamentos cuja execução é difícil ou mesmo impossível no chão. A maca pode facilitar no final, pois haverá muita gente a apresentar dificuldades de se erguer do chão após uma sessão (embora também vá haver dificuldades semelhantes na maca em muitos casos). A maca permite a pendulação dos membros, que alivia articulações e pode ser realmente de grande auxílio ao terapeuta.

Outra comparação importante a mencionar é a de que, como tudo, utilizar maca ou chão emite significado simbólico inconsciente entre seus praticantes. Neste olhar percebe-se que as macas promovem uma barreira e uma situação de hierarquia entre cliente e terapeuta. Onde o chão integra, a maca limita. A maca diz: “você é uma pessoa que precisa ser ajudada, e eu sou uma pessoa que vai te ajudar”; O chão diz: “estamos os dois aqui juntos para nos melhorar”. Obviamente, há traços de personalidade que podem fazer uma pessoa em seu inconsciente entregar-se mais a uma relação desigual – seja o cliente transferindo ao terapeuta a responsabilidade de sua salvação ou seu referencial existencial (pai ou mãe), seja o terapeuta contra-transferindo ao cliente suas expectativas de reconhecimento e aprovação mediante o trabalho salvador. Há muito mais nesse campo tão complexo e tão variável a ponto de ser preciso tratar cada caso como um caso único (e é o que é), e por isso mesmo não nos alongaremos aqui. Fica para a reflexão do leitor.

Os estilos de Shiatsu e suas opções pela maca ou chão

Como o leitor precisa saber, há vários estilos de Shiatsu, e em geral uma escola elegerá um modo padrão de atuação, o que inclui a escolha de maca ou chão como melhor meio para o desempenho de sua técnica. Aqui no Brasil temos a polarização entre uma corrente humanista, propulsionada sobretudo pelo Zen Shiatsu, que usa sempre o chão como meio para a prática do Shiatsu, e de outro lado, os estilos mais mecanicistas, difundido pelos cursos técnicos, conectados a uma atmosfera mais médica-alopática-asséptica, privilegiam a maca como seu meio principal de tratamento. Mais uma vez aqui observa-se que a escolha faz parte ainda de um conjunto de máscaras pessoais pelas quais profissionais e seus atendidos tendem a sentirem-se mais adequados aos ditames da  sociedade. A maca é “mais médica’, menos pessoal, mais “limpa”, corroborando para com a expectativa de um mercado de saúde que se distancia do Ser e se aproxima do ter – ou melhor, do aparentar. No Shiatsu multidisciplinar que ensino, consideramos que o chão remete a uma atmosfera mais próxima, o que lhe traz vantagens, em especial quando entra em ação as técnicas de Shiatsu voltadas primariamente ao contato com as emoções – denominadas por nós de Shiatsu Emocional.

Como é em outras técnicas

Claro que há outras técnicas que também são preferíveis no chão, como a Thai. Curiosamente, há uma maca em que o terapeuta pode subir em cima, bem vendidas nos EUA para os profissionais da Thai. Os americanos exportam a cultura de que na maca é mais “civilizado”, mesmo forçando o profissional a subir em cima dela para executar manobras típicas de chão!

Por outro lado, há aquelas técnicas cujo trabalho na maca é necessário ou mais desejado, devido a agilidade que se pode desenvolver, ou porque precisa-se do material da superfície da maca (couro) para em conjunto com algum material deslizante (óleos, cremes, etc.) facilitar alguma manobra, etc. É o caso por exemplo do Lomilomi que utiliza grandes quantidades de óleo e usa o couro da maca para fazer algumas vezes o corpo da pessoa deitadas deslizar ou as mãos do terapeuta deslizarem por baixo da pessoa. Há ainda o grande uso de pendulações dos membros, entre outras características, e finalmente o mais importante – o movimento baseado na hula (dança), tornam a maca o meio ideal.

Em busca de uma conclusão

Talvez você fique mais pensativo. Talvez resolva experimentar praticar Shiatsu, seja “recebendo”, seja executando de um jeito diferente do que está acostumado, para sua própria verificação. Se isso ocorrer, esse artigo atingiu seu intento. Espero que o leitor possa criar com o Shiatsu uma boa relação com seu próprio corpo, com aquele(s) com quem pratica, e com a Vida – isso é o que importa verdadeiramente.

PRÓS MACA PRÓS CHÃO
Facilidade de rodar em torno dela, algumas vezes sem perder o compasso de uma manobra; Segurança ao cliente.
Braços e pernas em posição pendular podem ser úteis para certas manobras e técnicas; Permite o bom uso do Hara.
É acessível a pessoas com problemas físicos que impeçam o desenvolvimento na atividade no chão. Alonga enquanto pratica.
O ki predomina na região superior de quem aplica o Shiatsu, desvalorizando a movimentação completa de Ki, a inteligência corporal integrada. Por esse motivo, pessoas mais racionais tendem a preferir aplicar na maca, enquanto profissionais mais sinestésicos, intuitivos ou que desejam utilzar suas múltiplas inteligências no processo preferem o Shiatsu aplicado no chão. Exige domínio corporal, tornando o shiatsu uma prática que mobiliza o Ki por todo o corpo do seu praticante.
Permite o não uso da força. Tornando a prática leve, não cansativa.
Permite assumir mais posições, tanto pelo interagente que se movimenta como pelo que se desmovimenta.
DESVANTAGENS MACA DESVANTAGENS CHÃO
Não utiliza o hara. Não permite pendulações negativas (quando um membro do corpo fica dependurado para baixo)
Obriga a usar força, sobrecarregando principalmente braços, ombros e cervical. Pode ser dolorido ou não fazer bem ao corpo quando a pessoa não tem consciência corporal ou não sabe fazer as posturas corretas e harmoniosas para seu corpo.
Não trabalha o corpo do terapeuta como um todo. Pode dificultar uma pessoa que recebe de se levantar no final da sessão.
Facilidade de sair da maca em relação a levantar-se do chão, para algumas pessoas.
Antiergonômico, podendo causar problemas de coluna, inclusive lombares.

* Arnaldo V. Carvalho é Terapeuta Corporal, Naturopata, e Praticante de Shiatsu há 17 anos e ensina a técnica no Brasil e no mundo. Mais sobre Arnaldo V. Carvalho e o Shiatsu em http://www.arnaldovcarvalho.com e arnaldovcarvalho.wordpress.com, e http://www.shiatsuemocional.com.br.

*Note as aspas. Estamos acostumados a pensar no Shiatsu e em práticas corporais e massagens em geral entre duas ou mais pessoas como existindo um transmissor e um receptor, alguém a dar ou aplicar, outro a receber a prática.

** Desmovimento: Neologismo criado para esse artigo, que quer mostrar que o aparente repouso da pessoa que se deita é na verdade um repouso ativo, intencional; O cliente busca em si sua paz anterior, e o não movimento torna-se parte dele aos poucos, afrouxando músculos e articulações inteiras. O desmovimento é algo a ser desenvolvido por muitos, e está relacionado a capacidade de relaxar que para muitos infelizmente encontra-se comprometida.

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8 opiniões sobre “No chão ou na maca? Vantagens e desvantagens para os praticantes na hora de aplicar e receber Shiatsu”

  1. Maravilhoso post como sempre.
    Realmente Arnaldo, eu aprendi a realizar o Shiatsu na maca e hoje, quando tento aplicar no chão, me sinto cansado e com dificuldades em me movimentar entre uma manobra e outra. Acho que terei que reaprender no chão para que não seja tão cansativo.

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  2. Espetacular este artigo. Eu, particularmente, como fã do Zen Shiatsu, sou favorável à aplicação no chão. Me canso menos e o contacto com o receptor é mais vinculado, mais proximo.
    De qualquer forma, parabens pela comparação.
    José Carlos Ferreira
    V.N.Famalicão-Portugal

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