Massagem – A Terapia Fundamental

Tocando com tato

Você já parou para pensar um pouco sobre a expressão “com tato”? Falar, agir com tato significa ser cuidadoso, delicado, respeitoso. Mas é também agir e falar através do sentido do tato, do contato entre peles, entre corpos. Talvez por isso a expressão tenha se impregnado desse significado de delicadeza e cuidado. Falar com o tato é comunicar-se através da linguagem corporal mais arcaica e profunda, primordial.

Dentro da barriga da mãe o tato é o primeiro sentido que se desenvolve. Vamos crescendo dentro de nossa mãe imersos em sensações táteis, até chegar um ponto em que as costas e o útero parecem fundidos. É um abraço contínuo, que nos estimula e acolhe. Janov sugere que as contrações também têm a função de estimular a pele do bebê, que por sua vez estimula os sistemas corporais que serão necessários após o nascimento.

A saída pela via vaginal, com sua passagem massageante e estimulante, integra sensorialmente o novo ser. É indubitável – e várias pesquisas já comprovaram – que o nascimento natural propicia posteriormente um nível de sensibilidade corporal e desenvolvimento motor muito mais apurado nas crianças.

Parto para perto

A palavra Parto, utilizada para designar a nossa saída do corpo materno, é também muito significativa. Parto: partir (ir), partir (quebrar), apartar (afastar). Realmente, o nascimento é um momento crítico como qualquer partida.

Passamos de uma condição interna, quente, escura, de sons abafados, em que não precisávamos fazer nada para nos sentirmos saciados para uma outra, onde a temperatura, os sons, a claridade são radicalmente diferentes, onde respiramos por nosso próprio esforço e ainda por cima sentimos incômodos totalmente novos, como fome, frio, solidão. Esta passagem é um momento fundamental que deixa registros indeléveis em cada um de nós.

É uma transição necessária, sem dúvida, apesar de muitos não se conformarem até muitos anos depois (“Quero voltar pra barriga da mamãe” – gritava Rita Lee num rock emblemático). E, como todas as transições, esta pode ser traumática ou suave, tranqüila. A vaca, assim como diversos outros animais, lambe todo o corpo de sua cria logo após o nascimento. Este ato afetivo dura aproximadamente 10 minutos e o bezerro começa a tremer inteiro, se integra, sente todo o seu corpo, sua totalidade. Mais um pouco levanta-se e vai pra perto da mãe. Esta é uma recepção literalmente com tato.

Partiu-se a simbiose com carinho, afeto, sem traumas. A mãe está perto, com seu calor, sua atenção, seu amor. Para os bebês humanos, o período logo a seguir ao parto é uma experiência de vida excepcional e fundamental; é quando a qualidade do contato estabelece vínculos fortíssimos. Dr. Marshal Klaus, no seu livro “O Vínculo Mãe-Criança”, resumo de 15 anos de seu trabalho, prova cientificamente que se a mãe e o bebê forem deixados juntos na hora seguinte ao parto, cinco anos mais tarde, por todos os tipos de critérios psicológicos, os bebês estarão muito melhor que os que foram separados.

É fundamental nestes primeiros momentos de vida “cá fora”, que a mãe toque muito, acaricie e massageie seu bebê. Este intenso contato promove a sensação de bem estar, aceitação, segurança, encorajando a expansão e a busca do novo meio ambiente. Isto é vital ao desenvolvimento geral do novo ser, além de ser especialmente importante para o desenvolvimento dos órgãos sensoriais, já que todos são oriundos da pele, ou ectoderme. O parto, assim, não é mais a despedida amedrontada para o desconhecido e o nunca mais. É só uma mudança de estado, para o perto e o agora, onde a própria presença e a do outro está sendo estruturada delicadamente numa nova forma. Nenhuma despedida será mais motivo de pânico.

Com a segurança desta presença, internalizada, instaura-se as bases para se viver com tranqüilidade a inegável condição solitária que todos temos dentro de nós. Por outro lado, a ausência temporária de contato, como se dá no afastamento para o berçário e/ou com o contato com uma enfermeira hostil, pode determinar contrações no corpo e o esquivamento do olhar. Afinal, estar bruscamente num lugar totalmente diferente, só, sem todas aquelas sensações que eram familiares, pode ser aterrorizante (mesmo para um adulto!).

Isto pode ser superado se a situação for apenas temporária. Mas o realmente prejudicial é o isolamento e a contínua falta de contato com uma mãe fria e incapaz de se dar. O extremo da ausência de contato com a mãe pode produzir até a criança autista, sem dúvida um dos problemas mais graves que pode acontecer a uma pessoa.

Felizes como cangurus

O ideal é que o bebê tenha o máximo de contato possível de pele com pele. O método milenar de manter o recém-nascido amarrado ao corpo, hoje chamado Mãe-Canguru é capaz de operar melhoras “milagrosas”. O tempo de internação de prematuros cai dois meses para 15 dias e o benefício emocional é entusiasmante. Um pesquisador que trabalhava com primatas e outro que lidou com órfãos da Segunda Guerra Mundial constataram que “bebês prematuros que foram pelo menos massageados durante quinze minutos três vezes ao dia, aumentaram de peso 47% mais rápido do que outros que se mantiveram isolados em suas incubadeiras”. Em 1988, o New York Times publicou um artigo sobre o papel crítico do contato no desenvolvimento infantil; nele se mencionava o “estancamento psicológico e físico de crianças privadas de contato físico, ainda que bem alimentadas e cuidadas”.

Bebês com bom contato e que eram massageados com freqüência mostraram sinais de que seu sistema nervoso estava amadurecendo mais rápido: eram mais ativos e respondiam mais a rostos e a sons. Comparados oito meses depois, os bebês massageados obtiveram resultados melhores nos testes de capacidade mental e motriz. Eram mais risonhos, alegres e vivazes. Será por isso que os cangurus têm uma cara tão gozada e vivem saltitando?

A química que faz crescer…

Diane Ackerman, no seu excelente livro “História Natural dos Sentidos”, relata alguns experimentos feitos por Saúl Shanberg, da Universidade de Duke. Saúl descobriu que os cuidados que a mãe rata proporciona às suas crias, lambendo-as e penteando-as, produz nelas modificações químicas; quando a cria foi afastada da mãe, diminuíram seus hormônios de crescimento.

A OCD (enzima que assinala que é hora de começarem certas mudanças químicas) caiu em todas as células do corpo, o mesmo acontecendo com a síntese protéica. O crescimento recomeçou somente quando a cria foi devolvida à mãe. Shanberg na verdade era pediatra e estava interessado especialmente em nanismo psicosocial. Algumas crianças que vivem em lugares emocionalmente destrutivos deixam de crescer. Ele constatou que nem as injeções de hormônios de crescimento podiam estimular os corpos dessas crianças para que voltassem a se desenvolver. Por outro lado, um cuidado terno e amoroso sim.

O afeto que passaram a receber das enfermeiras bastou para que voltassem ao caminho do crescimento. Ou seja, com contato, carinho, atenção, o processo de estancamento se tornava totalmente reversível! Ele deduziu que os animais dependem do fato de estar perto da mãe para a sobrevivência básica. Se se elimina o contato materno (que seja por 45 minutos, no caso dos ratos) o bebê diminui sua necessidade de comida para manter-se com vida até que a mãe volte. Este metabolismo mais lento resulta numa parada do crescimento. O contato assegura ao bebê que ele está a salvo, oferece ao organismo via livre para desenvolver-se normalmente. Muitos experimentos comprovam que os bebês mantidos mais tempo nos braços se tornaram mais alertas e desenvolviam, anos depois, maiores aptidões cognitivas e estabilidade emocional.

Aquele abraço…

Pelas características de nossa espécie, somos totalmente dependentes de contato para sobreviver nos primeiros anos. (Na verdade, nos anos seguintes também). Quando saímos da barriga de nossa mãe uma série enorme de funções ainda não estão amadurecidas, o que vai acontecendo paulatinamente “aqui fora”. Sob esse aspecto podemos dizer que todos nascemos prematuros. Um recém-nascido não sobrevive sem um outro ser para acolhê-lo ( à exceção lendária de Rômulo e Remo e sua loba-mãe – dizem que por isso os italianos são tão estridentes e devotos de sua sagrada mama…).

Existem inumeráveis evidências que as experiências das primeiras fases de vida estruturam uma memória corporal, que passa a dar forma e direção ao funcionamento do organismo. As primeiras vivências da criança – e suas marcas prazerosas ou ameaçadoras – registram-se em seu funcionamento energético; são “matrizes” a partir das quais as demais experiências irão se sobrepor. A qualidade do abraço na primeira infância determinará se a pessoa sente prazer em ser abraçada atualmente, ou se isto a incomoda e portanto evita este contato. Muito da segurança que sentimos ou não, hoje, tem origem na maneira como fomos seguros na infância. A brincadeira de se jogar bebês para o alto, a fim de se obter um sorriso nervoso pode originar ansiedades de queda que apresentamos hoje em dia.

A mão firme e afetuosa do pai ao caminhar com o filho permite à criança se largar na observação do mundo, instaura confiança e vínculo. O contato corporal, o carinho gostoso e o cafuné afetivo relaxam o ser, alimentam a auto-estima, abrem as portas para prazer sensorial e para o amor. A prática da Shantala, a massagem de bebês de origem indiana, é uma bálsamo para quem a recebe. Crianças assim massageadas são mais calmas e tranqüilas e desenvolvem uma capacidade de contato muito maior que as que foram pouco tocadas. Pegar, tocar, acariciar as crianças é maravilhoso para elas e, muitas vezes, tremendamente terapêutico para seus pais. É

impressionante a plasticidade do ser humano, moldando-se e adaptando-se para permanecer vivo. Mas mais impressionante é o fato que, apesar das distorções que nos impomos para sobreviver, (como quase deixar de respirar, por medo, por exemplo), podemos ser “recuperados” em nosso funcionamento natural, através da “revivência” de contatos plenos, carregados de afeto.

As mensageiras do coração

“Tocamos o céu quando colocamos nossa mão num ser humano”. Novalis As mãos são as partes de nosso corpo que mais se ligam ao significado amplo do tocar. São elas as que frequentemente realizam a experiência do contato. E tocar é também ligar, ajudar, orientar. O significado das mãos para o ser humano é imenso. Para muitos antropólogos evoluímos a partir delas: a presença do dedo opositor – polegar – nos possibilitou movimentos finos através da ação de pinça e com isso a ampliação de nossa capacidade de manuseio e manufatura de utensílios e instrumentos.

Mãos estão ligadas ao fazer, ao dar e receber, ao auto-erotismo – tão fundamental na constituição sadia de nossa auto-estima. Elas são agentes do nosso amor, realizando as intenções do coração ao trazer para perto do peito o ser querido; e também da nossa defesa instintiva. Exteriorizam nossa agressividade e concretizam nosso sonhos. São elas que dirigimos aos lugares de nosso corpo que doem ou que se lastimam. É através das mãos que emitimos mais energia do nosso ser. Todas as culturas registram práticas de cura com elas.

Relatos de impostação de mãos permeiam textos tradicionais e sagrados. Nas narrativas de milagres, o toque da mão é o gesto símbolo. E a paz se estabelece com o aperto de mãos. (Pare o texto agora e observe um pouco suas mãos. Veja as diferenças entre elas. Perceba as qualidades, os conteúdos e histórias que cada uma traz em sua forma e energia… Não precisamos aprender com os ciganos a ler as mãos. Todos sabemos; é só olhar e deixar despertar a sensibilidade.).

Mãessagem

Mão é feminino, contato materno, colo, banho, carinho. A mão – mesmo a masculina – na sua função de ajuda, tem que guardar esta memória funcional/afetiva. O toque traz, em si, a mensagem verdadeira e direta que centenas de palavras não conseguirão expressar. Desenvolver, deixar desabrochar esta qualidade de teor tão feminino, é absolutamente fundamental.

Ao tocar o corpo de alguém, no âmbito da Relação de Ajuda, estamos remetendo – e indo junto também – aos primórdios de nossos tempos, mexendo com as memórias profundas que todo corpo guarda. Aí residem nossos sentimentos e emoções, nossos medos e prazeres mais remotos. A esse contato especial, abre-se a receptividade, baixam-se as defesas, e o feto, o bebê, a criança aparecem e se expressam novamente. A mão/mãe refaz seu trajeto. Aí é possível recuidar, reparar e, muitas vezes, renascer.

Mesmo num toque firme e profundo, que vise desatar um nódulo muscular ou abrandar uma couraça profunda, a afetividade do toque deve estar presente. E ela é sentida, apesar e através da dor. No meu entender, o sentimento que um toque expressa, no mágico trabalho da Massagem, é muito mais importante, no meu entender, que o domínio da técnica, do que a precisão da localização de um ponto ou de um músculo. Não menosprezo o conhecimento teórico nem a habilidade técnica, mas com certeza a presença afetiva e o compartilhar emoções que brotam pela via delicada do contato com mãos amorosas é algo que regenera dores profundas, de todas as épocas. “Quando você chegar a ser sensivelmente tocado, a venda cairá de seus olhos, e com os olhos penetrantes do amor você discernirá o que os seus outros olhos jamais viram”. Fenelon (1651/1715)

Uma arte da ajuda

Por essas constatações e vivências chego a reflexões sobre este ofício tão lindo e profundo que é tocar pessoas numa Relação de Ajuda. Na minha opinião, a importância da Massagem ainda não está devidamente dimensionada no contexto das práticas terapêuticas. (Muitas vezes, nem pelas próprias pessoas que a praticam).

Reich introduziu e valorizou seu uso no contexto psicoterapêutico, mas sinto que ela ainda ocupa um lugar subalterno neste campo. Apesar de Lowen ressaltar frequentemente a importância do trabalho corporal na psicoterapia, constato que sua utilização ainda é vista como somente acessória. E mesmo o atendimento pela Massagem, no universo das Terapias Corporais, ainda é colocado num campo, digamos, secundário. Esta hierarquização não condiz com o que vivi e vejo acontecer na prática clínica.

Dignifico cada vez mais esta prática, ainda mais dentro deste tempo narcísico e cada vez mais sem contato que vivemos, onde as relações crescentemente acontecem intermediadas por máquinas e aparatos eletrônicos, onde grades cercam jardins e gentes, onde a competição é exaltada como um valor maior e a violência cultuada e incentivada desde a mais tenra idade. Além de toda a importância terapêutica que já falamos, restaurando um funcionamento mais natural na pessoa, identifico no trabalho da Massagem Terapêutica, dentro do contexto social que vivemos, uma série extra de atributos: o restabelecimento e valorização do contato corporal, consigo e com o outro; a ampliação da referência humana nos sentimentos e emoções, a vinculação solidária com o semelhante e a restauração da capacidade de contatar com o outro de maneira mais livre, simples e profunda.

O artesanato da ajuda, onde o auscultar, o tocar e o sentir o outro tem tanta importância quanto um exame laboratorial, precisa ser recolocado no seu devido patamar de importância. A relação humana direta e solidária, sentimentalizada, emocionalizada, tocada, é profundamente terapêutica, insubstituível. A Massagem é uma expressão privilegiada desta arte. A todos que querem trabalhar com Relação de Ajuda, quero oferecer o testemunho de minha experiência neste belíssimo ofício: tocar em gente é fundamental, é transformador, é profundo, é inteligente. Experimente!

Ralph Viana

*   *   *

PUBLICADO PELO BLOG SHIATSU EMOCIONAL COM AUTORIZAÇÃO DO JORNAL BEM ESTAR

2 comentários a “Massagem – A Terapia Fundamental”

    1. Ralph Viana é um dos mais antigos psicoterapeutas corporais a estudar o pensamento reichiano, e um dos que mais divulgou as idéias reichianas e neo-reichianas. O curriculo dele é extenso, tendo ele passado por diversas fases ligadas a esse movimento. Não é meu parente, apesar do Viana. Sem dúvida o texto é muito muito bom!
      Arnaldo.

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